Opinião

Carré des Horlogers: combinação explosiva

SIHH Carré des Horlogers

EdT54/ em Genebra — A relojoaria de prestígio tem-se declinado cada vez mais em dois campos bem distintos: o das históricas manufaturas tradicionais e o das emergentes marcas independentes. A nova configuração do recente Salon International de la Haute Horlogerie foi um excelente exemplo dessa polarização e emprestou ao certame uma dinâmica bem diferente. Eis a necessária avaliação de um tema cada vez mais atual na atualidade relojoeira.

Originalmente publicado na versão impressa do número 54 da Espiral do Tempo.

Carré des Horlogers

SIHH 2016, inauguração. © SIHH
| Foto de abertura © Espiral do Tempo / Paulo Pires

O renascimento da relojoaria tradicional, processado em grande força sobretudo a partir dos finais da década de 90, estabeleceu uma nova realidade na história da indústria relojoeira: os relógios mecânicos passaram a ser objetos de culto, ao passo que antes da emergência dos modelos de quartzo eram sobretudo referências de precisão. Porque, se dá jeito ter as horas sempre à mão (mais concretamente no pulso), essa dependência pessoal do relógio deixou de ser fundamental devido à omnipresença do tempo — no telemóvel e no computador, além da rádio e da televisão. Com essa mudança estrutural e a glorificação da relojoaria mecânica enquanto arte, abriu-se uma nova perspetiva de negócio. Ser relojoeiro voltou a estar na moda, foram inaugurados ateliers de especialidades mecânicas, as marcas com maiores pretensões de legitimidade investiram em movimentos de manufatura, as históricas casas relojoeiras concretizaram uma verticalização quase total da sua produção e começaram a nascer marcas contemporâneas que alargaram drasticamente a oferta perante uma crescente procura.

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SIHH 2016, com vista sobre os stands da Roger Dubois (à direita) e da Van Cleef & Arpels (ao fundo). © Morvan Alain – © Nencioli Gilbert

Essa tendência não é nova e tão pouco recente. Mas foi finalmente certificada ao mais alto nível na 26.ª edição do Salon International de la Haute Horlogerie (SIHH) — que é geralmente encarado como uma das duas principais reuniões anuais da relojoaria mundial (além de Baselworld, em março), até porque arrasta consigo algumas das marcas mais relevantes em múltiplas apresentações efetuadas em vários pontos da cidade e mesmo nos arredores. Claro que o centro das atenções está sobretudo centrado no Palexpo com o Salão Internacional da Alta-Relojoaria — mas, à boleia desse evento, várias outras marcas costumam apresentar novidades em showrooms e salas de hotel ou mesmo nas suas próprias instalações, no caso das companhias sediadas na cidade. Como o Grupo Franck Muller, que organiza a World Presentation of Haute Horlogerie no seu quartel-general de Watchland, em Genthod.

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SIHH 2016, inauguração. © SIHH

Este ano, a realidade habitual da chamada ‘Wonder Week’ genebrina alterou-se um pouco. O SIHH, organizado pela Fundação de Alta-Relojoaria (FHH) em parceria com o Grupo Richemont e ‘marcas amigas’, apresentou uma nova configuração no sentido em que foi criado um espaço relojoeiro para um conjunto de marcas relojoeiras independentes de luxo que no passado estavam confinadas a paragens alternativas ou a pequenos salões paralelos que não sobreviveram. Beneficiando da saída da Ralph Lauren (que tem uma joint-venture com a Richemont na sua vertente relojoeira) e da otimização do espaço no Palexpo , foi criado o adequadamente apelidado «Carré des Horlogers» com a Hautlence, Moser & Cie, De Bethune, HYT, Christophe Claret, MB&F, Urwerk, Laurent Ferrier e Voutilainen — todas elas jovens marcas de nicho galardoadas que passaram a conviver, embora numa área bem delineada, com as companhias relojoeiras que são autênticos potentados e que se tinham habituado a dominar o prestigiado salão: por ordem alfabética, a A. Lange & Söhne, a Baume & Mercier, a Cartier, a IWC, a Jaeger-LeCoultre, a Montblanc, a Panerai, a Piaget, a Roger Dubuis, a Vacheron Constantin e a Van Cleef & Arpels da Richemont e as independentes Audemars Piguet, Greubel Forsey, Parmigiani Fleurier e Richard Mille. À parte, o projeto Naissance d’une Montre, do mestre Philippe Dufour com o apoio da Greubel Forsey.

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SIHH 2016, Carré des Horlogers. Vista para os stands (da esquerda para à direita): Hautlence, H. Moser & Cie, De Bethune e HYT. © Morvan Alain – © Nencioli Gilbert


O timing ideal

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Entrada do stand da Montblanc no SIHH 2016 © Morvan Alain – © Nencioli Gilbert

Quando Franck Muller resolveu lançar uma marca com o seu próprio nome no início da década de 90, foi encarado como um iconoclasta — na altura, esse ‘atrevimento’ era um autêntico sortilégio e um desrespeito para com os valores estabelecidos da secular indústria relojoeira suíça. «Só os mortos é que podiam ter o nome no mostrador», recorda o autoproclamado Master of Complications. O certo é que esse pioneirismo de nomenclatura abriu novos caminhos — com mestres relojoeiros e mesmo designers a emprestarem o seu nome para a criação de novas marcas, com Gérald Genta, Daniel Roth, Jorg Hysek, François-Paul Journe a ultrapassarem o conservadorismo vigente.

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Entrada do stand da De Bethune no SIHH 2016 © Morvan Alain – © Nencioli Gilbert

Porque os tempos se tornaram favoráveis, muitos outros seguiram a mesma via… com maior ou menor sucesso. Por exemplo, Cedric Johner e Michel Jordi não aguentaram. Gérald Genta e Daniel Roth venderam as suas marcas, que hoje em dia desapareceram ao serem assimiladas pela coleção da Bulgari. Mas as novas marcas de alta-relojoaria têm dominado os prémios no Grand Prix d’Horlogerie, numa primeira fase com François-Paul Journe e Richard Mille, mais recentemente com destaque para a De Bethune, a Urwerk, a Voutilainen de Kari Voutilainen, a Greubel Forsey,  Laurent Ferrier e mesmo a Grönefeld dos irmãos Tim e Bart Grönefeld. Umas, declaradamente vanguardistas; outras, intrinsecamente tradicionais; outras, com novas interpretações da relojoaria clássica — mas todas com reduzidos números de produção, mesmo abaixo da produção reduzida das seculares casas de alta-relojoaria.

Perante uma tal dicotomia, como reagem os mercados e os colecionadores — sobretudo em tempos de grande incerteza socioeconómica, com a Europa a atravessar um período de recessão, mercados emergentes como o Brasil e Angola a entrarem em crise e o ‘El Dorado’ chinês a esvaziar-se?


Uma auréola diferente

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Sherman © MB&F

No que diz respeito à imprensa especializada, as pequenas marcas independentes estão sempre em alta — porque oferecem normalmente algo de diferente para escapar ao mainstream, porque é cool ter no pulso algo de exclusivo que a maior parte das pessoas desconhece e sobretudo porque há um contacto direto/pessoal com os criadores… e essa ligação humana é extremamente importante para os jornalistas e para os colecionadores, ajudando psicologicamente a tornar os produtos ainda mais interessantes. Por outro lado, o pedigree das grandes casas relojoeiras também oferece um fascínio tremendo. Perante a conjuntura atual, todos os argumentos são válidos para captar emocionalmente um potencial comprador.

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Reverso Tribute Gyrotourbillon © Jaeger-LeCoultre

Os grandes colecionadores portugueses estão sempre atentos ao mercado, mas — por questões de segurança e porque o momento não é para demonstrações de saúde financeira — não desejam ser citados. «Escolher entre uma especialidade relojoeira da Lange & Söhne ou da Jaeger-LeCoultre e uma complicação ousada da Urwerk ou da De Bethune não é fácil», confidenciava-nos um deles em Genebra. «Para mim, que adoro a relojoaria nas suas mais diversas interpretações, estão no mesmo plano. Mas, em tempos de incerteza e austeridade, reconheço que pode ser mais seguro investir em relógios das grandes casas tradicionais, em peças mais clássicas. É quando se sente uma maior pujança financeira que estamos mais recetivos para as extravagâncias das marcas modernas.»

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UR105 TRex © Urwerk

Claro que as grandes casas tradicionais também apresentam essas extravagâncias relojoeiras sob a forma de modelos concetuais ou grandes complicações inovadoras que são sempre muito requisitadas e cuja tiragem muito limitada se esgota num ápice. Mas a auréola é diferente. A Mercedes pode ter no topo da sua pirâmide carros verdadeiramente excecionais, mas a Koenigsegg tem clientela assegurada entre os bilionários — quem não conhecer o nome, é favor ‘googlá-lo’. Entretanto, a crise tem afetado de maneira distinta algumas dessas marcas de nicho; algumas vendem tudo o que fazem, outras nem por isso e estão vergadas sob o peso de avultados investimentos industriais e de distribuição internacional.


Uma opinião abalizada

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Historiques ‘Cornes de Vache’ 1955 © Vacheron Constantin

Mas se, de um modo geral, os grandes colecionadores portugueses tendem a não querer ser mencionados, conseguimos uma opinião on the record de um norte-americano que até já ultrapassou o conceito de colecionador para se tornar também numa espécie de analista com trabalhos publicados: Gary Getz. «Para mim, a mais-valia das grandes casas relojoeiras reside naquilo que podemos apelidar de ‘clássicos’ — relógios que podem representar o pilar de uma coleção, que são representativos da força e da tradição de uma determinada manufatura e que podem contribuir para melhorar a minha coleção», diz-nos o colecionador californiano. «Por exemplo, relativamente à Jaeger-LeCoultre, tenho vários Reversos que fui colecionando ao longo dos anos; no que diz respeito à Lange & Söhne, são os cronógrafos (tenho o Double Split e o Datograph Perpetual), e, na Vacheron Constantin, opto pelos relógios esqueletizados para ocasiões de cerimónia. Um amigo meu chama-lhes ‘investment watches’, não no sentido em que os compramos para depois fazer dinheiro com eles, mas porque servem de fundação. Quanto aos independentes, tem tudo a ver com a visão do criador e a minha afinidade pessoal com as individualidades em questão. Encontrar-me com Philippe Dufour, Kari Voutilainen, os irmãos Grönefeld, Vianney Halter, Romain Gauthier e tantos outros numa lista que também inclui Stephen Forsey, Ludovic Ballouard, Peter Speake-Marin e Max Büsser, e perceber as suas motivações e a sua metodologia equivale a desejar de imediato os seus relógios! Neste caso, trata-se menos de ‘investimento’ e mais de um certo ‘mecenato’, o desejo de apoiar o trabalho de grandes artesãos e de inventores visionários». E acrescenta: «De um lado e do outro, valorizo soluções inteligentes, complicações interessantes e qualidade de acabamento. E, olhando para a evolução da minha coleção, tenho valorizado ultimamente a cronometria: adquiri vários turbilhões, alguns deles de múltiplos eixos, modelos com remontoir e o Logical One de Romain Gauthier, que com a seu engenhoso sistema de força constante com corrente resolve o problema do isocronismo.»

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H2 Tradition © HYT

E como é que a conjuntura de crise afeta a disponibilidade de um colecionador? «Em tempos de incerteza, o que há a fazer é comprar o que verdadeiramente gostamos (e esse é sempre um bom conselho!), encarar a nossa coleção do ponto de vista de portefólio e considerar uma combinação de peças de ‘investimento’, ‘mecenato’ e ‘divertidas’, mas talvez escolher menos peças ‘divertidas’ e optar por modelos essenciais com um valor mais seguro; também devemos pensar em relógios mais simples de marcas mais conhecidas do grande público que nesta altura podem ser melhor aquisição do que grandes complicações com mercados de revenda muito reduzidos. Além disso, temos de ter a coragem de seguir as nossas convicções: se amamos verdadeiramente um modelo e achamos que vamos continuar a gostar dele daqui a algum tempo, há boas hipóteses de os outros também acharem o mesmo.»

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Grande Lange 1 Moon Phase Lumen © A. Lange & Söhne

Claro que o valor emocional também pesa muito; além do valor intrínseco de um relógio, há outros fatores a afetarem a compra de um colecionador: «Para mim, tem tudo a ver com as pessoas. Com os independentes e as marcas como a Lange ou a Vacheron, foi muito importante ter conhecido as individualidades por trás dos relógios ao longo dos anos. E, em muitos casos, a diferença na escolha foi o facto de eu poder comprar relógios juntamente com outros amigos colecionadores, com vários de nós a comprar um determinado modelo ou modelos diferentes de uma mesma marca independente», revela Gary Getz.

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World Traveler © De Bethune

Mas há mais: «É um fator menos relevante, mas também há um pouco o aspeto aspiracional a ser considerado e que é válido tanto para as grandes casas como para os independentes. Durante muito tempo, a Lange foi uma marca que aspirei ter: Philippe Dufour, François-Paul Journe e Greubel Forsey também. E haverá uma altura em que também terei uma complicação Patek Philippe. Mas claro que o produto intrínseco também tem grande peso na minha decisão.»

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Double Balancier © Greubel Forsey

Finalmente, uma opinião sobre a dicotomia verificada este ano no SIHH: «Achei que foi um salão muito forte. Entre os independentes, gostei muito do World Traveler, da De Bethune, mas o Legacy Perpetual, da MB&F, também seria de destacar se não tivesse sido já apresentado no final do ano passado. A Greubel Forsey está um pouco entre os indies e os grandes, e, enquanto se falou muito do Signature 1, adorei o novo Double Balancier com o seu diferencial inovador, porque a marca, para mim, tem a ver com precisão. E saliento o Reverso Tribute Gyrotourbillon com o seu incrível turbilhão primário de 12 segundos, que combina o formato de caixa do Reverso que eu adoro com a mestria de desenvolvimento de calibres que constitui a essência da Jaeger-LeCoultre. Outro relógio que gostaria de ter é o Cornes de Vache, da Vacheron Constantin, que também já tinha sido apresentado no final do ano passado, mas que só agora tive a oportunidade de ver ao vivo. É um relógio intemporal e clássico de uma clássica manufatura. E, por fim, o Lange 1 Moon Phase Lumen, que foge ao mainstream, mas cujo visual me fascina!».

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Legacy Machine Perpetual © MB&F

2016 será um ano complicado para a relojoaria mecânica tradicional, não só devido à conjuntura internacional, mas também ao crescimento do mercado dos smartwatches — mesmo que se trate de uma categoria completamente diferente. Vamos ver como é que a indústria se irá adaptar à situação… e quais as marcas que irão reforçar ou diminuir a sua posição no mercado internacional. ET_simb

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