Histórias

Carminho em entrevista exclusiva

Carminho com um Raymond Weil Jasmine

EdT38 — A nova embaixadora da Raymond Weil nasceu Carmo Rebelo de Andrade, mas as ruas de Alfama, onde cresceu e se fez gente, crismaram-na, com o afeto de quem acolhe um dos seus, ‘Cárminho’. Calcorreados que foram o mundo terrestre e o das emoções, emergiu Carminho, a fadista, uma mulher que insiste em ser do tempo presente, apesar de carregar na alma e nas veias a tradição e a vivência do fado. Em cima de um palco, são a presença leonina e a voz inesquecível que impressionam, porque carregadas da verdade que é a do seu ser. Fora do palco, é o sorriso – como ela, único.

Análise originalmente publicada no número 38 da Espiral do Tempo.

Como é que surgiu o envolvimento com a Raymond Weil?
Foi um convite feito pela Torres Distribuição, representante da marca em Portugal. Devido aos valores da marca e à forma como ela se posiciona no mercado, sentiram que eu podia ser coerente com essa imagem.

A tradicional ligação da Raymond Weil à música, e mesmo ao fado, fez parte do que a seduziu na marca?
Evidentemente que sim. É uma marca que se direciona para o universo musical, ou seja, para aquilo que eu mais amo fazer na vida. Isso, naturalmente, despertou a minha atenção e fez-me ver a marca com olhos mais emotivos e mais artísticos do que aqueles com que veria outras marcas de relógios.

Carminho com um Raymond Weil Jasmine © Espiral do Tempo / Nuno correia

Carminho com um Raymond Weil Jasmine © Espiral do Tempo / Nuno correia

Fez uma viagem sabática. O que a motivou, o que aprendeu, o que mudou na sua forma de ver o mundo?
O meu curso de marketing acabou de uma forma um pouco fria e deixou-me com imensas dúvidas, com imensas indecisões em relação ao marketing, em relação ao fado, em relação à minha própria posição no mundo. A minha personalidade estava em formação e tive muitas angústias. Como uma das muitas atividades que fiz durante a faculdade tinha sido o voluntariado, decidi viajar e colocar o voluntariado no centro dessa viagem. Dei a volta ao mundo, estive em vários países, conheci culturas muito distintas, gente muito diferente de mim. Tudo isto permitiu que eu me reposicionasse em relação a Portugal, reposicionasse Portugal no mundo, alargasse exponencialmente o espetro do meu olhar e, sobretudo, o meu entendimento da diferença. Passei a aceitar a diferença de uma forma genuína, indo ao encontro do outro, mas observando-o primeiro para perceber do que ele precisa. Uma lição válida no voluntariado que se expandiu para todas as áreas. Tudo isto levou-me ao ponto de onde não posso mais fugir e que foi a descoberta da minha vocação na música e no fado. Esta viagem ajudou-me a resolver as minhas angústias e fez-me decidir, de corpo e alma, pelo fado.

E que tempo é aquele em que a Carminho vive?
Eu vivo no séc. XXI. Sou uma pessoa que tem amigos do mesmo século, e tenho a ambição de vir a estar sempre no presente e no futuro próximo, acompanhando a evolução do mundo. Não sou nostálgica, revivalista ou saudosista, não tenho pena de não ter vivido noutras épocas. A minha postura, a minha música e a forma como eu a encaro têm que ver com a tradição que trago comigo, com a forma como o fado corre no meu sangue sem eu o ter escolhido. Mas esta tradição é suportada pela minha história de adolescente, de jovem, de rapariga que vai aos mesmos sítios onde vão músicos de outras áreas, sítios onde o mundo se constrói e se redescobre.
Gosto imenso de saber de onde venho, até porque canto uma música com tradição, e, portanto, a História é algo que me interessa muito, mas não me retenho no passado.

Raymond Weil Jasmine

Raymond Weil Jasmine Ref. 2935-PCS-00659 e Ref. 5235-STS-00659 © Raymond Weil

Se a mãe, Teresa Siqueira, não tivesse cantado o fado, a Carminho seria fadista? Foi o facto de o fado ser presente na sua vida desde a infância que a despertou para ele, ou sente que há algo no fado que inevitavelmente a chamaria?
Sinto que o fado está no meu sangue e, principalmente, na minha forma de sentir o mundo. É claro que o facto de a minha mãe ser fadista e de me ter mostrado muito do que sei hoje, fez com que não tivesse sido muito dificil encontrá-lo. Se tivesse nascido noutro país talvez cantasse a sua música tradicional.

A sua ascendência fadista é mais do fado aristocrático que do fado vadio, mais popular. Mas a garra com que a Carminho canta, a voz, a expressão corporal não é tão aristocrática como isso…
Eu não sou muito fã dessas designações, porém, admito que elas existam, porque as pessoas se movimentavam em meios distintos e os ‘fados’ iam crescendo paralelamente, de forma diferente. Mas eu tive a sorte de os meus pais me terem mostrado um bocado de tudo. Em casa, tinha discos da Amália, da Beatriz da Conceição ou da Maria Tereza de Noronha que, lá está, são três ambientes de fado distintos: a Amália, uma mulher do mundo; a Beatriz da Conceição, uma mulher tradicional de Lisboa, urbana, bairrista; a Maria Tereza de Noronha, uma aristocrata. Mas eu ouvia tudo sem filtros, aleatoriamente. Mais tarde frequentei durante muito tempo a casa de fados da minha mãe no coração de uma Alfama onde sempre me movimentei de forma perfeitamente natural, e onde cantavam a Beatriz da Conceição ou a Celeste Rodrigues, acompanhadas pelo Fontes Rocha, o Ricardo Rocha, o Paquito. Pessoas muito diferentes que eram o meu universo do fado, um universo muito alargado. A minha forma de cantar é o resultado dessa mistura, e dessa mistura resultou aquilo que eu sou.

    Carminho com um Raymond Weil Jasmine

Carminho com um Raymond Weil Jasmine © Espiral do Tempo / Nuno correia

Como instituição nacional que o fado é, acarreta alguma responsabilidade cantá-lo – quando se canta ‘lá fora’ é o País que se representa. Acresce a esta responsabilidade a dos ‘mitos ancestrais’ que pairam em permanência – a Amália, o Marceneiro, tantos outros. Às tantas, não se torna ‘pesado’ cantar o fado?
Eu tenho um enorme respeito pelas carreiras dos fadistas que me antecederam, um enorme respeito, como o tenho se pensar que represento um país. Mas eu canto aquilo de que gosto, aquilo que eu sei. E aí represento não o país, mas o fado. O fado é uma música de verdade, que exige a verdade, que exige entrega, e este é o grande peso de o cantar. Quando eu canto o fado lá fora, tenho a consciência de que comigo vem o meu país e que vem a sua tradição, mas o grande peso sinto-o quando me deparo com o público. O grande desafio e o peso que sinto quando estou em cima de um palco devem-se às pessoas que estão à minha frente. E, aí, quero representar a verdade, sim, mas a verdade daquilo que eu sou. Porque só sei falar dessa verdade e não da verdade dos tais mitos ancestrais. Se ficasse presa a outras posturas, a outras formas, ainda que geniais, de cantar, não estaria a ser leal para quem está a assistir.

Para a artista Carminho, o fado é tudo ou há outras sonoridades a explorar?
O fado não é tudo. Mas o fado é transversal a tudo na minha vida. Tenho muitos interesses e na música, então, quase todos os géneros me tocam. Gosto muito e ouço muita música, gosto de desporto, gosto de várias formas de arte, de teatro, de pintura, de escultura, gosto de ler, gosto de crianças, gosto das coisas bonitas da vida, gosto de coisas belas e harmoniosas, gosto da preocupação que o ser humano tem, constante, de tornar o mundo mais fácil através da beleza — e isso traduz-se nas diversas formas de arte. O fado é transversal a tudo isto, está cá dentro desde sempre, e acho que estará sempre, independentemente de muitas outras coisas que faça na minha vida.

Raymond Weil Jasmine

Raymond Weil Jasmine Ref. 5235-S5-00659 e Ref. 5235-ST-00659 © Raymond Weil

Independentemente de muitas outras coisas que cante na sua vida, diria eu. Ouvi a música que gravou com Pablo Alborán, que não é fado, mas onde se reconhece a fadista.
Não estou a cantar fado, mas aquela sou eu, sim.

O que é que o fado tem de intemporal?
Tem de intemporal o facto de cantar os temas mais profundos do ser humano. A não ser que se substitua o coração por uma máquina, enquanto o ser humano for como é, física e emocionalmente, há-de sentir o que sentiu desde sempre: o medo, a angústia, a saudade, o amor, a paixão, a amizade, há-de sentir-se só, há-de sentir-se feliz, e tudo isto é a grande matéria-prima da arte e mais precisamente do fado.

    Carminho com um Raymond Weil Jasmine

Carminho com um Raymond Weil Jasmine © Espiral do Tempo / Nuno correia

O seu primeiro disco foi muito aguardado, mas, apesar disso, confirmou as expetativas tendo sido encarado como um disco maduro. O próximo? Quando é e como será?
É difícil eu classificar os meus discos. O disco, que é meu, que é do produtor, que é dos músicos, é, para nós, um disco maravilhoso, não só pela participação de todos, mas pelo repertório escolhido. Houve um cuidado muito grande no primeiro disco, haverá no próximo e haverá sempre um cuidado muito grande na escolha do reportório, na escolha de um poema, na escolha daquilo que canto. Tanto eu como o Diogo Clemente tivemos uma grande preocupação com esta escolha, mas será sempre um disco com a nossa idade, com a nossa forma de sentir, com a nossa história. Tem uma parte de fado tradicional, com músicas muito antigas e com poemas novos que serão postos nessas músicas. Os temas do fado não morrem e isso faz com que sejam as canções a ser mais importantes que tudo. Também tem canções inéditas compostas por mim e por outros autores — a quem pedi temas e que fiquei feliz por aceitarem — e sai em janeiro. Eu gosto muito dele. ET_simb