Histórias

ENTREVISTA – Nayma: tamos bonito mesmo assim*

Nayma entrevista exclusiva

EdT44 — O nome Cláudia Carina Branco Lima Rodrigues Mingas nada diz, apesar do apelido sonante. Nayma, diz tudo! A recente celebração dos vinte anos de carreira de uma das mais notáveis manequins que calcorrearam as passerelles portuguesas foi o pretexto para uma conversa cheia de swing que deslizou como as águas do Tejo que passavam perto, se revelou calorosa como a temperatura envolvente, e teve a fluência que só uma pessoa ‘com mundo’ pode proporcionar. Tamos bonito mesmo assim*.

Entrevista originalmente publicada no número 44 da Espiral do Tempo

* Expressão usada em Angola

Nasceu em Lisboa, meses antes do 25 de Abril. Foi para Angola de onde só regressa, para Portugal, na adolescência. Já veio para ingressar no mundo da moda ou isso foi algo casual?
Foi casual. O meu pai veio para Portugal como embaixador e eu era, basicamente, uma maria-rapaz.

Já ouvi várias manequins a dizerem isso, o que é curioso…
É, mas, no meu caso, é ainda mais verdade, porque eu sou gémea de um rapaz. Quando cheguei a Portugal, tinha vergonha do meu físico, vestia a roupa do meu irmão, que era uma roupa mais larga. Até que uma noite, saí com o filho de um grande amigo do meu pai, o António Fonseca e Costa, e encontrei um jovem, que já era um manequim com muito nome, que me perguntou se eu não queria ser manequim, por causa da minha altura. Achei aquilo muito estranho, mas tinha 15 anos, uma altura em que todas as meninas querem ser vistas como sendo bonitas, e tentei avançar. Mas o meu pai não me deixou e acabei por só fazê-lo mais tarde, às escondidas… (risos) Depois, claro, tive de ser honesta, e eles acabaram por concordar.

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Nayma com um TAG Heuer Formula 1 Ceramic. Fotografia Pedro Ferreira, styling Ricardo Preto.

Justamente, tenho a ideia de que o seu pai é um daqueles pais que nós diríamos ser ‘à antiga portuguesa’ – perdoe-me a expressão. Como é que ele encarou o assunto?
O que é um pai ‘à antiga portuguesa’?

Rígido, formal, mais ‘pai-galinha’ com as filhas que com os filhos, pouco dado a ver as suas meninas a desfilar…
(Risos) Sim, isso é uma verdade, é um facto – pai, desculpa (risos). O meu pai não é rígido, mas é uma pessoa extremamente preocupada com os filhos e faz questão de nos ajudar a encontrar o caminho certo. Ele não reagiu bem porque, naquela altura, ser manequim não era bem visto. A ideia que se tinha de uma modelo era uma ideia muito feia. Mas eu sempre fiz questão de que eles acompanhassem os meus trabalhos e soubessem quem eram as pessoas que trabalhavam comigo. Quando os pais não fazem isso, aí penso que há perigos.

Que dificuldades encontrou na sua ascensão no mundo da moda?
Há dois caminhos no mercado da moda, e, depois de perceber que havia preconceito em relação às manequins negras, segui um deles, o desfile, onde percebi que podia trabalhar e criar uma imagem de alguma forma revolucionária. Custou-me perceber que existia preconceito, porque não cresci com ele. Houve mercados de que eu desisti por causa disso, e houve outros em que investi porque não havia tanto ou havia mais pessoas a lutar contra ele. Um deles foi Portugal, obviamente, onde encontrei pessoas fantásticas, apesar de outras mais, digamos, complicadas.

Em que medida criadores nacionais marcantes, como o Augustus ou o Zé Carlos, que vieram de Angola, foram importantes na sua carreira?
O Zé Carlos foi muito importante na minha carreira. Foi ele o primeiro cliente a abrir-me as portas em Portugal. Ainda ontem falei dele. Ele gostava muito de mulheres, de glamour, nós sentíamo-nos divas e os desfiles dele eram espetáculos autênticos. Era um artista. Ele penteava-nos, maquilhava-nos, vestia-nos… era incrível. E depois era fácil falar da minha Angola com ele e matarmos saudades. Uma vez, fomos juntos a Luanda, e foi muito engraçado, porque descobrimos que tínhamos vivido na mesma rua. Esse momento foi muito especial.

Nayma entrevista exclusiva

Nayma com um Franck Muller Gold Croco. Fotografia Pedro Ferreira, styling Ricardo Preto.

Ser filha de Ruy Mingas, uma pessoa estimada em Portugal, ajudou?
Eu não tinha essa noção até chegar a Portugal, mas bastou responder às chamadas de presença no primeiro dia de aulas para o perceber. Todos os professores tinham a mesma reação. Quando me chamavam, eu dizia: «presente!», e, então, eles começavam «Mingas, Mingas… tem alguma coisa a ver com o Ruy Mingas?» Quando nós dizíamos que sim, eles teciam rasgados elogios ao atleta, ao músico, «ai o Monangambé», diziam. E foi aí que nós tomámos consciência de que ele era uma pessoa muito conhecida, cá. Lá, ele era o ministro dos desportos; depois, diplomata. Era um músico de referência, tinha escrito o hino de Angola e músicas revolucionárias, era falado com respeito, mas olhávamos para ele como um pai comum. Vermos tantas pessoas desconhecidas a falar do nosso pai daquela forma e de uma forma diferente daquela como se falava dele em Angola foi muito engraçado. Cá falavam dele com adoração, foi incrível. Ainda hoje, sou abordada por alunos do meu pai  a contar histórias. E da minha mãe também, mas na área da Biologia. Durante muitos anos, nem sequer usei o nome Mingas, porque não queria misturar as coisas, não queria que me abrissem portas por ser filha de quem sou.

A sua forma felina de desfilar assentou de forma perfeita no conceito de catwalk e granjeou-lhe o epíteto ‘Pantera Negra’. Qual é sensação de partilhar esse epíteto com o grande Eusébio?
(risos) E fazemos anos no mesmo dia!

Ai sim?
É verdade, 25 de janeiro! Desde sempre, chamam-me assim, e eu tinha algum receio, porque sabia que era assim que chamavam ao Eusébio e eu não me comparava a ele. A mulher africana tem uma forma própria de lidar com o seu corpo, na maneira como dançamos, como rimos, nas relações humanas, e isso reflete-se na forma como desfilo. Lembro-me de fazer desfiles em que me diziam «Nayma, por favor, não te abanes muito», mas é a minha maneira de desfilar.

E criadores angolanos? Quando é que veremos o nome de um criador angolano nas semanas de moda africana que se fazem por todo o mundo?
Há uma jovem que participou esta semana na semana de moda africana em Londres e que está a ter umas críticas incríveis, mas a verdade é que a cultura de moda ainda está numa fase muito naïf, em Angola. Para mim, moda é design e design é arte. Pode ser industrial ou não, mas é arte, implica a criação de alguma coisa. Um designer que não tenha identidade, que só usa uns padrões e umas missangas, não dura. Não é por acaso que Itália, França, Inglaterra são países fortes nesta indústria. Porquê? Porque têm criadores há muitos anos, têm uma cultura de moda, têm formação, têm revistas especializadas, têm críticos a sério. É importante que nós, africanos, entendamos isto: primeiro, está a formação. Temos de trabalhar profissionalmente e não por apalpação.

Nayma entrevista exclusiva

Nayma com um Franck Muller Master Square Automatic King. Fotografia Pedro Ferreira, styling Ricardo Preto.

Poucas manequins se mantiveram no topo durante tanto tempo. Como é que a Nayma conseguiu?
Profissionalismo. E temos de querer e gostar do que fazemos, não basta ser bonita. A manequim tem de gostar do que faz, gostar das artes que estão à volta da moda, compreendê-las e respeitá-las. Os criadores são artistas e não gostam de trabalhar com pessoas ignorantes. Eu sou apaixonada pela minha profissão, e isso reflete-se quando eu falo com o fotógrafo, quando lido com a maquilhadora ou com o criador. E ninguém se faz sozinho, temos de perceber que, por muito estatuto que alcancemos, não o manteremos se estivermos isolados!

Como vê o relógio: como uma peça de moda ou como algo mais?
Pode ser um acessório de moda, mas acho que um relógio é mais uma peça de design do que de moda. Moda e design são diferentes. A moda diz respeito a tendências, a estilos. Vejo um relógio como uma peça de design.

Tem um TAG Heuer no pulso e a produção que fez connosco foi com relógios da marca Franck Muller. O que é que estas marcas lhe dizem?
Qualidade é aquilo que as define. Há marcas que vão atrás das tendências e há marcas que funcionam ao nível da excelência do objeto, do seu caráter intemporal. Desta produção, o relógio que mais me fascinou foi o Crazy Hours da Franck Muller. É um objeto de design muito bem concebido. Adorava ver aquele relógio por dentro, fiquei fascinada com a ideia daquele objeto surpreendente. Um dia vou pedir, por favor, para que me deixem ir àquela fábrica.

Uma empresa de distribuição portuguesa fez, há um par de anos, uma apresentação em Angola e ficaram surpreendidos com a quantidade de pessoas com conhecimentos relojoeiros. O que a fascina mais num relógio? A complexidade mecânica, a estética, a personalidade da marca?
Em Angola, há pessoas que são completamente apaixonadas por relógios. O meu pai é uma delas. Costumo dizer que mais vale investir numa mala mais cara e que dure, que na mala da tendência, e vejo os relógios da mesma forma. E se eu, que não domino o tema, quando vi aquele Crazy Hours, tive vontade de ver o mecanismo, entendo que quem seja apaixonado por relógios os procure conhecer em detalhe. Por isso, compreendo o que me contou, porque o angolano é muito vaidoso e gosta de coisas boas, não necessariamente de coisas caras, mas de coisas boas.

Nayma

Nayma com um TAG Heuer Formula 1 Ceramic. Fotografia Pedro Ferreira, styling Ricardo Preto.

Em Angola, existe um ministério da família e da promoção da mulher, e, de facto, as mulheres ocupam muitos lugares de topo na hierarquia do estado e no setor empresarial. Como é ser mulher em Angola?
A mulher angolana é uma mulher distinta, muito ativa na sociedade, altamente empreendedora, extremamente trabalhadora, batalhadora como eu vi em poucos países. Angola está no top 10 mundial dos países com mais mulheres em posições de destaque, seja a nível governamental ou empresarial. Se andar na rua, em Angola, as pessoas que estão a trabalhar são mulheres. Vai a lojas, e lá estão as mulheres; vai a empresas, e estão cheias de mulheres. Mas o homem angolano gosta de ter uma mulher assim, que trabalhe, ele valoriza isso, tem respeito por isso. Acho que terei ouvido uma ou duas vezes na vida um angolano dizer «a minha mulher não trabalha».

Se tivesse de ordenar as seguintes características, como faria?: ser mulher, ser africana, ser angolana e ser negra.
Ai meu deus, que maldade (risos)! Todas têm pesos diferentes em mim. Ser africana, sempre. Mas as razões para escolher uma ou outra são distintas. Já voltamos a essa pergunta, pode ser (risos)?

Na maioria das línguas africanas, o tempo, nomeadamente o conceito de futuro, é difuso. O que é fascinante, para a cultura ocidental. A sua noção de tempo altera-se quando está em Angola?
Sempre! Angola está muito perto do Equador, e lá eu guio-me muito pelo sol. Em Angola, sei que o pôr do sol é às seis horas da tarde. Agora são 6 h 15 min e o sol ainda está ali em cima. Se estivéssemos em Angola, diria que eram umas 3 h 30 min da tarde. Em Lisboa, acordo mais tarde; em Luanda, acordo entre as seis e as sete horas da manhã.

Mas é esse desligamento em relação à crueza dos horários, do relógio, a lassidão do tempo, é isso que encanta tantas pessoas quando conhecem África, não é?
Acho que nem é só uma questão de África, mas dos trópicos. Eu digo aos meus amigos que vão trabalhar para Angola «não se incomodem muito com a velocidade das coisas». (risos) Diz-se, erradamente, que somos lentos, mas não somos. Lidamos é de outra forma com o tempo, ou com a urgência que ele impõe. Em Angola, ninguém repara se chegamos cinco minutos atrasados, nem mesmo em Portugal, mas, no Japão, cinco minutos de atraso dá direito a processo e indemnização. São relações diferentes com o tempo. Mas como diz o Ondjaki, «o mais engraçado do africano é que ele tem sempre uma história». Chegue atrasado ou não, o africano traz sempre uma história.

Nayma entrevista exclusiva

Nayma com um Franck Muller Master Square Quartzo Diamantes. Fotografia Pedro Ferreira, styling Ricardo Preto

Dá-se a coincidência de estarmos a fazer esta entrevista um dia após a celebração do 50.º aniversário do discurso de Martin Luther King, marcado pela frase «I have a dream». Ainda falta cumprir alguns dos seus sonhos?
Falta. O preconceito que é mais falado é contra o preto, mas existe contra os asiáticos, os indianos, os índios, os judeus, os homossexuais, enfim. As pessoas estão a começar a perceber isso e o mundo é menos preconceituoso hoje, julgo que por via do mundo artístico. Mas, infelizmente, ainda há muito a fazer. Quando se está na praça de S. Marcos, em Veneza, e se olha para aqueles pilares, para aquele espaço, sabendo quantos povos do mundo inteiro se juntavam naquela praça a negociar, isso dá que pensar. Porque o tipo de preconceito baseado na cor da pele é recente na história da humanidade, terá menos de 400 anos.

Com quem preferia jantar? Muhammad Ali ou Nelson Mandela?
Mandela, sem dúvida. O meu pai ficaria indeciso (risos).

Porque o Ali foi mais revolucionário, não foi? Aquela postura, aquela afirmação toda, «eu sou o maior, o melhor, o mais belo, o mais forte…», num negro americano, nos anos 60, era verdadeiramente revolucionário.
Sim, claro. O Ali deve ser uma pessoa fantástica, mas no que respeita a direitos humanos, a liberdade e a justiça, para mim, nesses aspetos o Mandela é um ser humano incrível que conseguiu reconstruir não só o seu país, mas também a mentalidade do seu povo. Definitivamente, o Mandela. Mas ficaria indecisa se me falasse da Maya Angelou, que escreveu o meu poema favorito, «Still I rise». A oportunidade de colher o ponto de vista de uma mulher tão íntegra como ela, far-me-ia ficar indecisa. ET_simb


Excerto do poema «Still I rise», de Maya Angelou

«You may shoot me with your words,
You may cut me with your eyes,
You may kill me with your hatefulness,
But still, like air, I’ll rise.»

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