Histórias

Prova dos sete

© Miguel Seabra

EdT47 — Os relógios desportivos são proibidos pelos puristas em ocasiões que exigem indumentária mais formal. Thor Heyerdahl afirmou, certa vez, nunca ter visto uma fronteira na sua vida, mas ter ouvido dizer que elas existiam na cabeça de certas pessoas — o famoso antropólogo norueguês sobressaiu como protagonista quando resolvi juntar os meus relógios de inspiração náutica.

Crónica originalmente publicada no número 47 da Espiral do Tempo.

Quando se decidiu que o mar seria o grande tema da edição de verão da Espiral do Tempo, decidi olhar para os meus relógios e separar aqueles que apresentassem uma qualquer relação marítima — e tentar perceber não só as razões que me levaram a escolhê-los, mas também encontrar pontos de contacto entre eles: um Audemars Piguet Royal Oak Offshore, um Jaeger-LeCoultre Master Compressor Extreme World Alarm Tides of Time, um Graham Swordfish, um Linde Werdelin Oktopus, um Baume & Mercier Capeland Diver, um Eterna Heritage Super Kontiki 1973 e um Eterna Kontiki Date.

O cronógrafo Royal Oak Offshore resulta de um spin-off de 1993 do Royal Oak original de 1972, com Emmanuel Gueit a adaptar o lendário design de Gerald Genta inspirado nas bocas de canhão do navio de guerra britânico Royal Oak; devo confessar que, no início, não era um grande adepto das linhas do Royal Oak e com o tempo fui aprendendo a valorizar toda a sua singularidade, a ponto de desejar ter a sua versão mais pujante, em forma de cronógrafo. Já o Master Compressor Extreme World Alarm Tides of Time é uma edição limitada que celebra a associação da Jaeger-LeCoultre à iniciativa Tides of Time apoiada pela UNESCO, substituindo os detalhes vermelhos sobre o mostrador preto da versão regular por um azul mais oceânico e integrando três locais protegidos (Galápagos, Tubbataha, Scandola) no disco das horas do mundo; é o maior relógio que tenho, graças aos seus 46,5 mm de diâmetro, e acaba por ser um parceiro ideal de viagem pela conjugação de funções (alarme com worldtimer) associada a um sistema rápido de mudança de bracelete, que me permite mudar num ápice do cauchu mais adequado à praia para uma correia de pele mais urbana.

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© Miguel Seabra

O Swordfish da Graham deve mais o nome aos contadores protuberantes que evocam um peixe-espada do que a uma vocação propriamente marítima, ao passo que tanto o Oktopus da Linde Werdelin como o Capeland Diver da Baume & Mercier são relógios de mergulho puros e duros: têm certificação até aos 1000 metros de profundidade, são ambos concebidos em titânio com uma válvula de hélio integrada e dispõem da tradicional luneta rotativa. O Oktopus foi, aquando do seu lançamento em 2010, o meu relógio preferido de uma das marcas contemporâneas de nicho que mais aprecio, embora me falte adquirir o instrumento eletrónico de mergulho que se pode acoplar à caixa para uma combinação surpreendente entre a mecânica tradicional e as virtudes do quartzo. O Capeland Diver foi um presente de João Lagos, na sequência do patrocínio da Baume & Mercier ao Estoril Open em 2006 (até 2010); na altura, o seu mostrador num amarelo entrelaçado cativou-me.

A concluir o ramalhete vêm dois modelos KonTiki da Eterna associados a uma das grandes sagas exploratórias do século XX. Li o livro de Thor Heyerdahl sobre a viagem do KonTiki quando era muito jovem e por essa razão sempre dei muita importância à linha KonTiki da Eterna a partir do momento em que alarguei a minha atividade jornalística do ténis para os relógios, ainda na década de 1990; Thor Heyerdahl foi tão ou mais importante na minha juventude do que Sir Edmund Hillary com o Rolex no topo do Evereste ou Neil Armstrong de Omega na Lua — o ponto de partida da odisseia que o tornou conhecido ocorreu quando constatou que a figura de Tiki (‘filho do sol’), adorada pelas gentes da Polinésia e omnipresente nas tradições locais, tinha grandes semelhanças mitológicas com as lendas patentes em velhos manuscritos incas acerca de KonTiki (‘deus do sol’).

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Na altura, acreditava-se que os ancestrais dos polinésios eram oriundos da Ásia Central, pelo que a teoria de Thor Heyerdahl que atribuía a sua ascendência aos incas causou ceticismo; para confirmar essa tese migratória, o norueguês fez questão de provar que uma tão longa viagem seria possível: seguindo os princípios rudimentares da época dos incas, construiu uma jangada de 14 metros e atravessou as agruras do Pacífico com ela em 1947, chegando ao destino 7.600 quilómetros e 101 dias depois! Entre os poucos utensílios ‘modernos’ usados pela tripulação de seis estavam relógios Eterna, especialmente comissionados segundo rigorosos parâmetros de estanqueidade e fiabilidade.

O sucesso da expedição correu mundo e granjeou excelente reputação ao aventureiro nórdico e à Eterna, que desde 1958 tem desenvolvido na sua coleção uma linha mais desportiva e adequadamente batizada KonTiki com reputadas características à prova de água. Sempre com a silhueta em relevo da mítica jangada no fundo, os modelos foram variando ao longo das décadas e surgiu mesmo uma variante de mergulho apelidada Super KonTiki. Sou um grande aficionado dos anos 1970 e, sabendo disso, o meu amigo Patrick Kury ofereceu-me o Heritage Super KonTiki 1973 (que replica o modelo adotado pelos serviços secretos israelitas) quando era CEO da Eterna. Já o KonTiki Date é mais reminiscente da primeira geração das décadas de 1950 e 1960, com a marca estética inconfundível dos triângulos no mostrador às 12, 9, 6 e 3 horas; o centro do mostrador replica o atol de Raroia onde a jangada encalhou no final da travessia.

Conclusão

Olhando para o mencionado lote de sete relógios, é fácil constatar que a maior parte apresenta um mostrador preto e tem elementos de estilo desportivos/militares. E eu, mesmo não sendo mergulhador, gosto de relógios que sejam despretensiosos, casuais e que possam ser utilizados na loucura do dia a dia – nada de grandes complicações frágeis e de preço proibitivo. Mas a principal ilação foi a evidente ligação emocional aos modelos Eterna, precisamente porque a leitura da saga do KonTiki na minha adolescência capturou o meu imaginário para sempre. Isso e o facto de Thor Heyerdahl ter afirmado certa vez que «nunca vi uma fronteira na minha vida, mas parece que elas existem na cabeça de algumas pessoas». ET_simb