Relógios, Watch my Skin

Watch my skin: Zeitwerk Striking Time na Baixa Lisboeta

Zeitwerk Striking Time

Da capital relojoeira alemã à capital da república portuguesa, de Glashütte a Lisboa: passeámos uma obra-prima do renascimento da alta-relojoaria germânica ao longo do eixo principal da reconstrução lisboeta. O Zeitwerk Striking Time não destoou — mas, afinal de contas, também fica bem em qualquer lado.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Não há dúvida de que a A. Lange & Söhne se encontra nos píncaros do que melhor se faz na relojoaria mecânica — e, a partir da sua ‘ressurreição’ a 24 de outubro de 1994, tem marcado indelevelmente a alta-relojoaria contemporânea com novas soluções técnicas e aplicações modernas de elementos estéticos tradicionais. O Lange 1, incluído no quarteto de relógios de pulso apresentado nesse dia de outono em Dresden, tornou-se mesmo num ex-libris da alta-relojoaria contemporânea e permanece como uma referencia incontornável da marca — à qual se juntaram entretanto várias modelos que atingiram estatuto de culto, desde o Datograph às excecionais edições ‘Pour le Mérite’ com transmissão de fuso e corrente, passando pelos artísticos exemplares com o selo Handverkskunst. Mas a minha linha favorita da marca é, sem dúvida, a Zeitwerk… embora tenha colegas que não a achem tão representativa da manufatura saxónica como os exemplares de disposição analógica.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Sou de opinião contrária. Considero o Zeitwerk um relógio extraordinariamente emblemático não só da A. Lange & Söhne como também da cultura saxónica — de tal modo que é mesmo o meu modelo preferido da marca, qualquer que seja a variante. E posso mesmo dizer que, embora enquanto jornalista especializado me tenha habituado a encarar as obras-primas de modo mais pragmático (até porque são inalcançáveis para a bolsa comum…), qualquer Zeitwerk é para mim um ‘Relógio de Sonho’. Seja o Zeitwerk ‘simples’ (o inaugural, de 2009), o Zeitwerk Striking Time (lançado em 2011, com a adição de uma complexidade acústica) ou, evidentemente, o Zeitwerk Minute Repeater (desvelado em 2015, levando a vertente acústica ainda mais longe).

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Dos três Zeitwerks, tivemos a oportunidade de dispor do ‘meio termo’ durante alguns dias para fotografia no nosso estúdio (há um artigo correspondente na mais recente edição impressa da revista) e darmos um passeio com ele em Lisboa para esta rubrica ‘Watch My Skin’. E escolhemos o eixo central da Baixa Pombalina para fotografar o Zeitwerk Striking Time por uma razão específica. Porque, se Dresden e Lisboa são duas cidades muito distintas, é possível destrinçar alguns pontos de contacto entre ambas e houve um deles em particular que justificou a escolha.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Antes do mais, convém estabelecer uma ponte emocional entre Dresden e Lisboa. Quando visitei a Saxónia pela primeira vez, em 2000, senti que era ainda uma cidade que não só carregava o peso da desnecessária destruição física e moral infligida pelos Aliados no último dia da Segunda Guerra Mundial (quando o armistício até já tinha sido decidido!) como também de quatro décadas de subjugação a uma ideologia de leste que não fez jus à glória da antiga capital do Barroco. Sim, é verdade que, sob a égide da RDA, Dresden manteve relevância cultural e científica, mas muito longe daquele estatuto de ‘Florença nas Margens do Elba’ que ostentava. E o que mais me impressionou aquando das primeira visitas foi a tristeza generalizada — mais a cinzentude das gentes e do ambiente do que propriamente da cidade em si. E associei muito todo aquele sentimento que os alemães apelidam de Angst e que pairava no ar aos nossos fados tristes, como se os locais carregassem todo o peso de um duro destino.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Mas lentamente, ano após ano, vi Dresden reflorescer, reconstruir-se, erguer a basílica Frauenkirche das suas cinzas, recuperar o orgulho imperial de antanho, ficar mais alegre e tornar-se novamente uma capital de artes e cultura. Como o é Lisboa, que também renasceu após o terramoto de 1755. A própria Lange & Söhne, cujas instalações foram bombardeadas pelas forças Aliadas no último dia do conflito e que depois foi forçada a integrar uma união de marcas relojoeiras destinada a fabricar relógios baratos para o povo leste-alemão, teve uma história semelhante de ressurreição e redenção. Walter Lange escapou para a Alemanha Ocidental e ‘voltou a casa’ após a queda do Muro de Berlim, sendo o Dom Sebastião que em Portugal nunca regressou. A marca foi relançada em 1994 com pompa e circunstância, necessitando de apenas alguns anos até ser unanimemente reconhecida como uma das melhores manufaturas de alta-relojoaria da atualidade.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

No ano passado, quando Johan Rupert discursou na altura da inauguração do novo edifício de manufatura da Lange, recordou dramaticamente que, quando esteve pela primeira vez no local em fins da década de 90, «as pessoas eram tristes, não sorriam e não tinham sequer coragem de nos olhar nos olhos», acrescentando de modo algo controverso: «é para verem o que 40 anos de comunismo fazem às pessoas». Referência política à parte, o patrão do grupo Richemont (no qual se insere a Lange & Sohne) verbalizou bem o sentimento com que eu próprio fiquei aquando das minhas primeiras visitas…

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Para além da ligação desse Angst com o Fado ou do currículo Barroco comum nas artes de Dresden e Lisboa, o ponto de contacto que me levou à escolha do local para esta rubrica ‘Watch My Skin’ foi mais de ordem arquitectónica e estética. A corrente estética germânica assenta muito na claridade e na legibilidade, em linhas simples e lógicas. Também a Baixa lisboeta foi reconstruída segundo essas premissas da régua e do esquadro na sequência do trágico terramoto de 1755 — um conjunto de linhas retas e perpendiculares com a curvatura do arco da Rua Augusta a dominar o Terreiro do Paço. E a primeira impressão que se fica do mostrador do Zeitwerk é que ele é dominado por linhas retas, mas não: são sobretudo linhas curvas, a partir da própria caixa redonda e com ênfase no arco de 200 graus para a escala da reserva de corda em paralelismo com a curvatura da ponte que enquadra as restantes indicações do relógio. Essa impressão errónea de linearidade tem sobretudo a ver com a disposição horizontal das janelas para a apresentação digital das horas e dos minutos. Mesmo que as próprias janelas apresentem um ‘caixilho’ ligeiramente arredondado!

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Começámos o passeio pela Praça D. Pedro V (mais conhecida por Rossio), em frente ao Teatro Nacional D. Maria II — que começou a ser construído no ano de nascimento de Richard Lange, o primeiro filho do fundador Ferdinand Adolph Lange. Incontornável, a calçada portuguesa: o pavimento é calcetado com mosaico de padrões ondulantes em basalto e calcário. Aproveitámos para tirar algumas fotografias junto a uma das fontes gémeas monumentais.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Claro que os pombos fazem parte da fauna típica da baixa — e, pelos vistos, eles também apreciam a alta-relojoaria da Lange & Sohne. Ou então ficaram curiosas com o livro de Christopher Scheuring que nos acompanhou: Signs of the Times, um romance à volta da história de Ferdinand Adolph Lange.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Depois seguimos pela Rua do Ouro para espreitar a montra da Lange & Söhne na loja da Torres Joalheiros que foi o primeiro ponto de venda da marca em Portugal — recordo-me de ter ido à apresentação, que contou com a presença de Walter Lange. É, atualmente, um de apenas dois pontos de venda da marca no nosso país, juntamente com a Boutique Lange da Avenida da Liberdade. E a Lange & Söhne não pretende mais nenhum… é esse o posicionamento da exclusividade.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Depois virámos para a Rua Augusta — completamente cheia de turistas, artistas de rua e vendedores ambulantes — rumo ao Arco Triunfal. E subimos até lá acima para uma das melhores vistas de Lisboa. Construído em 1759 com desenho de Eugénio dos Santos, o arco subia apenas à altura da sua cimalha em 1843; o arquiteto Veríssimo José da Costa ganhou o concurso para a finalização da obra, que só foi concluída em 1873.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Para além das esculturas de Célestin Anatole Calmels (a Glória que coroa o Génio e o Valor) e de Vítor Bastos (grandes vultos da história de Portugal como Nuno Álvares Pereira, Viriato, Vasco da Gama e Marquês de Pombal), o Arco da Rua Augusta também é famoso pelo seu relógio, cuja maquinaria pode ser apreciado no salão de abóbadas que o acolhe. A recuperação do relógio foi patrocinada pela Jaeger-LeCoultre, numa iniciativa da Torres Distribuição (representante em Portugal da marca, também pertencente ao grupo Richemont que integra a Lange & Söhne) juntamente com o Instituto de Gestão do Património Arqueológico; o Sr. Cousinha, neto do fabricante do presente mecanismo (dos anos 30) e encarregado do restauro.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

O topo do arco oferece uma excelente vista panorâmica sobre a Baixa Pombalina, o Castelo de São Jorge, o rio Tejo e, obviamente, o Terreiro do Paço — emblemática praça lisboeta que atravessou um longo plano de regeneração (incluindo o restauro da estátua de D. José I, ao centro) até apresentar a configuração atualmente vigente.

Cá em baixo, é possível constatar o texto inscrito no topo do arco — e que remete para a grandiosidade do antigo Império Português: VIRTVTIBVS MAIORVM VT SIT OMNIBVS DOCVMENTO.PPD («Às virtudes dos maiores, para que sirva a todos de ensinamento. Dedicado a expensas públicas»). O Terreiro do Paço é um excelente exemplo da luminosidade de Lisboa e brilha com todo o seu esplendor em dias de sol como aquele em que passeámos o Zeitwerk Striking Time.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Depois de irmos até à beira-rio, regressámos às arcadas dos edifícios ministeriais que ladeiam a praça e fizemos uma pausa no célebre Martinho da Arcada — para uma bica e um pastel de nata, tradicionais componentes da ‘dieta’ portuguesa. Localizado por baixo da arcada nordeste, as origens do café Martinho da Arcada remontam a 1782.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Ao longo de mais de dois séculos, várias gerações de governantes, políticos, militares, artistas e escritores, elegeram o Martinho da Arcada como ponto de encontro privilegiado — destacando-se Fernando Pessoa. Após a recuperação do espaço, em 1990, o escritor Luís Machado passou a promover tertúlias e eventos culturais regulares (Conversas à quinta-feira, As Noites do Martinho, «Rostos da Portugalidade»); o café promoveu homenagens a Eduardo Lourenço, José Saramago, Júlio Pomar, Manoel de Oliveira e Ruy de Carvalho, atribuindo-lhes mesas com os seus nomes, tal como Fernando Pessoa tem a sua mesa. Em 1999, o Martinho da Arcada foi mesmo eleito pelo «Guia dos Cafés da Europa» como o melhor café do ano.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

O início de tarde que escolhemos para o passeio estava particularmente luminoso — o sol batia forte e não foi fácil fotografar o Zeitwerk Striking Time em tais condições, devido aos reflexos. Seria menos difícil se tivéssemos connosco a versão em ouro branco com mostrador contrastante a preto e prateado, mas escolhemos a variante em ouro rosa dotado de um belo mostrador com nuances mais delicadas.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Qualquer dos três modelos Zeitwerk apresenta um carisma muito especial decorrente de um visual singular que sempre considerei (ao contrário de alguns colegas) muito ligado às raízes da marca: se o Lange 1 apresenta uma janela dupla para a data que foi inspirada no relógio da Ópera de Semper, o Zeitwerk leva essa mesma inspiração histórica e estética para a indicação digital do tempo graças à apresentação das horas e dos minutos saltantes em duas janelas — num mostrador que inclui também uma escala para a reserva de corda e um submostrador analógico para os segundos.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Estreada em 2009, a linha Zeitwerk foi pioneira no sentido em que o Zeitwerk original se tornou no primeiro relógio de pulso a apresentar horas e minutos com algarismos saltantes — e não através de discos deslizantes. O design único do Zeitwerk acentuou o seu espírito inovador, com a coroa às 2 horas e sobretudo a sua ‘ponte do tempo’ central representada por uma peça em prata alemã (que inclui a abertura para as horas e os minutos e ainda os pequenos segundos) que até faz parte do movimento.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Os três discos necessários (um para as horas, dois para os minutos) requerem um consumo de energia tremendo, apenas possível graças a um tambor de corda patenteado com uma mola especialmente comprida e um mecanismo patenteado de força constante. O princípio de funcionamento inclui o normal avanço do tempo em incrementos no seu ponteiro dos segundos (cinco avanços por segundo) mediante o sistema de escape tradicional mas proporciona também um salto a cada minuto que pode fazer funcionar um, dois ou mesmo três discos no espaço de um mesmo intervalo — requerendo um mecanismo adicional que forneça uma quantidade bem maior de energia a cada 60 segundos para fazer avançar o(s) disco(s). A solução encontrada para o problema direciona a energia não para o sistema de escape mas para o escape de força constante, que retém a oscilação do balanço durante os 60 segundos para depois soltar a energia que faz saltar o(s) disco(s); o escape de força constante mantém o mesmo nível de tensão ao longo do arco da reserva de corda para uma superior precisão.

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

O Zeitwerk Striking Time veio dar, em 2011, uma dimensão acústica ao Zeitwerk — mantendo a estética do original mas acrescentando ao mostrador dois martelos e dois timbres que permitem ao utilizador ver o funcionamento da complicação sonora. Os martelos são bem visíveis às 4 e às 8 horas — a cada quarto de hora, o martelo da direita entra em ação batendo na parte do seu lado do tubo visível ao longo de quase todo perímetro do mostrador para um som agudo, ao passo que a cada hora o batimento é efetuado pelo martelo da esquerda para um toque grave.

A inspiração para a canalização da energia do calibre L043.2 surgiu quando os relojoeiros da Lange restauravam um complicado relógio de bolso com repetição de minutos (Calibre nº 42500). A forma dos martelos do Zeitwerk Striking Time é reminiscente da história de Glashütte, região metalúrgica antes de se transformar num polo relojoeiro após as minas terem ‘secado’. Porque o martelo (juntamente com a picareta) faz parte do brasão da localidade, evocativo dessa vocação mineira!

Zeitwerk Striking Time

© Espiral do Tempo / Paulo Pires

Se o Zeitwerk ‘essencial’ já precisava de uma enorme produção de energia para fazer saltar os discos das horas e minutos, o Zeitwerk Striking Time necessita ainda mais para acionar os martelos que fazem soar o tempo. A afinação do timbre/gongo é feita à mão para um som límpido; para alcançar a melhor sonoridade, é necessário montar e desmontar o sistema acústico várias vezes até se alcançar o efeito desejado no tom, no nível e na harmonização dos dois toques. Tecnologias especiais de medição e um ouvido musicalmente treinado são essenciais para que os parâmetros acústicos individuais sejam otimizados até ao mais ínfimo pormenor.

Com tantas qualidades técnicas e estéticas, foi a custo que nos separámos do Zeitwerk Striking Time. Mas sempre teremos Lisboa… ET_simb

Galeria de Imagens

 

Consulte o site oficial da A. Lange & Söhne para mais informações sobre o Zeitwerk Striking Time.

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