Histórias

HISTÓRIAS – Complicações musicais: histórias com som

complicações musicais: Bulgari Commedia Dell'Arte Arlechino

EdT53 — Entre os vários relógios que nos últimos anos foram lançados com alguma complicação acústica suplementar ou inspirados pela música, há alguns que merecem ser destacados — porque são diferentes e configuram uma especial narrativa.

Texto originalmente publicada na versão impressa da Espiral do Tempo 53.

Existe uma ligação intrínseca entre música e narrativa — afinal de contas, qualquer tema musical é uma história contada de forma melódica. E, no universo das complicações relojoeiras acústicas ou dos relógios associados a uma qualquer inspiração melómana, há modelos que se distinguem pela sua conceção e/ou função.

complicações musicais: Opus XIV

Harry Winston Opus XIV © Harry Winston
| Foto de abertura: Bulgari Commedia Dell’Arte Arlechino (making of). © Bulgari

O mais recente foi apresentado no último trimestre de 2015 e não tem nenhuma complicação acústica. Trata-se do Opus XIV da Harry Winston, que no entanto bebeu a sua inspiração nas jukeboxs que animavam os bares e os restaurantes das décadas de 60 e 70: o conceito do relógio baseia-se no sistema de escolha/colocação do disco/da música nessas máquinas. O Opus XIV foi apresentado numa cerimónia de temática americana, com carros típicos de road movies e a presença musical de Robin Thicke. O sistema de mudança de complicação do calibre de 1.066 peças idealizado pelos criadores Frank Orny e Johnny Girardin (do atelier Tholos Watch, também responsável pelo Metamorphosis da Montblanc) baseia-se no modo como as jukebox escolhiam o prato do disco e o levantavam para o colocar a tocar. A simbologia também está lá, com o sinal reminiscente do da Route 66 e a estética inspirada nos discos de vinil. Só falta mesmo a música!

Pássaros e cavalos

Não foi lançado tão recentemente, mas também esteve em destaque nos últimos tempos: o Charming Bird da Jaquet-Droz arrebatou o prémio de mecânica de exceção na cerimónia do Grand Prix d’Horlogerie de 2015. A marca, ressuscitada por alturas da passagem do milénio, tem uma longa história de produção de autómatos mecânicos e o Charming Bird acaba por ser a miniaturização contemporânea para o pulso dos antigos relógios de bolso/mesa e autómatos produzidos pelo relojoeiro suíço Pierre Jaquet-Droz no século XVIII e que estão tão ligados à relojoaria em geral.

complicações musicais:Charming Bird

Charming Bird © Jacquet-Droz

Ao contrário das repetições de minutos, das grandes e pequenas sonneries ou dos alarmes (que fazem soar as horas ou têm a função de recordar), a complicação acústica presente no Charming Bird (pela primeira vez apresentado em protótipo há dois anos) não tem nenhuma utilidade prática — o som é emitido somente para tornar o cenário mais espetacular. E assemelha-se mesmo muito ao do chilrear de um pássaro real; uma intrincada complicação assente numa excecional engenharia micromecânica permite a emissão de notas diferentes; o efeito visual reforça ainda mais as valências acústicas do relógio, já que o pássaro surge acima do plano do mostrador e por baixo de uma cúpula abobadada em vidro de safira.

O notável Cinema do mestre Konstantin Chaykin (o único russo da Academia Relojoeira de Criadores Independentes) também tem um tema fascinante, mas produz outro tipo de ruído que o torna muito original e invulgar. Porque celebra o advento das imagens sequenciadas em filme, nomeadamente o inaugural zoopraxiscópio de Eadweard Muybridge  que apresentou a animação de um cavalo a correr. É exatamente essa a animação que se vê, num disco que roda sob um óculo na parte inferior do mostrador; ao mesmo tempo, o ruído que se ouve ao longo de 20 segundos evoca também o que era produzido pelos projetores das curtas metragens dos primeiros tempos para uma autenticidade mais concreta. No seu todo, o relógio até foi feito para se assemelhar a uma câmara vintage!

O cinema foi concebido com o fito de comemorar os primórdios da arte cinematográfica, mas o conceito é adaptável a vários outros temas à vontade do freguês  e, como não podia deixar de ser, Konstantin Chaykin teve encomendas para versões eróticas. O erotismo através da automação é um tema recorrente na relojoaria mecânica…

Entreter e informar

O infotenimento, ou infoentretenimento, sempre teve lugar na história das complicações mecânicas mais ou menos ligadas à relojoaria. O princípio remonta a eras passadas em que havia menos brinquedos e passatempos para adultos. Uma das marcas que recentemente tem investido muito na combinação dos chamados jaquemarts (figuras animadas) com outras complicações relojoeiras é a Ulysse Nardin e tem-no feito com o recurso a cenas eróticas juntamente com complicações acústicas, como sucede no Hourstriker Erotica Jarretière (faz soar as horas), sem sequer se preocupar em esconder o erotismo no fundo do relógio: ele está bem à vista, no mostrador. Como já acontecia no modelo Adão e Eva de há uns anos. Ao bater de cada hora surge uma estocada do fogoso amante…

complicações musicais: Stranger Vivaldi

Ulysse Nardin Stranger Vivaldi © Ulysse Nardin

Mas a Ulysse Nardin também é capaz de produzir peças excecionais de caráter menos sexual e mais musical; é o caso do Stranger, uma espécie de caixa musical para o pulso que, na sua primeira versão, toca o eterno tema «Strangers in the night» de Frank Sinatra e, na segunda versão, lançada em 2015, toca o «Violin Concerto in E», de Vivaldi.

Este relógio surge no seguimento de outros do mesmo tipo, como o Sonata, ou outros com complicações acústicas mais tradicionais, como os realizados sob o nome Westminster Minute Repeater Jaquemarts Tourbillon. O Stranger não baseia a sua acústica em martelos e gongos; produz música a partir de um disco com pinos e ferros como os das caixas musicais (semelhantes até às que podemos ver na produção fotográfica desta edição) — e fá-lo no mostrador, para deleite do observador.

complicações musicais: Bulgari Commedia Dell'Arte Brighella

Bulgari Commedia Dell’Arte Brighella © Bulgari

O mesmo sucede no Commedia Dell’Arte, um relógio da Bulgari que canta e dança graças a um personagem principal no mostrador e que surge declinado em várias versões (Brighella, Pulcinella e Arlechino). São uma homenagem à história da Commedia Dell’Arte, a arte interpretativa improvisada e burlesca iniciada em Itália no século XVI que Gerald Genta utilizou como tema nalgumas peças suas; a marca Gerald Genta (como a Daniel Roth) foi adquirida pela Bulgari na década passada, mas a inspiração e o tema mantiveram-se na produção. Para encanto dos apreciadores das artes musicais e relojoeiras. ET_simb