Histórias, Relógios

ÍCONES | Design integrado: o advento do relógio moderno

1919 Collection Datetimer

EdT54 — A década de 70 foi talvez a mais revolucionária da segunda metade do século XX. E foi também uma década marcante na história da relojoaria: para além de a chamada ‘crise do quartzo’ ter quase arruinado a relojoaria mecânica tradicional, foi também nesse período que se assistiu à mais exuberante variação de estilos e ao advento do relógio moderno — personificado pelo design integrado de vários modelos que se tornaram ícones. Alguns deles foram recentemente atualizados ou receberam uma nova ramificação em 2016.

Versão completa do texto publicado no número 54 da Espiral do Tempo.

Design integrado: Overseas Ultra-Thin Perpetual Calendar

Overseas Ultra-Thin Perpetual Calendar © Vacheron Constantin

Para muitos, os anos 70 foram considerados, durante algum tempo, a década do mau gosto. Até que, com suficiente recuo, se constatou que a década de 80 talvez seja mais merecedora dessa categorização. Basta vasculhar os antigos catálogos das marcas mais tradicionais para verificar que os relógios desse período surjam talvez como os menos atraentes da história da relojoaria e raros são os modelos então lançados que são sequer equacionados para serem ressuscitados na onda revivalista dos últimos tempos.

Design integrado: IWC Ingenieur Automatic AMG

Ingenieur Automatic AMG Black Series Ceramic © IWC Schaffhausen

Já as reedições associadas aos anos 70 têm florescido — sobretudo no período que vai desde 1969, quando as tendências estéticas eram mais do que evidentes, até cerca de 1976, quando os mostradores LED inundaram o mercado numa avalanche de relógios de quartzo e a maior parte das companhias relojoeiras suíças desaparecia. Nesse período, que arrancou com a proliferação do cronógrafo mecânico no verão de 1969 (embora não fosse a isso que se referia a canção de Bryan Adams), registou-se a maior profusão de estilos e a mais alargada paleta cromática jamais verificada. Para além do uso da cor, com predominância do laranja e do azul, a tendência ia contra o uso das caixas redondas convencionais graças à exploração de todos os tipos de geometrias. Simultaneamente, o estabelecimento de um novo tipo de design que fusionava a caixa com a bracelete abria uma nova era.

Design integrado: Royal Oak

Royal Oak, onde se pode observar o arquitetura integrada da caixa com a bracelete © Audemars Piguet

Se a estética relojoeira tradicional implica a caixa com asas vigente desde que o relógio passou do bolso para o pulso e a relojoaria dita contemporânea assenta num visual técnico com mostradores estruturados em carrocerias feitas a partir de materiais de ponta, o relógio moderno nasceu com a afirmação da arquitetura integrada em modelos incontornáveis da década de 70.


Tempos de mudança

Design integrado: P'6540 Heritage Chrono

P’6540 Heritage Chrono, incluído no P’6540 Heritage Set, lançado em 2012 como comemoração dos 40 anos do primeiro relógio concebido pela marca. © Porsche Design

Os anos 70 foram uma década de convulsões políticas, económicas e sociais — com tendências que vinham já do final da década anterior a acentuar-se. A chegada do homem à Lua fomentou ainda mais a ficção científica na televisão e no cinema, numa sede de modernismos que trouxe uma onda de experimentalismo no design geométrico e na arte popular. E houve, sobretudo, uma inclinação para a contracultura, para um corte epistemológico com o passado, para a rotura relativamente aos padrões tradicionais — traduzida por formas de ativismo social, estilos de vida alternativos, soluções artísticas concetuais. Foi mais uma era de expressão do que de reflexão, o que conduziu a um certo culto do excesso, da sensualidade e da decadência; houve modas difíceis de digerir, mas algumas eram mesmo espetaculares.

Design integrado: Zenith El Primero

El Primero, de 1969 © Zenith

No que diz respeito à relojoaria, foi uma era que deu a conhecer modelos grandes, coloridos e muito desportivos. Novos códigos estéticos tornaram os mostradores mais cromáticos (pop), enquanto a arquitetura da caixa se apresentava como um campo experimental de design (funky). Numa terceira vertente, é forçoso sublinhar a enorme inovação técnica que constituiu a estreia dos cronógrafos automáticos — mas, nesse caso, os desenvolvimentos já vinham de trás e 1969 foi apenas o ano da apresentação na sequência da tal corrida que terminou praticamente empatada entre o calibre El Primero (integrado, com roda de colunas e rotor ao centro) da Zenith e o calibre Chronomatic (o Calibre 11 modular, com cames e microrrotor descentrado) de um consórcio que incluía a Heuer-Leonidas, a Breitling, a Büren-Hamilton e a Dubois-Dépraz.

Design integrado: TAG Heuer Monaco

Monaco, de 1969 © TAG Heuer

Devido à sua forte presença nos Estados Unidos, a Heuer (depois, TAG Heuer) absorveu as correntes estéticas intercontinentais de tão revolucionário período da civilização ocidental e foi uma das marcas que melhor soube transpor para os mostradores as cores e as geometrias que estavam em voga. O seu novo mecanismo cronográfico surgiu também inserido num relógio quadrilátero com mostrador azul pintalgado de vermelho e com indexes geométricos que foi batizado Monaco; vieram depois outros modelos de formatos distintos inspirados pela Fórmula 1. Centenas de marcas suíças seguiram a mesma corrente. Mas houve algumas, de acentuado pedigree, que se começaram a destacar de outra maneira.


A alta-relojoaria torna-se desportiva

Design integrado: Vacheron Constantin Overseas Chronograph

Overseas © Vacheron Constantin

Após os movimentos liberais da década de 60 e o advento do profissionalismo no desporto, os anos 70 deram à luz uma nova geração de jet-setters mais desenvolta e com atividades desportivas mais exigentes que também aderiu às novas correntes de design. Foi então que uma nova geração de instrumentos do tempo em aço mas com acabamentos de alta-relojoaria surgiu na altura certa para uma classe abastada que procurava um relógio de luxo que pudesse ser utilizado tanto num iate em alto mar como à noite com smoking

Os novos modelos podiam ser construídos à base do metal mais democrático, mas o nível de preço era exclusivo. Tinham em comum uma estrutura geométrica que se prolongava desde a caixa até à bracelete integrada — e foram abraçados tanto imediatamente pelos modernistas como gradualmente pelos clientes habituais das marcas, que desejavam uma alternativa robusta para os modelos mais delicados ou grandes complicações vulneráveis a atividades radicais.

Design integrado: Patek Philippe Nautilus Travel Time

Nautilus Travel Time © Patek Philippe

Nessa linhagem, várias manufaturas suíças introduziram uma prestigiada linha desportiva de conceito idêntico no espaço de cinco anos — com a Audemars Piguet a lançar o Royal Oak, em 1972, a Girard-Perregaux a desvelar o Laureato e a IWC com o renovado Ingenieur, em 1975, a Patek Philippe a apresentar o Nautilus, em 1976, e a Vacheron Constantin a responder com o 222 (o ancestral do Overseas), em 1977. Cinco modelos couraçados que lançaram a relojoaria na era moderna e que, apesar da robustez, iniciaram o conceito ‘sport élegance’, encarado como pedra filosofal por tantas marcas no último quartel do século XX.


Couraçado revolucionário

Design integrado: Royal Oak

Royal Oak, de 1972, acompanhado pelo sketch original. © Audemars Piguet

Tudo começou com o Royal Oak. Reza a lenda que o designer Gérald Genta se inspirou nas bocas de canhão octogonais do vaso de guerra da Marinha Real Britânica com o mesmo nome — aplicando a forma na luneta, por sua vez fixada à caixa monocoque por oito parafusos hexagonais de ouro. O mostrador azul apresentava um padrão Clous de Paris e a bracelete integrada fundia-se na caixa, simultaneamente rígida e flexível. O resultado foi um relógio imponente, couraçado, não convencional, que se tornou pioneiro de uma nova categoria na indústria relojoeira — e a aposta arriscada acabou por ser acertada, porque, mais de quatro décadas depois, continua a ser um relógio carismático com crescentes ramificações.

Design integrado: Royal Oak

Coleção Royal Oak 2016 © Audemars Piguet

Quando o primeiro Royal Oak foi apresentado em 1972, causou alarido na feira de Basileia, não só pela sua forma original, mas também pelo preço então considerado proibitivo para um relógio de aço em plena crise petrolífera. Na altura, muitos vaticinaram que seria a perdição da manufatura fundada em 1875. Mas o resultado foi o oposto: com um mecanismo automático de qualidade, sóbrio e de aspeto robusto com uma estrutura em aço tratado como se fosse ouro, com pouco carbono e crómio, o Royal Oak revolucionou a estética relojoeira e o conceito de relógio desportivo.

Design integrado: Royal Oak Offshore Diver Chronograph

Royal Oak Offshore Diver Chronograph, 2016 © Audemars Piguet

Em 1993, nasceu a variante Royal Oak Offshore a partir de uma adaptação do designer Emmanuel Gueit — que exacerbou os traços do Royal Oak num formato maior e mais robusto. O Royal Oak Offshore levou o conceito de desportivo de luxo ainda mais longe, arriscando em cores ousadas e materiais de ponta. Após o lançamento do Royal Oak Offshore Diver no início da década, a Audemars Piguet desvelou este ano o Royal Oak Offshore Diver Chronograph.


O engenheiro e o licenciado

Design integrado: IWC Ingenieur SL

IWC Ingenieur SL Ref. 1832, de 1981 © Antiquorum

Gérald Genta tinha uma visão arquitetural da relojoaria que passou a ser seguida pelos principais players da indústria relojoeira da altura. E foi convidado a renovar a linha Ingenieur, da IWC, adaptando a estética das versões inaugurais de 1954-55 aos seus códigos estéticos integrados. O Ingenieur de 1975 (também designado Jumbo ou SL) apresentava-se com um look totalmente novo e caraterísticas de robustez e legibilidade reforçadas. Chegado ao mercado quase em simultâneo com a crise do quartzo, não teve uma produção alargada — foram feitos apenas 1.000 exemplares, sendo depois criadas novas versões em 1983, 1989 e 1991. Aquando do 30.º aniversário do traçado de Gérald Genta, a IWC relançou o Ingenieur em 2005, respeitando o desenho de Genta tão caraterístico dos anos 70, mas estilizado de modo contemporâneo e com padrões de produção modernos — além de ser declinado numa alargada família com diversos tipos de funções, materiais e tamanhos que foi atualizada em 2013.

Design integrado: IWC Ingenieur

Ingenieur Automatic, Coleção de 2013. © IWC Schaffhausen

Nesse mesmo ano de 1975, a Girard-Perregaux aderiu à corrente com o Laureato — o seu nome vem na sequência de um filme de Mike Nichols que relata o caso amoroso de um jovem estudante com uma mulher madura (a Mrs. Robinson da música de igual nome da dupla Simon & Garfunkel) e tinha por título italiano Il Laureato (tradução do original The Graduate); o distribuidor transalpino sugeriu o nome e assim ficou. Também concebido em aço, foi igualmente conjugado em versões bicolores (que seriam mais típicas da década 80) e destacava-se por uma luneta dupla recortada octogonalmente sobre uma base redonda. A inevitável integração da caixa e da bracelete com alternância de superfícies polidas/escovadas é bem representativa da época. A partir da década de 80 e sobretudo da de 90, foi recebendo complicações várias, tendo a sua estética sido atualizada em 2003 com o Laureato Evo3. Perdeu, entretanto, peso na coleção, mas regressa este ano com uma edição limitada de 225 exemplares (para celebrar o 225.º aniversário da marca) dotada de mostradores em Clous de Paris.


O relógio do Capitão Nemo

Design integrado: Patek Philippe Nautilus

Patek Philippe Nautilus Ref. 3700/1, 1980. © Antiquorum

Em 1976, também a Patek Philippe zarpou para águas nunca antes navegadas ao embarcar numa aventura semelhante à do Capitão Nemo no famoso romance 20 Mil Léguas Submarinas — e não podia ter escolhido melhor nome para batizar um relógio que cortou com tudo o que tinha feito. Quando a manufatura desvelou o primeiro Nautilus, ficava definitivamente certificado o nascimento do relógio moderno devido ao seu enorme peso histórico: tratava-se de um modelo iconoclasta de grandes dimensões para a altura e arquitetura vanguardista que rompia com o passado clássico da marca. Chegou a ser encarado como sacrílego, escandalizando os puristas e sendo abraçado pelos modernistas. Foi contestado durante muito tempo, mas entretanto cimentou a sua posição de ícone no catálogo e tornou-se muito apreciado precisamente entre os clientes habituais que desejavam uma alternativa robusta para os seus delicados Calatrava ou para as grandes complicações.

Nautilus 5711-1R, 2015. © Patek Philippe

Nautilus 5711-1R, 2015. © Patek Philippe

Gérald Genta seguiu a sua doutrina de design para a conceção do Nautilus, optando por um formato oval para o mostrador — que, na realidade, é mais um octógono com ângulos suavizados acompanhado por duas charneiras laterais (que com o tempo se tornaram ligeiramente curvas para melhor prolongar o perfil da luneta). O visual original mostrava uma inspiração náutica e reportava-se às escotilhas dos antigos transatlânticos, com um sistema de charneira e aparafusamento que fechava hermeticamente as juntas para tornar o relógio estanque a 120 metros — algo de raro nos anos 70. Mais uma vez, a construção integrava a caixa e a bracelete; os vários mostradores degradé, atualmente disponíveis em cores esfumadas, são também uma herança típica da época.

O Nautilus completa este ano o seu 40.º aniversário e continua com grande força, sendo um dos relógios desportivos de luxo mais cobiçados pelo seu pedigree.


A evolução do Overseas

Vacheron Constantin Overseas

Vacheron Constantin Overseas 222, 1980’s. © Antiquorum

O 222 da Vacheron Constantin nasceu em 1977 com essa mesma estética integrada e chegou a pensar-se que o traçado das suas linhas seria da autoria do mesmo Gérald Genta. No entanto, o conceito visual do 222 deve-se ao conhecido designer Jorg Hysek.

A diferença primordial relativamente ao Royal Oak e ao Nautilus tem a ver com o facto de, sendo esses dois modelos lançados originalmente numa versão de luxo em aço («tratado como se fosse um metal precioso», sublinhava-se então), o 222 ter nascido combinando o aço e o ouro. E nem era intenção da Vacheron Constantin competir no segmento dos relógios desportivos de luxo, até porque a produção da manufatura era restrita; o desiderato era disponibilizar uma alternativa consonante com um estilo de vida mais ativo. O 222 era impermeável até aos 150 metros de profundidade e foi rebatizado Phidias no início da década de 90, após um restyling adaptado aos gostos da altura. Mas, poucos anos depois, recebeu uma nova atualização e um novo nome: o Overseas surgiu em 1996 com um visual mais agressivo, mais angular, mais masculino — e o nome evocava aventuras ultramarinas, ao passo que o estilo evidenciava uma maior ligação à marca com o uso criterioso da Cruz de Malta. A atualização efetuada em 2004 reforçou o espírito do relógio graças a uma adaptação estética que teve a assinatura de Vincent Kaufmann e estabeleceu uma ponte com os desenvolvimentos antimagnéticos já presentes em criações da Vacheron Constantin em 1885.

Vacheron Constantin Overseas

Overseas © Vacheron Constantin

A nova versão vem celebrar os 20 anos da coleção enquanto Overseas e representa quatro décadas de evolução, tendo sido apresentado no SIHH 2016 com atualizações de monta certificadas pelo diretor criativo Christian Selmoni. O perfil é mais fino e menos angular, as dimensões são mais ergonómicas; o mostrador em dois planos também se apresenta mais sofisticado tanto na grafia como na aplicação dos indexes e os acabamentos de superfície são polidos e escovados. Os fundos transparentes em safira deixam ver novos calibres automáticos de manufatura com um rotor em ouro de 22 quilates personalizado, inspirado na rosa dos ventos. Para acentuar a conotação sport chic, um novo sistema de mudança rápida de correias/braceletes permite passar da bracelete metálica para uma bracelete em cauchu ideal para atividades mais lúdicas/estivais e para uma correia em pele para ocasiões mais elegantes.


Do moderno ao contemporâneo

Design integrado: 1919 Globetimer

1919 Globetimer Series 1 All Black © Porsche Design

Contrastando com as manufaturas tradicionais que souberam adicionar designs modernos ao seu portfólio clássico na década de 70, a Porsche Design já nasceu modernista: foi fundada em 1972 e o primeiro objeto de culto saído do atelier foi um cronógrafo de arquitetura integrada que foi também o primeiro cronógrafo completamente negro na história da relojoaria de pulso. O design integrado constituiu precisamente uma das imagens de marca dos instrumentos do tempo do estúdio criado por Ferdinand Alexander Porsche e está bem patente nas reedições que a marca lançou para celebrar o seu 40.º aniversário.

Já a Tudor, que se relançou brilhantemente com a linha Heritage em 2010, seguiu um caminho diferente com o seu North Flag de 2015: é um dos mais recentes relógios completamente novos — ou seja, que não são reedições ou reinterpretações — a adotar linhas caraterísticas da década de 70.

Design integrado: Tudor North Flag

Tudor North Flag © Espiral do Tempo / Susana Gasalho

Noutra perspetiva, os grande ícones relojoeiros dos anos 70 conviveram com a chamada ‘crise do quartzo’ e conseguiram sobreviver à recessão. Entretanto, os cerca de 15 anos em que a crise foi mais acentuada tiveram o condão de formar poucos relojoeiros e criar um fosso geracional que na década passada se fez sentir de modo… positivo. Os relojoeiros formados antes da crise foram-se reformando, ao passo que o renascimento da relojoaria mecânica — sensível em grande força a partir da segunda metade da década de 90 — criou novos apetites pela profissão e a nova geração de relojoeiros está a implementar uma nova atitude.

A partir de 2002, deu-se uma revolução que catapultou a relojoaria para a era contemporânea — a era da ‘alta tecnolojoaria’, como eu lhe chamo, caraterizada por modelos ousados, de design integrado, concebidos em materiais vanguardistas e com mostradores estruturados que deixam transparecer prodígios da micromecânica. O ressurgimento clássico com a proliferação de reedições neo-vintage travou essa ‘contemporaneízação’, e não são muitas as marcas que continuam a assentar nessa estética (a Richard Mille, a Hublot, a Cvstos). Entretanto, e como se pode constatar até à saciedade, os relógios ‘modernos’ dos anos 70 cimentaram a sua condição de clássicos. ET_simb