Histórias

Paula Rego em entrevista exclusiva

Paula Rego

Arquivos/EdT05 — Depois de Júlio Pomar e Manuel Cargaleiro, Paula Rego assinou a terceira edição da série exclusiva Reverso/Arte Portuguesa da Jaeger-LeCoultre. A consagrada pintora abriu as portas do seu atelier em Londres para revelar a sua particular visão do tempo feminino e contar os segredos por trás do tema escolhido: um tema polémico, carregado de erotismo e ambiguidade.

Entrevista publicada no número 05 da Espiral do Tempo (2002)

Basta uma visita ao seu atelier de Kentish Town, no norte de Londres, para se mergulhar no fascinante universo de Paula Rego — um nome incontornável na arte portuguesa contemporânea que é actualmente a artista plástica nacional mais consagrada além-fronteiras, tendo ganho vários prémios e participado em inúmeras exposições.

Paula Rego

© Kenton Thatcher/ Espiral do Tempo

 

Nascida em Lisboa no ano de 1935, Paula Rego viveu no Estoril e estudou na St. Julian School de Carcavelos até frequentar a Slade School of Art, em Londres, entre 1952 e 56. Casou com o também pintor Victor Willing e regressou para viver na Ericeira, alternando depois entre a capital inglesa e Portugal de 1963 a 1975, até se estabelecer definitivamente em Londres a partir de 1976. É actualmente conferencista convidada da Slade School of Fine Art e primeira artista associada da National Gallery desde 1990.

No entanto, essa crescente ligação a Inglaterra não está claramente patente no estúdio da artista. O atelier de Paula Rego é como que um refúgio para a sua alma lusitana e está pejado de adereços simbólicos e ícones bem portugueses — de um Portugal do antigamente, da juventude da artista. Há também pássaros empalhados, bonecas, cerâmica, espelhos, móveis e trajes um pouco por todo o lado, tornando o ambiente ainda mais místico. E, claro, há telas e estudos de telas onde a omnipresença feminina se faz sentir de maneira poderosa e perturbante.

Paula Rego

© Kenton Thatcher/ Espiral do Tempo

A potência das suas imagens parece inversamente proporcional à aparente fragilidade da própria artista. Paula parece suspensa no seu próprio mundo, pairando de modo etéreo, expressando-se com a ajuda de inconscientes variações de voz. A força da sua mente criativa parece estar ao serviço da mulher; Paula é uma feminista assumida e uma contadora de histórias através de imagens. Para ela, não há pintura se não há história. «A mulher é uma história por contar; a história das mulheres nunca foi contada em pintura», refere. Mas a sua obra conta a história da condição feminina desde sempre, recorrendo a composições complexas onde a componente física das suas personagens exala uma sexualidade reprimida; é um teatro funesto onde as protagonistas sofrem em silêncio, se prestam a jogos de poder e a laços emocionais ambíguos.

Nas paredes ou simplesmente no chão, a sala da direita do estúdio está dominada por estudos e telas sobre o romance ‘Jane Eyre’, de Charlotte Brontë, e sobre o aborto. Com cenas potentes que emocionam e inquietam, seduzem e denunciam; com mulheres humilhadas mas triunfantes, que provocam tentação e transgressão. Paula é sublime no utilizar do grotesco para abordar tabus e fobias enterrados no subconsciente mas que permanecem à flor da pele. E é precisamente a posição ambígua da mulher em relações traumáticas que surge como tema central da gravura da artista para a edição limitada do Reverso com a sua assinatura: está lá todo o seu simbolismo, toda a carga erótica, toda a hierarquização. Afinal de contas, um retrato da condição feminina através dos tempos.

Paula Rego

© João Andrés/ Espiral do Tempo

Como é que surgiu a ideia da sua participação no projecto Reverso/Arte Portuguesa da Jaeger-LeCoultre?
O Pedro Torres falou-me no projecto e aceitei o desafio. Optei por escolher uma imagem que tenho usado ao longo dos anos, com variações. É uma imagem um bocado sexual, um pouco como se fosse a Leda e o Cisne. Ela está a dar um beijo ao pássaro, neste caso o pelicano — um pássaro que é suposto dar de comer aos filhos através dos seus próprios intestinos. A imagem traduz uma violência sexual, mas é uma espécie de tentativa em que há alguma cumplicidade por parte da mulher, senão teria fugido. Mas ela senta o bicho ao colo e levanta a cabeça… só que ele é um bocado palerma e, de certo modo, até é ela que manda nele.

E o que é que a levou a escolher essa imagem para representar o tempo?
Escolhi essa imagem para representar o tempo porque se trata de algo que se passa eternamente, desde sempre, como se fosse um ritual: um que domina o outro, é o tempo eterno. Mas quando se fala em tempo, eu normalmente também imagino um homem velho de barbas com uma foice; acho que essa é a imagem tradicional que temos do tempo. Se é uma caveira com um esqueleto, então representa a morte — mas o tempo não é um esqueleto, é um homem… é assim que imagino o tempo.

Paula Rego

© Kenton Thatcher/ Espiral do Tempo

Considera que existem diferentes conceitos de tempo para o homem e para a mulher?
Em português, o tempo é uma palavra masculina; em francês, também. Em inglês, não é masculino nem feminino. Há um quadro de um pintor alemão que mostra o homem e a mulher e as suas fases através do tempo, mas a imagem através do tempo é um homem.

Tendo em conta a teoria da relatividade, há situações em que o tempo passa mais depressa e outras mais devagar. Acredita que se passa o mesmo em relação ao homem e à mulher, tendo em conta a omnipresença de figuras femininas na sua obra?
Existe algo essencial nas mulheres que não existe nos homens: os nove meses da gravidade e os períodos menstruais a cada mês. Até uma certa idade da mulher, o tempo está marcado todos os meses; os homens não estão biologicamente programados como as mulheres. Para além disso, o tempo passa igualmente mais depressa ou mais devagar para ambos dependendo do facto de as pessoas estarem envolvidas apaixonadamente com alguma coisa — ou, caso contrário, se estão chateadas. Eu sou uma mulher e é natural que desenhe mais as mulheres, porque tenho mais experiência do que é ser uma mulher. Não tenho a mínima ideia do que é ser homem. A ideia principal que transmito através dos personagens femininos varia, mas há sempre aquela ideia de quem é que manda em quem, quem é mandado e quem é que manda, uns que servem os outros, outros que são servidos, quem é que quer ganhar o poder, o sofrimento e a posição secundária das mulheres ao longo dos séculos.

Paula Rego

© Kenton Thatcher/ Espiral do Tempo

É portuguesa, mas está intimamente ligada a Inglaterra. São duas culturas completamente diferentes — uma latina, outra anglo-saxónica. Existe um tempo diferente em Portugal e na Inglaterra?
Em Portugal, as pessoas são menos pontuais do que em Inglaterra — em Portugal não são mesmo nada pontuais e fico nervosa quando as pessoas chegam atrasadas. Em Inglaterra são mais pontuais. São países diferentes e em Portugal há sol; é diferente quando há sol, as pessoas estão mais descontraídas e podem adormecer na praia; aqui não há sol. É verdade que me faz muita falta o mar: o mar cura; é muito reconfortante estar ao pé do mar. Quando chegamos ao mar, já sabemos que não podemos ir mais longe. Gosto muito e quando vou ao Estoril dou sempre aquele passeio à beira-mar até Cascais.

Depois de ter vivido no Estoril e na Ericeira, não estranha os tons cinzentos da meteorologia britânica?
Quase já não dou por isso. Ao princípio sim, agora não. Os meus pais mandaram-me estudar para Inglaterra porque o meu pai dizia que Portugal não era país para mulheres, pelo menos naquela altura, do Salazar — e com toda a razão: não era país para mulheres nem para homens. Então fiz o curso de inglês, mandou-me para Inglaterra e vim estudar para a escola de arte. Depois ainda fui para Portugal viver com o meu marido durante cinco anos, quando os meus filhos eram pequeninos. Voltámos para cá porque o meu marido precisava de ensinar e de ganhar mais dinheiro, porque em Portugal ele não podia ensinar. Depois de ele morrer, fiquei por cá e já estou habituada.

Paula Rego

© Kenton Thatcher/ Espiral do Tempo

Qual é a sua fonte de inspiração?
Gostava de saber… é muito difícil ter-se ideias! Às vezes há alturas em que não há ideias e isso não é nada agradável. Não há regras para coisas que dêem inspiração. Mas o que é mesmo bom para as ideias é andar de comboio; os corpos em movimento fazem despertar coisas na cabeça. Uma ressaca a uma grande bebedeira também ajuda porque ajusta as ideias, as ideias soltam-se, passa-se qualquer coisa que estabelece umas ligações na cabeça… eu não era propriamente uma alcoólica, mas ‘puxava-lhe’ e devo dizer que me fazia mal. Mas deixei de beber. Nem era um vício, era uma alegria e gostava de ficar bêbeda. Ajudava-me no processo criativo, libertava-me e no dia seguinte tinha sempre ideias. Mas o álcool dá cabo das pessoas — enfim, não se pode ter tudo. Eu agora não bebo, por isso tenho de andar mais de combóio… todos os dias apanho o autocarro para vir para o estúdio.

Toda esta ligação entre amo e servo, a dinâmica entre mestre e servente patente na sua obra, os seus trabalhos sobre o aborto — acha que é papel fundamental do artista ser interventivo e fazer despertar a consciência social?
Absolutamente nada! Não é nada responsabilidade do artista — é responsabilidade de toda a gente. Só trabalho com esses temas porque me pesam muito e me interessam profundamente; não é por consciência social, é porque fico com pena e indignada com as injustiças. Faz-me indignar que a lei do aborto em Portugal continue na mesma, que não haja mudança e que não seja legalizado o aborto — e que as pessoas tenham de fazer as coisas às escondidas, às vezes com grandes dificuldades e com perigo de vida. Isso indigna-me.

Paula Rego

© Kenton Thatcher/ Espiral do Tempo

A religião ocupa um papel importante na sua vida?
Fui educada numa comunidade católica. Acredito em milagres, mas não gosto do Papa. Se fôr a uma igreja, prefiro ir a uma igreja católica pelos quadros e esculturas. Não gosto do Papa nem das coisas da igreja católica, mas gosto das imagens e dos milagres.

As suas obras têm tido alguns traços em comum — uma personagem feminina que é omnipresente, um gosto pelo vestuário, a insistência em cenas de interiores…
A personagem feminina é a Lila, que tem sido o meu modelo principal há já muitos anos e que é como uma cumplice para mim. É portuguesa de ao pé de Viseu, de Lourosa. Trabalhou em nossa casa quando o meu marido estava doente e depois de ele morrer tornou-se enfermeira; agora trabalha mais comigo aos fins-de-semana e feriados. Quanto aos trajes, eles também contam a história — não são só as pessoas. O que as pessoas vestem faz parte da história que se quer contar.

Paula Rego

© Kenton Thatcher/ Espiral do Tempo

As suas obras são muito baseadas em histórias e em contos — que parte da sua vivência transparece nas suas telas, que retratam sobretudo cenários interiores?
Várias coisas. Por exemplo, a mobília na série da Jane Eyre é a mobília do quarto da minha avó. Como trabalho dentro de um atelier, é difícil trabalhar lá fora; sinto-me mais à-vontade com as casas do que na natureza: é dificil desenhar árvores, têm muitas folhas! É difícil uma pessoa sentir-se à-vontade ou confortável a desenhar lá fora; gosto mais de estar em casa do que na rua. Gosto de estar na praia, que tem a areia e o mar e não é tão complicado. É verdade que os interiores tornam a minha obra mais claustrofóbica, mais fechada… mas no entanto há sempre uma porta, há sempre uma última saída como se fosse um último recurso. Tem de haver sempre um último recurso, não é? Nem acho que haja saída para tudo — há coisas que não têm mesmo saída, mas voltamos as costas, olhamos para outro lado e seguimos…

E qual é a sua opinião sobre os críticos?
Cada pessoa tem a sua própria interpretação dos factos e faz a interpretação que quer… ET_simb

Save

Save

Save