Histórias

ENTREVISTA | Thierry Stern, presidente da Patek Philippe

Thierry Stern © Patek Philippe

EdT48 / em Plan-Les-Ouates — É sexta-feira e espera-nos uma gigantesca estrutura metálica na entrada principal da manufatura relojoeira em Plan-les-Ouates. «Não se assuste! São os organizadores do Festival Paleol de Nyon  que estão encarregados da logística», responde-nos Thierry Stern, presidente da Patek Philippe. Com um sorriso nos lábios, visivelmente satisfeito com os preparativos da celebração oficial dos 175 anos da marca, encontramo-lo inalterado desde o nosso último encontro, em 2011.

Versão completa da reportagem publicada no número 48 da Espiral do Tempo.

Na altura, a Patek Philippe apresentava um surpreendente e muito inovador regulador com calendário anual. Recentemente oficializado como presidente da marca, e com o sentido prático bem evidenciado, Thierry Stern assumia sem complexos um papel determinante na inovação da Patek Philippe, mesmo correndo o risco de assustar os mais iconoclastas apaixonados pela marca. Hoje, nesta entrevista exclusiva à Espiral do Tempo, a ‘revista de quase todos os relógios’, focou-se essencialmente na temática da inovação num contexto fortemente marcado por quase dois séculos de tradição. Uma conversa descontraída, mais do que uma entrevista formal, entre frases fortes e risos cúmplices. Thierry Stern afirma e defende, com convicção, a sua estratégia para o futuro da Patek Philippe. Um momento partilhado raro que merece bem a nossa 48.ª capa!

Thierry Stern Patek Philippe Annual Calendar Regulator Ref. 5235G-001

Patek Philippe Annual Calendar Regulator Ref. 5235G-001, com o Oscillomax® – sistema de escape totalmente composto por peças em Silinvar® © Patek Philippe

Como conjuga a Patek Philippe o verbo ‘inovar’ no quotidiano?
A inovação está na base da minha educação; desde a mais tenra idade que oiço esta palavra associada à Patek Philippe. Ela representa também a continuidade de um savoir-faire que deve evoluir constantemente. Uma marca como a Patek Philippe, de base tradicional, não pode pretender ser líder na relojoaria sem inovar. É impossível. No entanto, evitamos as inovações gadget para nos concentrarmos nas funções úteis, nos novos materiais ou ainda na melhoria da marcha do relógio.

Há quase uma década que a Patek Philippe utiliza o Silinvar®. Quais são, hoje, as vantagens e os inconvenientes desta nova liga, do ponto de vista industrial e do ponto de vista da montagem do movimento?
Colaborámos, desde o início, com especialistas para poder produzir em laboratório o Silinvar®. De seguida, os relojoeiros aprenderam a adaptar-se a este material tão robusto, como frágil. Enquanto, por exemplo, o relojoeiro pode, com os materiais tradicionais metálicos,  encastrar numa peça sem danos, ele terá de ser mais cuidadoso para não quebrar as mesmas peças em Silinvar®. Hoje, 80 por cento dos nossos calibres estão equipados com a espiral em Silinvar®.

Alguns protagonistas da relojoaria opõem-se ao silício, argumentando que os relojoeiros não poderão reparar estas peças daqui a um século. Qual a sua perspetiva?
Enquanto houver areia haverá silício!
Na Patek Philippe, e nos nossos 175 anos de história, nós garantimos que podemos reparar todas as nossas peças, incluindo aquelas que utilizam o nosso Silinvar®. No entanto, nas grandes complicações, nós conservamos a espiral Breguet plana porque faz parte do património da marca e da relojoaria. É importante para um relojoeiro saber fazer uma curva Breguet.

Thierry Stern © Patek Philippe

Thierry Stern © Patek Philippe

O 5550P está igualmente equipado com Silinvar®, o que permite elevar a reserva de corda para 70 horas.  Encontraram algumas dificuldades na montagem desta complicação?
Na Patek Philippe, nós temos tempo para testar as peças antes mesmo da montagem: em laboratório, nos pulsos ou em aceleração. Tal implica, às vezes, atrasos de comercialização, por exemplo, no Regulador. É muito importante garantir que todos os relógios saem respeitando o selo Patek Philippe.

A equipa Patek Advanced Research trabalha hoje noutras inovações, como, por exemplo, no Santo Graal dos relojoeiros: a lubrificação?
Infelizmente, não posso dar uma resposta concreta. Posso, no entanto, dizer que esta equipa tem todos os meios para avançar. Atualmente, trabalha em cerca de 14 projetos diferentes, alguns centrados no tema do escape, apesar de eu admitir que o escape suíço é, para mim, o que revela melhor desempenho e é o mais fiável. Podemos sempre produzir séries muito limitadas com um novo escape. Mas tal não me interessa, porque eu pretendo aplicar estes avanços a toda a coleção.

Algumas marcas relojoeiras apresentaram calibres com 8 e 10 Hz de frequência e até mais. As altas frequências são objeto de pesquisa na Patek Philippe?
É tecnologicamente possível na Patek Philippe. Infelizmente, o desgaste é muito elevado para garantir relógios duradouros. Podemos chegar a ter cronógrafos com altas frequências, sem entrar nunca em exageros.

Do ponto de vista estético, porquê apresentar o 5960, cronógrafo e calendário anual, numa versão em aço? É a vontade de responder à demanda de uma nova clientela?
Adoro ouvir as recomendações dos clientes, dos retalhistas e dos jornalistas. No entanto, o meu papel é também apresentar relógios que ninguém espera. Com o 5960, tive a ideia de fazer qualquer coisa mais jovem e de nos lançarmos no desconhecido. Eu acho, por exemplo, que a data a vermelho permite imediatamente compreender que mudámos de mês. Além disso, nós tínhamos este magnífico movimento nas versões em platina e em ouro rosa. Estas versões foram descontinuadas e eu tive a ideia de avançar com o aço.

Thierry Stern Patek Philippe Ref. 5960-1A

Patek Philippe Cronógrafo e calendário Anual Ref. 5960-1A © Patek Philippe

Entre as sete coleções atuais, são raros os relógios Patek Philippe que ultrapassam os 40 milímetros, nenhum da linha Calatrava, por exemplo. A clientela atual não vos incentiva para relógios maiores?
Os tamanhos grandes são utilizados  por certas marcas que não chegam a desenvolver calibres pequenos. Na Patek Philippe afirmamos que a minaturização é justamente o mais difícil de dominar. Além disso, assim que nós começássemos a aumentar os diâmetros, seria necessário adaptar as nossas ferramentas industriais: não há qualquer interesse em ter um calibre pequeno numa caixa grande. Já experimentei usar um relógio de 45 milímetros. É agradável, mas não muito prático. Eu não quereria entrar em território de marcas, como a Panerai, que o fazem muito bem. Estamos, no entanto, a adaptar-nos porque os clientes são maiores, incluindo chineses. As nossas 200 referêncas impediram-nos de ir mais depressa. O tamanho ideal permanece hoje entre os 38 e os 40 mm.

Poucos colecionadores imaginam que a Patek Philippe comercializa 10.000 relógios de senhora, incluindo complicações…
A mulher gosta da inovação prática. Ela sabe exatamente o que quer: uma cliente de um cronógrafo Patek Philippe conhece melhor o seu relógio do que um homem. Ela associa a estética do mostrador e da caixa ao conhecimento do movimento. Tenho a sorte de contar com a minha esposa na área criativa, o que nos permite apresentar outros relógios além do Twenty-Four: o Calendário Anual, o Calendário Perpétuo, o Repetição de Minutos e o Cronógrafo Rattrapante. Nós inovámos ao apresentar estas complicações para senhora. Hoje vendemos mais relógios repetição  de minutos às senhoras do que cronógrafos rattrapante. O que não me surpreende. O nosso património de movimentos pequenos permite-nos hoje continuar a desenvolver complicações para senhoras.

Thierry Stern Patek Philippe Ref. 7000R-001

Patek Philippe Ref. 7000R-001 © Patek Philippe

O sucesso das marcas é muitas vezes associado a um produto, a um design icónico. Gostaria de reduzir o número de linhas atuais na coleção da Patek Philippe?
O meu pai sempre me disse para apresentar em Basileia numerosas novidades. Num grupo, eu não me poderia permitir fazê-lo. Isso está ligado à nossa paixão. No entanto, tem razão: nós deveríamos reduzir a nossa coleção a 150 modelos, mas a escolha não seria fácil. Aquele que ama a relojoaria deve reconhecer um Patek Philippe, caso contrário, aumentarei o tamanho do logótipo (risos).

A função de calendário anual é hoje uma assinatura da Patek Philippe. Há outras funções típicas da marca?
A repetição de minutos. Foi a Patek Philippe que relançou esta complicação, especialmente graças ao bloqueio. É igualmente reconhecível graças ao som muito Patek Philippe. Continuo a validar (ou a recusar) os relógios junto dos relojoeiros. Devo explicar a minha escolha ao relojoeiro que passou 150, 200 ou 250 horas debruçado sobre uma peça. Faz parte da minha educação relojoeira. Os investigadores estão constantemente a inovar e a melhorar o som dos nossos relógios de repetição. Trata-se de um trabalho colossal que nos levou a uma qualidade de som excecional. Mas não o comunicaremos, mesmo que a concorrência adorasse que nós o fizéssemos. (risos)

É preferível uma caixa em aço para uma repetição de minutos?
O aço é similar ao titânio, mesmo sendo um pouco mais agudo. É um bom metal, mas não representa uma diferença significativa.

Afirma que a Patek Philippe não compromete a qualidade. O selo ilustra esta vontade com critérios draconianos, como uma precisão máxima de -3, +2 segundos por dia, duas vezes menos do que o certificado C.O.S.C.
Os relojoeiros da Patek Philippe sempre viveram com estes critérios. O Silinvar® deve, por exemplo, baixar esta precisão e alcançar a precisão de um turbilhão.

O que exige mais trabalho no selo Patek Philippe?    
Os acabamentos. As pontes, os parafusos, as molas, por exemplo. Já não é suficiente ter um novo calibre, imaginado pelos nossos jovens construtores. É necessário apostar em acabamentos de excelência, quer sejam feitos à máquina quer à mão, confesso, no entanto, que na Patek Philippe, sofremos de ‘sobrequalidade’. É o nosso maior perigo. O nosso selo garante um mínimo, e deverá talvez exigir o máximo. Os nossos relojoeiros querem fazer muito bem, mas eu não posso culpá-los!

É também uma forma de afirmar a independência da Patek Philippe?
Sim. Muitas vezes me questionei: se muitos afirmam que a Patek Philippe está no topo da relojoaria, porque haveria de haver alguém do exterior a controlar-nos? Cheguei à conclusão de que não tem lógica; daí a existência do selo Patek Philippe. O que mudou é o facto de o controlo ter de ser feito constantemente. O selo de Genebra audita um relógio antes do lançamento em produção. Hoje, fazêmo-lo constantemente, garantindo assim evitar a deriva da qualidade.

Thierry Stern Patek Philippe Nautilus Travel Time

Patek Philippe Nautilus Travel Time Chronograph Ref. 5990-1A © Patek Philippe

Isso permitiu-lhe igualmente produzir no Jura, na Vallée de Joux.
Por que razão haveria de abdicar de um fabricante de mostradores como o Fluckiger, só porque está situado a uma hora de Genebra? É absurdo. O que é justo é poder trabalhar com toda a Suíça, e ir até onde estão instaladas as melhores competências. A Patek Philippe, como empresa familiar, não pode exigir aos seus fornecedores que se desloquem para o cantão de Genebra.

O selo Qualité Fleurier impõe hoje o 100 % Swiss Made.
A base dessa abordagem é justa, posso compreender e apoiar. O que importa é a preservação do savoir-faire suíço. O que representa investimentos importantes, mas necessários.

Estará presente na conferência de apresentação dos novos critérios do Selo de Genebra?
Eu não irei, mas estarão presentes representantes da Patek Philippe. Não acharia muito correto ir pessoalmente.

Como se pode inovar no serviço pós-venda?
Deveremos procurar reduzir o tempo de espera mesmo quando se trate de um relógio que seja originário do outro lado do mundo e que exija um tempo incompreensível de transporte. Devemos manter o cliente informado e não deixá-lo sozinho, sobretudo se estiver em causa uma reparação que possa ultrapassar um ano. Tecnicamente, é necessário tempo para analisar, reparar e realizar os numerosos testes, algo em que não temos alternativa. Os nossos retalhistas apreciam a nossa marca também pelo facto de os nossos relógios não retornarem ao ponto de partida, uma semana depois da aquisição.

A Christie’s anunciou a venda, em novembro, do famoso Patek Philippe Henry Graves, detentor do recorde de relógio mais complicado, até ao lançamento, em 1989, do calibre Patek Philippe e das suas 33 complicações. Como analisa hoje esta corrida ao ‘mais complicado’ ?
Eu não procuro o número de complicações, mas antes reunir o máximo de funções e de as fazer funcionar em conjunto. Contrariamente ao olhar comercial do meu pai, e devido à minha formação relojoeira, o que me interessa é fazer com que as complicações funcionem em conjunto, desde que não se trate de um gadget. Eu jamais adicionarei uma complicação eletrónica.

Estará presente neste leilão?
O meu pai estará certamente. Penso que o valor anunciado de 15 milhões é certamente muito elevado, pelo menos para o Museu Patek Philippe! Deverá muito provavelmente ser vendido por 12 milhões.

Talvez para um grande colecionador e apaixonado pela marca, como Jean-Claude Biver?
O valor continua a parecer muito elevado.

Thierry Stern © Patek Philippe

Philippe e Thierry Stern © Patek Philippe

O seu pai marcou o seu tempo principalmente pela inauguração da manufatura Plan-les-Ouates, do Musée de Genève e do lançamento do surpreendente calibre 89. Como gostaria de marcar o seu tempo?
Patek Philippe não me pertence, a marca existia antes e existirá depois de mim. Não tenho nenhuma ambição particular, nem de ego. Gostaria apenas de manter a vontade de bem-fazer, a nossa independência e a nossa posição de líder. Deixar aos meus filhos uma ferramenta que funciona, com a casa bem arrumada. ET_simb


O Tempo de Thierry Stern

Idade 44 anos
Museu O Museu Patek Philippe onde comecei a minha carreira.
Cor Azul.
Livro iPad.
Filme Barbecue, porque é humano.
Música Um best of de jazz.
Desporto Fui um dos primeiros a fazer surf no lago, com a ajuda de um barco a motor. Snowboard; fiquei na segunda posição na altura.
Viagem de sonho Descida do Nilo.
Patek Philippe preferido 5970 em ouro amarelo.
Relógio preferido Um relógio falante, para poder regular os meus relógios Patek Philippe.

Thierry Stern Patek Philippe Ref. 5970R-001

Patek Philippe Ref. 5970R-001 © antiquorum.com