Histórias

ENTREVISTA EXCLUSIVA – Bertrand Gros

Bertrand Gros

EdT48 — A Rolex é um nome gigante no mundo da relojoaria. A marca da coroa é sobejamente conhecida e reconhecida, por razões tangíveis e intangíveis. A robustez e fiabilidade dos seus relógios não chegam para explicar um percurso continuamente ascendente. Porque não é só dos relógios que se trata. Bertrand Gros, presidente do conselho de administração da Rolex, levantou ligeiramente o véu que tende a pairar sobre a atividade da marca.

Originalmente publicado na edição 48 da Espiral do Tempo.

A nomeação de Jean-Frédéric Dufour para novo CEO da Rolex foi uma das mais surpreendentes notícias do mundo da relojoaria, nos últimos tempos. Poucos estavam à espera desta espécie de revolução no seio da marca suíça. Isto porque o perfil jovem do nomeado (tem apenas 45 anos), bem como o facto de ter sido ter sido rebuscado do contexto exterior – da Zenith, marca histórica, mas que está sob a alçada do grupo LVMH – não iam ao encontro das normais opções de um potentado como o é a Rolex.

Dufour torna-se no sexto dirigente máximo daquela que é considerada a mais famosa marca relojoeira do mundo e o quarto, desde que, em 2008, Patrick Heiniger (que, em 1992, havia sucedido ao pai, que por sua vez sucedeu ao fundador Hans Wilsdorf) deu lugar a Bruno Maier, substituído por Gian Riccardo Marini, em 2011. Para muitos, a opção pode parecer estranha, embora não seja esta a opinião do presidente do conselho de administração da Rolex, Bertrand Gros, que concedeu recentemente uma entrevista exclusiva ao jornal Le Temps: «A contratação de Jean-Frédéric Dufour surge como um passo lógico e natural», refere, e não tem que ver com o estado atual dos negócios da empresa. Atualmente, para a Rolex, tudo caminha para ‘o melhor dos mundos’, como referido em Candide. Aquilo que Gian Riccardo Marini alcançou é particularmente notável – e é graças a este trabalho que a Rolex se encontra numa posição ainda mais saudável».

Rolex -  Bertrand Gros - Deep Sea 'D-blue' dial

Rolex Deep Sea ‘D-blue’ dial © Rolex/Alain Costa

Rolex -  Bertrand Gros - Cellini Time

Cellini Time © Rolex/Jean-Daniel Meyer

Na verdade, segundo o presidente do conselho de administração, 2013 representou um ano financeiro recorde para a Rolex: «Nunca o desempenho da marca tinha atingido um tão elevado nível. Trata-se de um marco histórico. E as perspetivas para 2014 são extremamente promissoras – em particular porque os novos produtos lançados na última edição da Baselworld foram muito bem recebidos.» Nesta linha, o objetivo da marca é continuar a receita do sucesso não só no presente, mas também no futuro, pelo que «numa visão a longo prazo, o conselho de administração, com o acordo da direção-geral, está gradualmente a preparar a futura geração que comandará a empresa nos próximos 15 a 20 anos». Daí a contratação de Jean-Frédéric Dufour; no entanto, ressalve-se que o atual momento de renovação não significa revolução: «a chegada de uma nova pessoa não significa obviamente uma mudança ou uma alteração radical da cultura e da filosofia da empresa. Nem da nossa estratégia comercial. Cultivamos valores essenciais e inalteráveis que a empresa respeita e que permanecerão vivos. Homem de grande inteligência, Jean-Frédéric Dufour compreendeu esta realidade. No entanto, tendo em conta a idade, a experiência, o talento e a visão exterior, apresentará provavelmente novas ideias que permitam perpetuar e consolidar a posição de liderança que a Rolex ocupa», explica Bertrand Gros.

Perante uma tal perspetiva, não é difícil perceber que a Rolex é um caso à parte no universo da relojoaria, uma marca que faz da tradição um exercício, mas que, em simultâneo, vai revelando sempre, de forma discreta, um caráter inovador – assim o mostra através das opções estratégicas e assim o mostra através da própria coleção de relógios. Curiosamente, o atual posicionamento da marca no seio da relojoaria justifica-se nas origens. Para Gros são três as razões de ordem histórica e cronológica que estão na base do estatuto Rolex: «Primeiramente, o génio do fundador da empresa, Hans Wilsdorf – um homem excecional que foi responsável, entre outras coisas, pela invenção do relógio de pulso com corda automática e estanque. Subjacente a todo o seu trabalho, estava a obsessão pela excelência e pela performance, as quais foram também associadas a grandes conquistas desportivas. Estes valores inspiraram-nos e formam atualmente a base do marketing da empresa». Por outro lado, «nos anos 1970, praticamente todo o setor da relojoaria decidiu apostar nos relógios de quartzo. André Heiniger, diretor-geral da companhia na época, opôs-se a esta orientação. Para ele, o relógio mecânico representava a perícia dos artesãos que fabricavam os nossos relógios. O futuro veio provar que ele tinha razão» e esta opção «deu-nos uma vantagem de muitos anos em relação aos nossos concorrentes.» Por fim, refira-se a importância da verticalização da produção: «nos últimos 20 anos, a Rolex adquiriu os seus mais estratégicos fornecedores, integrando-os na estrutura da empresa. As unidades de produção foram modernizadas e ampliadas, e hoje oferecem um excelente desempenho, destacando-se entre as melhores do setor. Isto confere à empresa um grau inigualável de autonomia, independência e flexibilidade, fatores indispensáveis à expansão.»

Rolex -  Bertrand Gros - Sede rolex em Geneve

Sede Rolex em Genebra © Rolex/Cédric Widmer

Rolex -  Bertrand Gros - workshop Bienne

Novas instalações Rolex, para produção de movimentos, em Bienna. © Rolex/Rémy Lidereau

No entanto, há quem considere a Rolex uma marca pouco inovadora, principalmente no que diz respeito à evolução dos seus instrumentos do tempo, algo com que Gros discorda: «tivemos um excelente feedback em relação aos nossos novos modelos, lançados em Baselworld; em especial a linha Cellini, cujo sucesso superou as nossas expectativas. Para os próximos anos, ainda temos reservadas muitas outras surpresas. Com os recursos de que dispomos em matéria de criação, pesquisa e produção, não há limites para a inovação e o aperfeiçoamento dos nossos relógios». Aliás, o percurso de inovação da marca passa mais pelo lançamento de soluções técnicas exclusivas que contribuam para um posicionamento ímpar no mercado do que propriamente por grandes surpresas no design, na coleção de relógios – apesar de relógios como o Sky-Dweller ou mesmo o Sea-Dweller representarem verdadeiros marcos no domínio da inovação, no próprio seio da empresa. O caso da espiral Parachrom é flagrante: numa altura em que o fornecimento de espirais da Nivarox, empresa-líder no mundo da relojoaria, caminha para uma drástica redução, a opção por alternativas técnicas próprias e exclusivas é sinónimo de inovação e de verdadeira independência, num setor que conta muito com o fornecimento de terceiros. Mas depois há também novas ligas como o Rolesor, dispositivos inovadores como o fecho Glidelock, pensado para relógios de mergulho, entre muitos outros elementos fora de série. Para quem duvida, a personalidade e sucesso da Rolex remonta às origens e a verdade é que a marca mantém um percurso ímpar de inovação. O próprio modo de atuação da empresa tem muito que se lhe diga. E, quando se fala em discrição, Bertrand Gros responde: «a Rolex tem uma boa estratégia de comunicação, só que essencialmente focada no produto e nos elementos que o circundam. Além das campanhas publicitárias tradicionais, divulgamos amplamente os eventos aos quais a Rolex está associada, em especial nas áreas do desporto e da cultura, e os programas filantrópicos ‘Mentors and Protégés’ e ‘Rolex Awards for Enterprise’. Quanto à empresa em si, há 18 meses convidámos 60 jornalistas para a inauguração da recém-alargada ala de produção de movimentos, em Bienna. Para nós, foi um grande passo que merecia ser partilhado.»

Rolex -  Bertrand Gros - Parachrom

Balanço e espiral Parachrom © Rolex/Christophe Lauffenburger

Rolex -  Bertrand Gros - Glidelock

Fecho Glidelock © Rolex / Jean-Daniel Meyer

Continuando na tentativa de definição da especificidade da Rolex, Gros considera que «cada marca tem a sua própria identidade. E quem diz identidade, diz diferenciação. Enquanto algumas se focam na quantidade, por exemplo, outras, como a Rolex, têm como prioridade a qualidade e a excelência. A tendência é para a Rolex se concentrar em si própria, questionar-se continuamente, fixar novos objetivos e atingi-los. A concorrência é indispensável e saudável, revigora a indústria e permite consolidar a sua notoriedade no plano internacional». Por outro lado, «tal como o nosso fundador nos ensinou, cultivamos o sentido da exclusividade e de uma certa raridade. Concretamente, a empresa não pretende aumentar a produção para inundar os mercados com os seus relógios. Todavia, quando a procura é elevada, adaptamo-nos à situação. Atualmente, o nosso parque industrial tem capacidade para reagir de forma quase imediata.». A isto se chama inovar continuamente e estar preparado para o futuro. Mas, no que diz respeito ao futuro, há sempre desafios. Algo que não assusta de modo algum o atual presidente da marca: «ao longo dos anos, definimos objetivos que, embora fossem considerados extremamente audaciosos, sempre conseguimos superar. Mesmo não sendo possível crescer indefinidamente, nada nos impede de imaginar que a empresa continuará nesta linha. Não vejo razão para, a longo prazo, a Rolex não continuar a sua expansão. O estatuto social inerente à reputação da marca, o espírito de inovação e a cultura corporativa deverão continuar a alimentar o imaginário das novas gerações em todo o mundo. A Rolex é única e estou convencido de que assim continuará.» ET_simb