Histórias

HISTÓRIAS | Racing stripes: Alistem-se!

Racing Stripes

EdT50 — Um elemento de estilo vincadamente rétro que está novamente em voga são as racing stripes, as famosas listas que tanto se destacavam nos bólides e fatos dos pilotos dos anos 70 — e que voltaram a assumir protagonismo nos mostradores de marcas relojoeiras associadas ao desporto motorizado.

Originalmente publicado na edição 50 da Espiral do Tempo.

Antoine Lavoisier garantia que «na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma» — e eu costumo afirmar que quase se poderia ajustar a célebre frase do pai da química moderna para «na relojoaria, nada se cria, nada se perde, tudo se copia»: tal como na moda, as grandes tendências estéticas apresentam uma dinâmica circular que periodicamente reciclam elementos de estilo anteriores. Em muitos casos, para melhor; tem-se visto isso na recuperação e reutilização de códigos relevantes associados à década de 70, que acabou por ser um período prodigioso na história moderna.

E ainda bem, porque se trata de uma fonte inesgotável de inspiração. Sendo esta uma edição da Espiral do Tempo dedicada ao revivalismo na relojoaria, andava eu a dar voltas à cabeça sobre qual seria o tema para a minha crónica pessoal que não colidisse com tudo o resto que é explanado ao longo da revista, quando, ao ver as horas no relógio que estava a usar na passada sexta-feira, 13 de fevereiro, tive a resposta: nesse dia, tinha no pulso um Maurice de Mauriac Chronograph Le Mans que é personalizável com o número preferido do cliente (no meu caso, o 13), mas a solução estava mais nas riscas do mostrador do que propriamente no algarismo. As listas foram uma marca indelével dos anos 70 e têm sido recuperadas nos mostradores de relógios especialmente associados aos desportos motorizados.

Racing Stripes

Maurice de Mauriac Chronograph Modern Le Mans

Foi na década de 70 que a Adidas se tornou numa empresa global e passou a dominar o negócio do equipamento desportivo com as inconfundíveis três bandas que passaram a identificar a marca à distância. E foi nos anos 70 que se utilizaram com maior insistência as riscas nos carros de corrida, desde os bólides vocacionados para circuitos fechados até aos de rali em vias públicas; paralelamente, nos Estados Unidos, o culto dos Muscle Cars também atingia o auge, acompanhado de uma pintura caraterizada por duas bandas de tom contrastante. A passagem desses padrões geométricos e cromáticos para os mostradores de relógios mais desportivos acabou por ser natural…


Para seguir à risca
As riscas em carros de competição profissional ou amadora receberam adequadamente o nome ‘Racing Stripes’ ou mesmo ‘Le Mans stripes’ — e a sua origem remonta sobretudo à década de 50, com vários motivos para a sua utilização.

O principal começou por ser o da identificação: em carros da mesma cor, eram as riscas de tons distintos que faziam a diferença e foi a equipa fundada por Briggs Cunningham que as popularizou em ambos os lados do Atlântico; as listas brancas em fundo azul tornavam a equipa imediatamente reconhecível e Carrol Shelby começou a usar esse tipo de pintura no seu modelo desportivo Cobra, que passou a ser conhecido por ‘Shelby’. O Dodge Viper também ficou associado a essa decoração, gerando mesmo a expressão ‘Viper stripes’. E depois há o Ford Mustang, o Chevrolet Corvette… as listas passaram definitivamente dos carros de competição para as viaturas mais comuns e hoje em dia também estão muito associadas ao regresso do Mini.

O outro motivo apontado prendia-se com a própria condução, uma vez que as linhas no capô ajudariam a alinhar o carro com a pista ou a estrada no campo visual do condutor, especialmente após curvas em velocidade. Entretanto, as listas começaram a ser também colocadas de lado para melhor revelar onde se sentava o piloto.

Há ainda uma outra explicação que remonta ao início do século XX e que tem a ver com a colocação de bandas coloridas nos carros de pilotos novatos para que fossem facilmente identificados pelos mais experientes — diz-se que é daí que nasceu a expressão «earn your stripes», se bem que também esteja associada às listas das patentes militares.

As listas nos carros também criam uma ilusão ótica: parece que a viatura se desloca a uma velocidade superior, o que deu origem à expressão «go-faster stripes». E a sua utilização, com origens práticas, acabou depois por se tornar em padrões decorativos de patrocinadores (talvez o mais famoso seja o da Martini Racing) e numa moda apreciada tanto por entusiastas do desporto motorizado como por todos aqueles com um sentido estético mais apurado.

Racing Stripes

Raidillon Racing Chronograph


Na hora certa
Tal como as listas na combinação de um piloto acabam por ser o prolongamento da decoração do respetivo carro, também as riscas em determinados mostradores de certas marcas relojoeiras são uma extensão dessa tradição.

Como não podia deixar de ser, a TAG Heuer investiu nesse padrão estético em várias edições limitadas de inspiração motorizada — até porque a marca, historicamente associada ao desporto automóvel, também ficou intimamente ligada ao imaginário do filme Le Mans e à figura de Steve McQueen a envergar um fato de corrida com Racing Stripes e o cronógrafo Monaco no pulso. Houve mesmo uma série do Monaco com as cores do mítico Porsche 917 Gulf  que dominou Le Mans no início da década de 70 e que o ator americano guiou no filme; várias outras versões especiais do Monaco adotaram outras cores e padrões de riscas, e o patrocínio ao Automobile Club do Monaco também originou versões listadas do Carrera. A Chopard, mais ocasionalmente, e a Tudor, mais declaradamente nas linhas Fastrider e Gransport, também recorrem a esse exercício de estilo.

Mas são sobretudo as marcas de nicho ligadas ao universo automóvel que criaram uma ligação estreita aos mostradores com bandas. Como a Maurice de Mauriac e a linha Le Mans (listas azuis-claras/laranjas ou azuis e vermelhas). Ou a belga Raidillon, batizada segundo a lendária curva de Spa-Francorchamps e que faz construir os seus relógios na Suíça, vários deles com Racing Stripes de lado e outros ao centro segundo a tradição americana. A francesa BRM aproveita a sua ligação oficial à Gulf para usar as famosas cores nas riscas. E depois há modelos que surgem de modo mais avulso nas respetivas coleções — como por exemplo o P3-3 (alcunhado ‘Big Block’) da SevenFriday, notoriamente inspirado nos Muscle Cars americanos.

Para concluir: eu já me alistei — e voluntariamente! ET_simb

Racing Stripes

SevenFriday P3-BB Big Block