Opinião

CRÓNICA HISTÓRIA DA CIÊNCIA | «Já não há dragões nos mapas»

Monstros marinhos
representados na
extremidade do Atlas
de Monte. Mesmo
em 1590, numa altura
em que todos os
oceanos já estavam
identificados, estas
figuras fantásticas
permaneciam no
imaginário europeu.

EdT51 — Quinze minutos antes da meia-noite do dia 20 de abril de 1792, no atual estado brasileiro do Pará, uma estranha comitiva de europeus e indígenas detém-se, maravilhada, em face da observação que acaba de fazer. Perto da confluência dos rios Guamá e Capim, uma onda poderosa, que se faz anunciar com um ruído ensurdecedor, cresce em volume e velocidade, e invade, com o rugido de um trovão e a fúria de um exército, cada um dos caudais dos rios. Espezinha culturas, derruba árvores e vira canoas, espantando um homem da ciência como Alexandre Rodrigues Ferreira.

Crónica publicada no número 51 da edição impressa da Espiral do Tempo

O naturalista acaba de assistir ao fenómeno a que os índios chamam «paraná pororoca», e que se pode, talvez, traduzir por «o mar que rebenta». Hoje, sabemos que é um fenómeno regular naquele e noutros pontos do planeta e corresponde ao momento cíclico em que o mar esbarra com o rio Amazonas. Ferreira não foi o primeiro português a testemunhá-lo, mas a observação impressionou-o tanto que ele incluiu-a nos seus meticulosos registos da Viagem Philosophica, que, durante nove anos, absorveu toda a sua energia, provocou a morte de três estimados companheiros e trouxe-lhe mil e uma frustrações.

Ilustração produzida durante a expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira no Brasil.

Ilustração produzida durante a campanha de nove anos de Alexandre Rodrigues Ferreira no interior do Brasil. Os dois riscadores da expedição, que mais tarde sucumbiriam à doença nas florestas locais, registaram para a posteridade animais exóticos, populações indígenas e máscaras rituais.

Mark Twain argumentou convincentemente que o Homem é a única criatura que cora, mas também é a única que tem motivos para isso. No entanto, não é só isso que nos distingue dos outros seres vivos. A espécie humana tem um impulso incontrolável de exploração, uma obsessão com o território que desconhece e as fronteiras não desbravadas. O astrónomo Carl Sagan costumava datar esta obsessão na pré-história, especulando que, na primeira vez em que comunidades humanas se sentaram à luz das estrelas e viram a imensidão de mundos desconhecidos no céu, a semente da exploração foi plantada nos nossos genes.

Boa parte da história humana explica-se por esta obsessão de aventureiros e impérios pela extensão territorial. Alexandre, o Grande, tomou posse de praticamente todo o mundo conhecido, e Plutarco garante que o imperador chorou no final da última campanha por não ter mais mundos para conquistar. Xerxes, da Pérsia, gabava-se do seu império no qual o sol nunca se punha, frase que os conquistadores espanhóis aplicaram no século XVI ao seu próprio domínio. Navegadores portugueses e espanhóis redefiniram as fronteiras marítimas e terrestres do planeta, antecipando rotas e continentes e preparando terreno para os primeiros impérios globais.

Quando James Cook, na segunda metade do século XVIII, mostrou à Europa a dimensão e o recorte do oceano Pacífico, terminou de alguma maneira a primeira grande fase da exploração humana. Os planisférios desse período diferem pouco dos atuais, se excetuarmos a configuração dos pólos. A cartografia encerrou então a fase a que os especialistas ingleses chamavam «Here Be Dragons», ou seja, a fase em que, à falta de informação rigorosa, se colocavam dragões, sereias e monstros nos cantos dos mapas ainda por explorar.

Começava então uma segunda fase, tão apaixonante como a anterior: pintados os contornos dos territórios, faltava preencher o interior, desbravando desertos, florestas, savanas, montanhas e vales. E essa fase deve muito à Viagem Philosophica de Alexandre Rodrigues Ferreira. Algumas décadas mais tarde, o escritor Júlio Verne dirá que o mundo oitocentista não precisa de novos continentes, mas sim de novos homens. Haveria poucos exploradores a quem a carapuça servisse tão adequadamente como a Alexandre Rodrigues Ferreira.

Ilustrações produzidas durante a campanha de nove anos de Alexandre Rodrigues Ferreira no interior do Brasil. Os dois riscadores da expedição, que mais tarde sucumbiriam à doença nas florestas locais, registaram para a posteridade animais exóticos, populações indígenas e máscaras rituais.

Ilustração produzida durante a expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira no Brasil.

O explorador e naturalista nasceu na Baía seis meses depois do grande sismo de 1755, e talvez essa coincidência cósmica explique a sua irrequietude permanente. Há uma disputa saudável entre académicos portugueses e brasileiros sobre a sua paternidade. É inquestionável que nasceu num território ainda sob a égide do rei português, o que o qualifica como compatriota de Camões e Pombal, mas a sua paixão pelo Brasil e a sua abordagem tropical da exploração legitimam a sua apropriação no hemisfério sul.

Mesmo numa escala minúscula, um mapa do Brasil impressiona pela dimensão e complexidade do território. Nele, cabem 92 superfícies de Portugal continental. O próprio rio Amazonas, o maior do mundo, só foi detetado por europeus quatro décadas depois da viagem inaugural de Pedro Álvares Cabral, e as suas múltiplas nascentes foram rigorosamente documentadas e cartografadas apenas em 1996. Tudo isto sublinha a imponência da missão que Martinho Melo e Castro, secretário do governo de Dona Maria I, atribuiu a Alexandre Rodrigues Ferreira, em 1783: percorrer as capitanias de Grã-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá e documentar tudo o que visse. O empreendimento tomou nove duros anos ao explorador.

O governo português temia justamente que as fronteiras do Norte e Noroeste do Brasil, onde hoje estão a Guiana, a Venezuela e a Colômbia, não fossem respeitadas pelos espanhóis no âmbito determinado pelo Tratado das Tordesilhas, em 1494. Era imperioso identificar marcos naturais que definissem essas fronteiras, bem como as comunidades humanas que as ocupavam e as matérias-primas que daí se poderiam extrair em benefício do império.

Ferreira era um académico formado na Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra, mas desenvolveu, no interior do Brasil, notáveis capacidades de naturalista e etnógrafo. Recolheu metodicamente milhares de amostras dos reinos animal, vegetal e mineral. Dois desenhadores (ou ‘riscadores’) que seguiram com ele e que faleceriam durante a viagem produziram centenas de aguarelas que constituem as provas reais da dimensão da epopeia. Seria fastidioso listar tudo o que a ciência moderna deve a Alexandre Rodrigues Ferreira, mas concentremo-nos num exemplo. Na vila de Caldas, o naturalista assistiu a uma cerimónia de iniciação da tribo dos jurupixunas. Ficou de tal maneira impressionado com o ritual que pediu as máscaras dos participantes e enviou-as para Lisboa. Em 1997, no âmbito de uma exposição em Manaus, as máscaras voltaram ao Brasil. Tinham passado dois séculos e o mundo indígena era uma pálida recordação do que fora – os próprios jurupixunas estavam extintos desde o século XIX. A exibição das máscaras e a sua mensagem simbólica proveniente das caves do passado impressionou de tal maneira os líderes indígenas ali presentes que o próprio museu foi palco de uma cerimónia ritual de reintegração daqueles objetos no mundo moderno.

Ilustrações produzidas durante a campanha de Alexandre Rodrigues Ferreira: populações indígenas e máscaras rituais. Algumas das tribos representadas já se extinguiram e as aguarelas constituem a última pegada da sua presença na Terra.

Ilustrações produzidas durante a campanha de Alexandre Rodrigues Ferreira: populações indígenas e máscaras rituais. Algumas das tribos representadas já se extinguiram e as aguarelas constituem a última pegada da sua presença na Terra.

A viagem de Alexandre Rodrigues Ferreira constituiu um dos primeiros impulsos dos países europeus e dos Estados Unidos no sentido de explorar melhor as extensões territoriais sob seu domínio e dedicar mais atenção ao seu património natural e cultural. Logo no início do século XIX, e enquanto milhares de amostras que Ferreira recolhera no Brasil já apodreciam no Real Museu da Ajuda, sem ninguém que lhes valesse e com reduzido esforço de inventariação, Lewis e Clark iniciaram a sua saga no Oeste dos Estados Unidos numa missão muito semelhante à de Ferreira no Brasil. Em breve, a bússola do hemisfério norte apontou também para África, num esforço ciclópico de preenchimento do interior dos mapas com informação.

Hoje, a espécie humana olha para o seu planeta com um misto de orgulho e nostalgia por todas as montanhas já escaladas, todos os oceanos navegados, todas as florestas medidas, escrutinadas e mapeadas e os dois polos atingidos de todas as maneiras e feitios, incluindo a loucura concluída por BØrge Ousland em 1994, que atingiu o Polo Norte viajando a solo e sem qualquer apoio.

Em 2012, quando o realizador de cinema e explorador James Cameron atingiu, em escassas duas horas de descida, o ponto mais profundo do planeta, na Fossa das Marianas, numa extraordinária campanha de engenharia à qual a Rolex se associou, chamou-lhe a última fronteira vencida na Terra. Terá sido, creio, um exercício retórico. Como o astrónomo Edwin Hubble um dia disse, o Homem, equipado com os seus cinco sentidos, explora o universo à sua volta e chama-lhe ciência. E haverá sempre novos dragões para vencer. ET_simb

Ilustração produzida durante a expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira no Brasil.

Ilustração produzida durante a expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira no Brasil.