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ENTREVISTA – Cristiano Ronaldo e Franck Muller

Franck Muller e Cristiano Ronaldo

EdT40 — À quadragésima edição, e pela primeira vez, fizemos uma entrevista a dois, um mano a mano entre um dos maiores relojoeiros da atualidade e um dos maiores génios futebolísticos da atualidade. Cristiano Ronaldo (CR ) e Franck Muller (FM) são, também, dois ícones dos tempos modernos nas suas áreas de atividade. O primeiro propôs-se fazer uma edição limitada dedicada ao segundo e a comunhão de propósitos, e a cumplicidade que se desenvolveu entre ambos, tornaram-se notórias nesta entrevista.

Análise originalmente publicada no número 40 da edição impressa da Espiral do Tempo.

Se o trabalho de um relojoeiro é necessariamente meticuloso e fruto de uma enorme capacidade de concentração, não é difícil pensar que é assim que Cristiano Ronaldo está na sua profissão, como um relojoeiro e, talvez por isso, Franck Muller tenha sentido tantas afinidades com o jogador. Também não é dificil ver o CR7 como uma peça de alta-relojoaria. No corpo de Ronaldo, a mais ínfima peça tem que estar bem oleada e tem de funcionar na perfeição para que se cumpram os seus objetivos de precisão. Nesta conversa, no entanto, pretendeu-se esquecer o futebol, tanto quanto possível, e fazer uma entrevista diferente das muitas que Ronaldo dá por ano para os media de todo o mundo. Franck Muller voou propositadamente de Nova Iorque para Madrid e a cumplicidade entre os dois entrevistados, que se traduziu na ótima disposição de ambos, facilitou os nossos propósitos.

Franck Muller – Cristiano Ronaldo – QP Bi-Retro CR7 from EspiralTV on Vimeo.

Li num artigo do Le Monde que uma criança se ri cerca de 150 vezes por dia. Fazes ideia quantas vezes, em média, ri um adulto?
CR — (pausa) Metade, talvez.

15 vezes.
CR — (risos) Eu rio-me mais do que 15 vezes por dia.

Era aí que queríamos chegar. És uma pessoa com sentido de humor?
CR — Sim, dependendo do enquadramento, das pessoas com quem estou.

E que é que te faz rir?
CR — Uma boa conversa, uma anedota, uma história…

O humor britânico?
CR — Prefiro o humor português que me faz mais sentido. É na nossa língua, é mais fácil de entender a lógica ou as referências.

Qualquer criança tem sonhos. Tirando os sonhos que têm que ver com a tua carreira, que outros sonhos tinhas, em criança?
CR — Por acaso não era muito de sonhar, pelo menos com os olhos fechados. Sempre sonhei com os olhos abertos. Tirando os sonhos que têm que ver com o futebol, o meu sonho de sempre foi ter um filho, e esse já o realizei.

© Espiral do Tempo

© Espiral do Tempo

E tu Franck, que sonhos de criança tiveste que não realizaste?
FM — (em francês) – Tenho um sonho desde criança que ainda não realizei, conduzir um trator ou um caterpílar. Sabes que quando fizemos obras em Genthod havia muitos caterpílares no local, já que foi uma obra de 70.000 m². Ainda pensei em pedir aos operários para me deixarem conduzir um mas depois decidi não o fazer: significava prescindir do meu sonho. Assim, ainda o tenho, hoje.

(para CR) O Franck disse que…
CR — (risos) Eu percebi, eu percebi, queria conduzir um trator.

E este teu relógio, uma edição limitada a sete exemplares para o mundo inteiro, é a concretização de um sonho?
CR — Tudo o que sejam edições limitadas, sobretudo da marca Franck Muller que é uma marca que eu já conhecia e da qual já tinha quatro ou cinco relógios, e o facto de ser o próprio Franck Muller a oferecer-mo, uma edição limitada que me homenageia, acho que é… é espetacular, é algo que qualquer pessoa gostava de ter. Este foi um dia importante, o facto de ter almoçado com ele, de ter convivido com ele, foi fantástico. E aprendi muito.

O FM não escolheu um relógio qualquer para esta edição limitada, não chegou ao pé de ti e disse «olha, vou pôr o teu nome num mostrador» e já está. Não, sendo o ‘Mestre das Complicações’, foi à procura de uma complicação, neste caso um calendário perpétuo. Já tinhas um calendário perpétuo na tua coleção?
CR — Não, não tinha. O meu conhecimento relojoeiro é comum, não sou um profundo conhecedor. Só com esta edição limitada, e nas conversas com o Franck, é que percebi verdadeiramente a complexidade de uma peça destas. É, sem dúvida nenhuma, um relógio de topo e acho que relógios de topo têm de estar com jogadores de topo. (risos)

© Espiral do Tempo/ Nuno Correia

© Espiral do Tempo/ Nuno Correia

Uma razão para escolher um calendário perpétuo foi o simbolismo que traz o facto de o calendário ser perpétuo, e que fazia especial sentido pela colagem a um nome global que será, todos acreditamos, uma referência durante muitos anos. Também o sentiste dessa forma?
CR — Claro e isso é muito importante para mim. O meu objetivo de carreira é ir o mais longe possível e fazer perdurar este nome durante muito tempo. Além disso acho que este relógio se enquadra naquilo que nós somos, eu e o Franck. Além de gostar da marca Franck Muller acho que eu e ele temos coisas em comum. Ambos acreditamos nas nossas capacidades, no nosso potencial, e por isso é que ele tem o sucesso que tem.

O que mais te seduz num relógio?
CR — Gosto de relógios clássicos mas também gosto de viver a minha idade, porque não vou ter 27 anos a vida inteira. Também depende do que usar em termos de roupa, das cores, da disposição.

E o que é que mudou, naquilo que te atrai num relógio, ao longo dos últimos, digamos, 10 anos. Mudou alguma coisa?
CR — Mudou. Eu gostava muito de relógios com muitos diamantes, por exemplo. Agora gosto de outro tipo de peças, mais clássicas, peças elegantes, com design. Estas coisas dependem da idade, vamos crescendo, vamos aprendendo, vamos observando, ouvindo opiniões e mudando.

Na tua vida há segundos que demoram mais que segundos?
CR — A minha vida é muito dependente do tempo. Tudo o que eu faço é derivado ao tempo, ao tempo que eu levo a fazer as coisas e àquilo que faço no tempo que tenho. Num penalti, tudo se decide em frações de segundo. Outras vezes, quando estamos a ganhar e precisamos daquele resultado, o tempo não passa, cada minuto parece uma hora. A minha vida baseia-se muito nas horas, nos minutos, nos segundos, no cumprir de horários. Gosto de estar sempre a horas, gosto de ser pontual, gosto do british time.

© Espiral do Tempo/ Nuno Correia

© Espiral do Tempo/ Nuno Correia

O Jack Nicklaus, uma lenda do golfe, terá dito que «quanto mais treino, mais sorte tenho». Concordas?
CR — Acho que ninguém alcança nada se não trabalhar porque as coisas não caem do céu. Todos os que têm muito sucesso nas suas áreas, são pessoas que trabalham mais que as outras.

Franck, o que achas?
FM — A capacidade de trabalho é importante, mas é fundamental fazer o que se gosta e é importante suplantarmo-nos. E é isso que nos junta aqui hoje.
CR — Pois, eu adoro aquilo que faço.

Como é que vês outros ícones do desporto como o Michael Jordan, o Usain Bolt ou o Michael Phelps? Qual é o denominador comum que existe entre tu e eles enquanto atletas de exceção?
CR — (pausa) Há uma coisa que julgo que os une: o gosto por ganhar, a mentalidade vencedora, o caráter e o potencial humano e atlético. Os três que mencionaste são atletas que vão ficar para a história porque são os melhores de sempre.

Franck, achas que há coisas em comum entre o Cristiano e outros expoentes nas suas áreas, pessoas que tu conheces?
FM — O talento que as une e a vontade de tomar a vida nas mãos e, de mãos abertas, dar o máximo de si. As pessoas que estão neste patamar, às tantas, ‘já lutam’ não contra os outros, mas contra elas próprias. Têm que ter talento e ser trabalhadores mas, às tantas, o confronto passa a ser com eles mesmos.

Cristiano Ronaldo e Franck Muller

© Espiral do Tempo

Vimos uma entrevista que deste ao Pedro Pinto para a CNN, em que ambos falavam em inglês. Aquilo soou-nos estranho, ver dois portugueses a fazerem uma entrevista em inglês. Também é estranho para ti quando tens que o fazer?
CR — (risos) Não, é normal. Ele tem que fazer o trabalho dele e fá-lo para um canal de língua inglesa. Eu prefiro falar português mas, como qualquer português, temos a capacidade e facilidade em falar outras línguas. Nós, portugueses, temos essa disponibilidade, gostamos de aprender e temos de aprender para nos valorizarmos — e eu acho que o fazemos bem. Em Inglaterra falamos inglês, em Espanha castelhano. Para mim já é um hábito.

Como é que tomas as tuas decisões, aquelas que têm moldado a tua vida e a tua carreira? Pensas muito nas coisas, és rápido a decidir, aconselhas-te, estudas os assuntos, és instintivo?…
CR — Depende das situações. Claro que tenho pessoas que me aconselham, seja qual for a área.

E respeitas essas opiniões ou conselhos?
CR — Claro que sim. É uma virtude saber ouvir, e isto é válido não só para mim, mas para todas as pessoas. Quem toma as decisões sou eu. Acertadas, menos acertadas ou erradas são sempre as minhas decisões. Mas gosto de ouvir, seja na minha vida pessoal ou profissional.

E também dás conselhos, também te pedem conselhos?
CR — Claro que sim. Tenho essa disponibilidade, sem dúvida, e não só na minha área mas noutras áreas. Costumo dar conselhos, embora não muitos. Não convivo com muitas pessoas a quem tenha a oportunidade de dar conselhos, mas os poucos conselhos que dou, julgo que são adequados.

© Espiral do Tempo

© Espiral do Tempo

Tucídedes, historiador grego, terá escrito há 2500 anos «O segredo da felicidade é a liberdade. O segredo da liberdade é a coragem». Tu és uma pessoa, hoje em dia, com a liberdade muito condicionada. Como é que te estás a ver daqui a 30 anos, com mais liberdade?
CR — Sim, sem dúvida que me vejo, daqui a 30 anos, com muito mais liberdade. Ou não, ou não (risos). Para ser sincero, não estou minimamente preocupado com isso. Tento desfrutar o momento, o presente, já que não vale a pena pensar muito no futuro. Mas é claro que, derivado ao que faço hoje, tenho mais pressão do que quando terminar a carreira e isso reflete-se na minha liberdade. Se calhar, depois de abandonar as chuteiras farei alguma coisa onde também exista alguma pressão, mas não será como agora.

E tu Franck, alcançaste a tua liberdade?
FM — Sim, mas sabes que paguei muito caro para ter a liberdade que tenho hoje. Mas a felicidade é amar, e ser amado, a familia e os que nos são mais próximos.

Cristiano, achas que vais viver bem o abandonar da carreira, o envelhecimento, sem o reconhecimento constante dos fãs?
CR — Sim, é um processo normal e é bom que seja. A nossa carreira é uma coisa que fazemos durante muitos anos, durante uma grande parte da nossa vida, já que começamos ainda crianças, e ela acompanha o nosso crescimento e a nossa formação como pessoas. Já falei com alguns jogadores que abandonaram o futebol e eles dizem que custou muito acabar a carreira, mas também dizem que vivem melhor agora do que quando jogavam. E isso precisamente por causa dessa liberdade que têm hoje e que antes não tinham. Estou curioso para ver se vou ter a mesma opinião.

Mas ainda não estás ansioso por isso, pois não?
CR — (risos) Não, não, ainda estou muito longe disso. ET_simb

© Espiral do Tempo

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