Histórias

HISTÓRIAS | O visionário

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Ferdinand Adolph Lange foi o fundador da A. Lange & Söhne. No entanto, é também referido como o fundador da mais fina relojoaria da Saxónia. Se hoje fosse vivo completaria 200 anos. Por isso mesmo, a marca germânica empreende em 2015 uma viagem ao passado e reaviva a memória dos mais esquecidos com uma sentida homenagem a este nome incontornável na sua história. 

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Ferdinand Adolph Lange. © A. Lange & Söhne

Diz-se que é visionário aquele que tem a capacidade de ver mais além, de antecipar tendências, de ver o que os outros no seu tempo não vêm. Steve Jobs foi um visionário na sua área, Albert Einstein também. No domínio da relojoaria também se encontram alguns nomes. Entre eles Ferdinand Adolph Lange — personalidade incontornável na história da A. Lange & Söhne e na história da cidade de Glashütte. Por isso mesmo, a marca germânica iniciou 2015 com as celebrações do 200º aniversário daquele que é referido como o ‘fundador da mais fina relojoaria da saxónia’. Em carteira a marca aposta numa exposição histórica patente no Royal Cabinet of Mathematical and Physical Instruments de Dresden e no lançamento do 1815 ‘200th Anniversary F.A. Lange’, uma edição limitada a 200 exemplares inspirada em reconhecidos relógios de bolso criados pelo próprio Ferdinand Adolph Lange.

 
Dresden, Europa, Glashütte, Mundo

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Ferdinand Adolph Lange anotou num caderno apontamentos sobre as suas viagens e sobre os seus estudos de relojoaria, 1837. © A. Lange & Söhne

O início da história remonta a 18 de fevereiro de 1815, ano de nascimento de Ferdinand Adolph Lange, mas é necessário avançar alguns anos para compreender o que levou o próprio Lange a levar a cabo um projeto visionário de estabelecimento de uma cultura relojoeira de prestígio na região da Saxónia que, com altos e baixos, acabou por permanecer até aos dias de hoje.

Com efeito, tudo terá começado quando Ferdinand Adolph Lange é admitido no Technical College de Dresden e começa por desenvolver a sua futura carreira enquanto relojoeiro ao lado de J.C.F. Gutkaes, relojoeiro da corte, e é graças às visitas frequentes ao Royal Cabinet of Mathematical and Physical Instruments que Lange se deixa fascinar pela coleção residente de relógios de precisão e de instrumentos astronómicos, em particular pelos instrumentos de precisão franceses e ingleses. O seu interesse por tais objetos e pela sua importância na história, bem como o objetivo de aprimorar a sua técnica relojoeira levaram-no a empreender uma viagem pela Europa, nomeadamente por Paris, durante a qual contacta com nomes sonantes como Winnerl – aprendiz do próprio A.L. Breguet. Foram quatro anos ricos para F.A. Lange, cruciais para a sua formação enquanto mestre relojoeiro, mas também para o florescimento de uma noção muito específica dos meandros da criação relojoeira.

Relógios de bolso

(à esquerda) Relógio de bolso datado de 1861, assinado “A. Lange, Dresden”. (à direita) LANGE ZTAFEL 5 1268. Ao implementar standards de elevadas qualidade para cada relógio que fazia, Lange seguia os princípios do seu mestre, Gutkaes: um relógio deve ser perfeito – dos componentes individuais, à caixa. © A. Lange & Söhne

De regresso a Dresden passa ainda pela Suíça onde contacta com o princípio da divisão de trabalho que mais tarde será um dos pontos centrais do seu grande projeto de vida. A viagem pela Europa traduzira-se num F.A. Lange efervescente, repleto de ideias e de mestria. Em Dresden, junta-se novamente a Gutkaes e, juntos, concebem o famoso relógio de cinco minutos da Ópera de Semper que se distinguia pela inovadora indicação digital por janelas que, posteriormente, veio inspirar alguns dos modelos mais emblemáticos da A. Lange & Söhne. Mais tarde, como resposta à pobreza causada por anos de seca extrema que dizimaram a Saxónia, Lange apresenta às autoridades um plano minucioso de revitalização da região que visa a aposta num empreendimento relojoeiro, possível através da formação da própria população local. Com o apoio do Ministro do Interior da Saxónia, F.A. Lange vê o seu projeto seguir em frente na cidade de Glashütte. Em causa está um plano de especialização dos aprendizes em tarefas específicas e não na montagem de um relógio do princípio ao fim.

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A 7 de dezembro de 1845, Lange inaugura a sua manufatura já com o objetivo de treinar os 15 primeiros aprendizes locais. © A. Lange & Söhne

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Instrumento  com escala decimal desenvolvida por Lange. © A. Lange & Söhne

A 7 de dezembro de 1845, Lange inaugura a sua manufatura já com o objetivo de treinar os 15 primeiros aprendizes locais, até atingirem os desejados elevados níveis de especialização que ainda hoje são apanágio da alta-relojoaria caraterística da zona de Glashütte. E, assim, começa uma nova etapa na sua vida, que passou não só pela criação de prestigiados relógios de bolso, como também pelo desenvolvimento e invenção de instrumentos de medição precisos e algumas inovações ao nível da relojoaria, como a platina de três quartos, entre outras significativas patentes. O reconhecimento internacional do visionário trabalho de F.A. Lange concretizar-se-ia com o sucesso alcançado pelos seus relógios de bolso. Em 1867, F.A. Lange é nomeado cidadão honorário da cidade de Glashütte e ainda hoje a sua importância pode ser confirmada graças ao busto que dele existe na cidade e ao número de marcas relojoeiras que ali podemos encontrar.

 
200° aniversário

O renascimento da A. Lange & Söhne, em 1990 — pelas mãos de Walter Lange, bisneto de F.A. Lange —, depois de um período de interregno devido à II Grande Guerra, veio beber do legado deixado pelo seu fundador, ao mesmo tempo que abria caminho para a reinvenção à medida dos novos tempos. No Salon International de la Haute Horlogerie 2015, Wilhelm Shmid, CEO da A. Lange & Söhne, em entrevista exclusiva à Espiral do Tempo, salientou a importância que F.A. Lange tem ainda hoje para a marca — «este ano é dedicado a homenagear o homem que começou tudo isto. Sem ele, eu não estaria aqui sentado», referiu — e o facto de estes 200 anos «representarem muitos altos e baixos». «Especificamente no mundo atual isto significa que se tivermos uma boa estratégia, se tivermos uma visão a longo prazo, poderemos passar pelos altos e pelos baixos, e geri-los», explica.

1815 ‘200th Anniversary F.A.Lange’

1815 ‘200th Anniversary F.A. Lange’. © A.Lange & Söhne

Assim foi com F.A. Lange e assim parece continuar com a marca que criou. A A. Lange & Söhne é um manifesto exemplo de perícia, de rigor, de legado, de inovação, de técnica. Um exemplo de como, num mundo que descobre na relojoaria suíça as mais prestigiadas casas criadoras, é possível vingar com reconhecimento, com uma identidade bem marcada e com história. Os próprios relógios com assinatura A. Lange & Söhne falam por si. Por fora uma súmula de linhas harmoniosas e de elementos perfeitamente enquadrados; por dentro, um movimento de elevada qualidade, trabalhado até ao mais ínfimo detalhe. No seu todo, entre presente e passado, a marca continua a cativar os mais exigentes e o 1815 ‘200th Anniversary F.A. Lange’, lançado este ano e inspirado nos bem sucedidos relógios de bolso criados por F.A. Lange, surge como um reflexo exemplar da história que F.A. Lange fundou. ET_simb

Mais informações:
A. Lange & Söhne

 

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