Histórias

Crónica: «De segunda a segunda»

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EdT52 — Quando o tempo passa em semanas, quando o tempo escapa, não há agendas de bolso que o segurem. Então, há apenas atenção e falta de atenção, apenas vida e quotidiano.

Crónica publicada no número 52 da edição impressa da Espiral do Tempo

É outra vez quarta-feira, é outra vez quinta-feira. Tu conheces as quartas e as quintas-feiras. Não há nada que te surpreenda numa quarta-feira de manhã, nem o trânsito, nem o sol. Não há nada que te surpreenda ao saíres de casa numa quinta-feira. As árvores continuam sempre a crescer, têm folhas no verão e no inverno. E agora é sábado. Sol, claro. É domingo. Não há nada que te surpreenda nos domingos: as últimas horas de fim de semana até meio da tarde e, depois, a preparação da próxima semana, como um ano propedêutico. É no domingo à tarde que arrumas a casa: é fácil encontrar o lugar dos objetos que pousaste talvez no chão, talvez em cima de uma pilha de livros entre o sofá e a parede. É fácil encontrar o lugar dos livros nas estantes.

Dostoievski ao lado de Dostoievski, um livro fininho de poesia ao lado de um livro fininho de poesia. E tens dois braços, duas pernas, tudo é óbvio, e num momento acumulado, condensado, fazes todos os movimentos que tiveste preguiça de fazer ou que decidiste não fazer durante a semana que passou. Em segredo e em silêncio, convences-te de que, desta vez, irás começar a guardar cada lápis logo depois de o utilizar, irás colocar a tampa nas esferográficas antes de as pousares sobre a mesa, irás guardar os livros na estante e não numa pilha de livros invisível entre o sofá e a parede. Sabes que não irá ser assim, ainda hoje ou amanhã, quebrarás essa resolução. Já o sabias na semana anterior quando pensaste o mesmo, e na semana anterior a essa. Irás sabê-lo na semana que vem. O que está a dar na televisão?

É segunda-feira, trabalhas. Chega de trabalhar. Tens fome, comes. Tens frio, vestes um casaco. Estás cansado, sentas-te. Tens sono, dormes. Precisas de falar, telefonas a alguém. Passas a lista de nomes no telemóvel. Há nomes que servem para falar de uns assuntos e há nomes que servem para falar de outros assuntos. Há nomes para os quais és uma coisa e há nomes para os quais és o contrário disso. Precisas de pensar, dedicas-te à contemplação: escolhes um disco de Debussy, abres a janela e procuras o céu sobre os prédios. Chegará um dia em que deixarás de ouvir discos de Debussy. Da mesma maneira, apagar-se-ão todos os nomes que tens na lista do telemóvel. Sabes tudo isso desde já. Não será uma surpresa. Está tudo marcado e é fácil. Não se espera que faças nada de forma diferente. É outra vez segunda-feira, é outra vez terça-feira. Tu conheces as segundas e as terças-feiras.

Ao chegares a casa, não encontras um bilhete da tua mulher na porta do frigorífico. A tua casa não ardeu, os teus filhos não te esperam na rua embrulhados em toalhas. Não houve um terramoto, nem uma inundação, nem um eclipse. Não perdeste o gato e não tens de afixar fotocópias em postes da luz. Não tens de perder trinta quilos. Fizeste análises e descobriste que não tens aquela doença. Não planeias imolar-te nas escadarias da assembleia. Há cinco anos que não te sentes verdadeiramente triste. A água das torneiras continua potável. Lá fora, há uma brisa leve que passa pelos ramos das árvores. Os carros seguem em frente nas estradas. Falta pouco tempo para daqui a dez minutos. É sexta-feira, outra vez. ET_simb