Histórias, Relógios

ÍCONES | Rolex Daytona: Primus inter pares

Rolex Daytona

Edição impressa | O Rolex Daytona cumpre em 2013 meio século de vida, mas a crise da meia idade não atingiu de todo o carismático cronógrafo de pulso. Entre versões vintage e contemporâneas, o Daytona ocupa um lugar muito próprio no seio da relojoaria: é um dos instrumentos do tempo mais desejados do mundo e, cada vez mais, um recorrente recordista em leilões especializados.

Originalmente publicado na edição impressa da Espiral do Tempo, número 44.

Rolex Daytona

Rolex Cosmograph Daytona, 1963 © Rolex/Jean-Daniel Meyer

Como ícone relojoeiro, o Rolex Cosmograph Daytona guarda os seus segredos: desconhece-se o nome exato do responsável pelo seu design considerado canónico, é difícil enumerar as razões que sustentam a sua crescente procura e valor em leilão, ignora-se o paradeiro de algumas versões raras que são mais apetecíveis do que qualquer petisco no El Celler de Can Roca e adjetivá-lo torna-se uma tarefa emotiva para os seus aficionados. Mas entre sigilos e lendas, o certo é que o Daytona surge como uma espécie de deus no Olimpo da relojoaria, graças a um misto de linhas perfeitas, mecânica de qualidade e imaginário potenciado pelo universo automóvel e por Hollywood. O mito celebra em 2013 cinquenta anos de uma vida cheia de histórias.


Cosmograph Daytona

A saga dos cronógrafos Rolex começou na década de 1930 e prolongou-se sem investimentos profundos ao nível da mecânica interna. Ainda assim, os modelos cronográficos da marca foram evoluindo gradualmente até ao aparecimento, em 1960, do Cosmograph com referência 6239, um cronógrafo derivado da linha antimagnética da Rolex e que, pelo grafismo, disposição das funções, linhas e soluções técnicas, surge como antecessor do Rolex Daytona.

Rolex Daytona

Rolex Cosmograph Daytona, 1965 © Rolex/Jean-Daniel Meyer

Esse cronógrafo acabou por ser bem recebido nos Estados Unidos e levou ao lançamento, em 1963, de um novo Rolex Cosmograph 6239, batizado Daytona como tributo a Daytona Beach, cidade cuja praia foi palco de fervorosas competições automóveis de velocidade entre 1903 e 1958. Com caixa em aço (ainda não Oyster), botões redondos não aparafusados, coroa Twinlock, mostrador contrastante e luneta taquimétrica, o Daytona evoluiu para a versão 6241 com diferenças apenas ao nível dos materiais da luneta e, daí em diante, foi um proliferar de novas variantes – incluindo edições em ouro que tiveram menos aceitação em solo americano e que levaram a Rolex a ponderar derreter as caixas para utilizar o metal precioso de outra forma. Felizmente, o interesse do mercado italiano evitou uma solução tão drástica e o sucesso em Itália acabou por contribuir para a promoção do Daytona até mesmo nos Estados Unidos. Em plena era da loucura pela velocidade, no período pós Segunda Guerra Mundial, nascia o relógio dos pilotos que se tornaria um objeto de culto por excelência.


Paixão e investimento

Desde o seu lançamento que o Rolex Daytona tem o dom de despertar paixões. Tem classe, presença e, como clássico, tendência para melhorar com o tempo. Entre aficionados de modelos Rolex vintage, principalmente aqueles que, segundo Philippe Stahl, co-organizador de eventos dedicados a colecionadores Rolex, «não puderam comprar um Daytona no passado e querem agora algo de especial» (QP, Nº 49 2011), a oportunidade de adquirir um Daytona é a concretização de um sonho. Afinal, há mesmo quem o refira como o relógio de pulso mais desejado de sempre.

Rolex Daytona

Rolex Daytona ‘Paul Newman’ Ref. 6265, Ouro amarelo © Antiquorum

Atualmente, é bem conhecida as listas de espera de vários anos para aquisição de um Rolex Daytona novo, uma loucura que tem o seu reflexo também ao nível dos leilões. O meio século do Daytona tem sido celebrado com leilões exclusivos e provocou licitações competitivas vindas de todos os cantos do planeta. O leilão Important Modern & Vintage Timepieces, realizado pela Antiquorum no passado mês de maio, em Genebra, apresentou em hasta um conjunto de Daytonas – entre os quais um 6263 em ouro amarelo de 18 quilates com uma rara coloração amarelada no mostrador (dito ‘lemon’) e elementos distintos, como a coloração branca dos números e indexes dos contadores. Para um leigo, tais pormenores não passariam de pequenos nadas; para o colecionador que conseguiu arrematar a peça significaram 841.300 CHF (cerca de 689.590 euros), o valor mais elevado alguma vez obtido em leilão por um Daytona e ainda mais surpreendente tendo em conta que, na década de 60, os Daytona introdutórios em ouro amarelo que tiveram pouca aceitação nos EUA eram vendidos a um preço de retalho de 495 USD (hoje cerca de 375 euros).

A explicação para o crescente interesse pelo Daytona poderia estar à luz da febre por relógios de pulso vintage; no entanto, o cinquentenário cronógrafo é um fenómeno de popularidade desde que foi lançado e, ainda hoje, sempre que uma evolução do Daytona é apresentada suscita reações da mais diversa ordem. Mas tendo em conta os números mais recentes em leilões, há cada vez mais aficionados a descobrirem no Daytona não apenas uma paixão para a vida, mas também um investimento.


Sinónimo de perfeição

Rolex Daytona

Rolex Daytona – Platinum, 2013 © Rolex/Joël Von Allmen

A harmonia dos elementos no mostrador e o trabalho de acabamento são referidos como aspetos fundamentais no momento de passar para palavras o je ne sais quoi que faz do Rolex Daytona um rei entre reis. Em traços gerais, tem mantido a mesma configuração de elementos no mostrador desde sempre. «O seu design é emblemático – a perfeição encarnada. A sua iconografia assenta em cinco círculos: três contadores no mostrador, o mostrador propriamente dito e o círculo da luneta» explica Wei Koh, fundador e editor da revista Revolution, para a The Rolex Magazine.

Por outro lado, às linhas que tornam o Daytona reconhecível à primeira vista unem-se elementos funcionais: a legibilidade proporcionada pela disposição tricompax e pelo contraste de cores entre mostrador e submostradores, a seleção de funções essenciais enquanto relógio desportivo, a caixa assente numa ergonomia comprovada. Depois existe o argumento Rolex. A marca tem revelado preocupação em melhorar a mecânica debaixo do capot do Daytona e dotar o cronógrafo com as fiáveis soluções que são cruciais em qualquer relógio Rolex. A história do Daytona traduziu-se em três séries distintas, de acordo com o movimento utilizado e as que são equipadas com o movimento Zenith 400/El Primero são particularmente procuradas.


King of cool

Rolex Daytona

Paul Newman, com um Rolex Daytona no pulso. © Douglas Kirkland/Corbis

O Daytona sempre dispôs de um mostrador com dois contadores para as horas e minutos do cronógrafo e por um submostrador dos pequenos segundos. A luneta com escala taquimétrica é a cereja no topo do bolo. Ligeiras alterações no grafismo e nos materiais utilizados foram, no entanto, sendo introduzidas, dando origem a diversas declinações que têm vindo a ser lançadas desde há 50 anos. São as alterações que fazem de algumas versões verdadeiras espécies em vias de extinção e são as subtis variações que poucos conhecem e até mesmo imperfeições que cativam cada vez mais a comunidade de colecionadores.

Rolex Daytona

Rolex Daytona ‘Paul Newman’, de 1963 © Rolex/Jean-Daniel Meyer

Entre as edições vintage mais procuradas encontram-se os Daytona com mostrador ‘Paul Newman’, uma designação utilizada para traduzir um tipo de mostrador contrastante com características muito específicas (ver pdf). Denominado também mostrador exótico, o mostrador Paul Newman é muito popular e começou a ser assim designado por colecionadores italianos pelo facto de o ator norte-americano ter surgido na capa de uma revista com um Daytona que teria sido uma oferta de Joanne Woodward, sua esposa. Ao longo da sua carreira, tanto em palco cinematográfico como em competição automóvel, foram muitas as ocasiões em que Newman ostentou um Daytona. Nem sempre a mesma versão, mas sempre com o mesmo tipo de mostrador ao qual ficou até hoje ligado.

Rolex Daytona

Rolex Ref. 6263 – Daytona Paul Newman, ouro amarelo (‘lemon’) © Antiquorum

Na mesma linha de ligações icónicas entre Hollywood e relojoaria, como Steve McQueen e o TAG Heuer Monaco, o Daytona passou a ser associado às qualidades únicas de Paul Newman: um cronógrafo ‘cool’, com classe, espírito aventureiro e estilo inconfundível. Às suas qualidades, acresce um perfil de exclusividade. É que os Rolex Daytona Paul Newman foram criados durante uma época muito específica, entre os anos 60 e 70 e, apesar de existirem diversas referências com este mostrador, nunca foram revisitados pela marca. O cronógrafo em ouro com referência 6263 arrematado em maio no leilão de Genebra ostentava precisamente um mostrador ‘Paul Newman’.


Do passado ao presente

Com a celebração dos 50 anos do Daytona, a Rolex apresentou uma nova versão do Daytona com caixa em platina (a primeira vez que o Daytona é condecorado com uma caixa concebida neste material), luneta castanha em cerâmica Cerachrom e um mostrador azul ártico, outra estreia no âmbito da coleção tendo em conta que é uma cor apenas associada aos modelos em platina. Os cinco círculos que caracterizam a perfeição de um design que pouco mudou regressam em força e simbolizam as cinco décadas de evolução do cronógrafo. Hoje designado Rolex Oyster Perpetual Superlative Chronometer Officially Certified Cosmograph Daytona, o cronógrafo tem um nome à altura dos seus múltiplos casamentos com as mais diversas inovações, fruto da evolução dos tempos, e vive graças ao calibre 4130, cada vez mais aperfeiçoado.

Rolex Daytona

Rolex Daytona – Platinum, 2013 © Rolex/Jean-Daniel Meyer

Venerado no mundo inteiro, o Daytona «é a prova irrefutável de que quando as circunstâncias o permitem, quando as estrelas se alinham e a inspiração tem encontro marcado, o homem pode atingir o divino e criar um objeto capaz de ultrapassar os géneros, as culturas, as línguas e os efeitos de um tempo ele próprio com o poder de atração eterna universal» – estas palavras de Wei Koh traduzem o efeito de devoção que o cronógrafo provoca na sua legião de fãs. Em termos práticos, o Daytona é preciso, robusto, fiável, com uma elevada qualidade de acabamentos, um design canónico e uma história ímpar. Mas, acima de tudo, tem um carisma inquestionável. ET_simb