Histórias

HISTÓRIAS | Relógios do Ano: a Leste para começar

Prémios Chronos24

Em Varsóvia — A entrada para o derradeiro trimestre arrasta invariavelmente consigo uma plêiade de concursos destinados a estabelecer os melhores relógios do ano. Há várias eleições e múltiplos galardões nos mais diversos quadrantes do planeta e a Espiral do Tempo está associada a algumas iniciativas. Recordamos a da passada semana na Polónia e projetamos as que estão para chegar.

O instinto humano está naturalmente vocacionado para estabelecer hierarquias desde tempos imemoriais — sim, mesmo desde os primórdios em que somente sobreviviam os melhores. A relojoaria não é muito diferente e cada um terá na sua cabeça uma espécie de ranking das melhores marcas ou dos relógios mais relevantes, embora entretanto entre na equação a tendência também muito humana da categorização para que tudo fique arrumadinho de maneira lógica. E terá mesmo lógica este meu introito? Espero que sim: deu-me para filosofar sobre a temática num voo entre Lisboa e Nova Iorque, onde fui acompanhar um lançamento relojoeiro ligado ao mais famoso pugilista de todos os tempos… e lá vem novamente à baila a hierarquização, mas a preceito porque este texto é mesmo sobre os melhores relógios de 2016.

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Os troféus da iniciativa Relógio do Ano promovida pela Chronos24.pl © Marcin Klaban

Na verdade, é extremamente difícil afirmar que um determinado relógio é o melhor porque ele insere-se sempre num contexto que faz com que uma tal afirmação seja relativa e subjetiva. Há que considerar o preço, o tipo de relógio, a complexidade inerente, a vocação por trás da sua conceção e até mesmo o género. Para baralhar a coisa, quase todas as eleições de relógio do ano se regem por parâmetros diferentes e contam com júris distintos. A Espiral do Tempo está associada a algumas e estive recentemente numa promovida pelo Chronos24, o site de referência na Polónia que é conduzido pelos meus colegas Tomasz Kyeltika e Lukasz Doskocz.

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Grönefeld 1941 Remontoire, vencedor na categoria ‘Relógio Clássico’ e do ‘Grand Prix’ final © Marcin Klaban

A organização tem o excelente hábito de convidar os membros internacionais do júri (para além de mim, a germano-americana Elizabeth Doerr, o dinamarquês Kristian Haagen, o holandês Frank Geelen e o checo Jan Lidmanski) para a gala da entrega de prémios e é  com gosto que participo anualmente na cerimónia. A votação tem várias fases ao longo do ano e começa no final da primavera (após o SIHH e Baselworld) com um exercício livre em que cada elemento do júri apresenta uma lista (maior ou menor, consoante a vontade de cada um) de sugestões para cada categoria pré-estabelecida; cruzando-se as sugestões dos nove membros (sendo os outros quatro polacos), chega-se a um top 10 em cada categoria sujeito a votação e depois a um top cinco novamente votado para se determinar o protagonista da respetiva categoria. Encontrados os cinco vencedores, faz-se uma votação final entre os cinco para se escolher qual o melhor dos melhores.

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Os membros do júri presentes na cerimónia © Marcin Klaban

E foi novamente no Amber Room que se procedeu a uma cerimónia que teve os seguintes vencedores: o Grönefeld 1941 Remontoire na categoria ‘Relógio Clássico’, o Lange & Söhne Datograph Perpetual Calendar na de ‘Relógio Complicado’, o Bvlgari Octo Finissimo Minute Repeater na de ‘Relógio Inovador’, o Vacheron Constantin Overseas Chronograph na de ‘Relógio Desportivo’, o Urwerk UR-106 Lotus na de ‘Relógio de Senhora’ e o Seiko Prospex Special Edition PADI Automatic Diver na de ‘Relógio Acessível’ (até 3.000 euros).

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Os representantes dos vencedores das diversas categorias que estiveram presentes © Marcin Klaban

Paralelamente, o júri também discute entre si a atribuição de um galardão que visa homenagear uma personalidade ligada à relojoaria — e este ano a escolha recaiu sobre Jean-Claude Biver, figura incontornavelmente ligada ao renascimento da relojoaria mecânica na década de 80 e que, após passagem marcante por várias marcas e grupos, é o atual líder do polo relojoeiro da LVMH e o CEO da TAG Heuer; o novo ímpeto que deu à marca através do investimento nos smartwatches e o facto de apresentar índices de crescimento perante a recessão generalizada também contribuíram para a sua escolha.

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Jean-Claude Biver, vencedor do ‘Prémio Especial do Júri’ © Marcin Klaban

Também paralelamente, uma votação digital no site Chronos24.pl determina um vencedor através da escolha do público — que optou pelo Longines Heritage Rail Road. Mas não há dúvida de que o campeão da noite foi o 1941 Remontoire da Grönefeld e os irmãos Grönefeld os grandes protagonistas; o relógio foi consagrado ‘Relógio Clássico do Ano’ e depois ‘Melhor dos Melhores’ entre os vencedores nos vários escalões.

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Grönefeld 1941 Remontoire, verso © Marcin Klaban

Fui chamado a entregar aos auto-denominados Horological Bros o prémio de ‘Relógio Clássico’ e resolvi discursar um pouco, primeiro em tom mais ligeiro dizendo que há dois pontos em comum entre a Polónia e Portugal — «as duas primeiras letras dos respetivos nomes e o ex-jogador polaco Euzebiusz Smolarek, cujo primeiro nome se deve à admiração do pai pelo lendário futebolista português Eusébio»; tive de esclarecer imediatamente que não falaria mais de futebol (porque os polacos ainda não diferiram a eliminação que lhes infligimos nos penáltis do Euro) e depois passei ao tom sério necessário para elogiar Tim e Bart Grönefeld, que com uma equipa de somente 11 pessoas catapultaram a marca de família para o topo da alta-relojoaria e que ‘sozinhos’ têm colecionado galardões face à concorrência de marcas históricas e ao peso dos conglomerados relojoeiros. E depois veio a… selfie.

Não sou nada adepto de selfies; comigo é mais wristies (wristshots de relógios). Mas, perante aquela plateia e com tão divertidos irmãos, achei no momento que deveria dar um piscar de olhos à era das redes sociais em que vivemos — e tirei algumas ‘auto-fotografias’ com Tim, Bart, o respetivo troféu e a assistência ao fundo, publicando logo de seguida uma delas no Facebook. Surpreendentemente, quando recebi uma seleção de imagens do evento constatei que o fotógrafo de serviço tinha tido a rapidez de, após o meu anúncio de que iria tirar uma selfie, passar para o outro lado do palco e retratar a selfie!

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A selfie com os vencedores… os Horological Bros, Tim e Bart Grönefeld © Marcin Klaban

A descrição desse momento divertido tem mais a ver com os irmãos do que propriamente com a selfie. Porque, se a ideia surgiu no momento, nunca me teria lembrado de fazer semelhante coisa se o galardão fosse destinado a outra(s) pessoa(s). Conheço Bart e Tim há vários anos e eles são o perfeito exemplo do lema ‘work hard, party hard’. Trabalham no duro, mas também estão sempre prontos para a pândega. E ficou para a lenda a ‘ausência’ deles na fotografia mais importante das suas carreiras: há dois anos, ganharam o prémio de ‘Turbilhão do Ano’ com o seu Tourbillon Parallax no Grand Prix d’Horlogerie de Genève, considerados os Óscares da relojoaria, e ninguém sabia deles para a fotografia de conjunto dos vencedores; eu sabia que eles deveriam estar tão radiantes que saíram para comemorar com umas cervejas e fumar um cigarrito. Ainda fui à procura deles, mas com mais de mil pessoas a sair do Grand Thèâtre de Genève foi impossível e não tinha os seus números de telefone. Moral da história: tiveram de ser photoshopados na foto de grupo e Tim até surge sem pernas…

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Tim e Bart Grönefeld com a nossa revista © Espiral do Tempo / Miguel Seabra

Bart e Tim (aqui a verem o artigo da Espiral do Tempo sobre relojoaria independente que os menciona) já estão nos quarentas e desde muito cedo seguiram a tradição relojoeira familiar vinda do pai e do avô; depois de se terem formarem na prestigiada escola Wostep em La Chaux-de-Fonds e de se destacarem nesse ninho de vanguardismo que é a Renaud & Papi, optaram por criar a sua própria marca. O One Hertz, com baixa frequência de batimento, seduziu logo a crítica; o Tourbillon Parallax ganhou o Grand Prix d’Horlogerie de Genève; o 1941 Remontoire já soma prémios e pode perfeitamente ganhar a categoria de Relógio de Homem no Grand Prix d’Horlogerie de Genève no próximo dia 10 de novembro.

Grönefeld 1941 Remontoire © Espiral do Tempo / Miguel Seabra

Grönefeld 1941 Remontoire © Espiral do Tempo / Miguel Seabra

Concebido numa caixa em ouro (com várias declinações de tonalidade e mostrador, embora a mais emblemática da marca seja a combinação ouro branco e mostrador salmão granulado), o 1941 Remontoire é uma homenagem tanto ao pai Sjef (nascido em 1941) como ao avô, que fazia a manutenção do relógio da Igreja da localidade de onde são oriundos e que era dotado de um sistema de força constante. O 1941 Remontoire está dotado de um mecanismo de força constante que assegura a transmissão sempre igual de energia ao sistema de escape, garantindo assim maior precisão ao longo do arco da autonomia de corda; e através de um orifício no mostrador é possível ver-se o remontoir armazenar a energia durante cada oito segundos e depois soltar-se num espetáculo fascinante aos olhos do utilizador.

Quanto aos restantes galardoados, a Lange & Söhne — que tinha sido fortíssima candidata na categoria de ‘Relógio Clássico’ com o seu Richard Lange Regulateur — impôs-se na vertente de ‘Relógio Complicado’ com a suprema ‘complexização’ do seu lendário cronógrafo Datograph: depois de lhe juntar um calendário perpétuo, acrescentou-lhe também um turbilhão discretamente colocado no fundo… sem que a estética do mostrador e do calibre tivesse sido comprometida, num notável esforço técnico e estético da parte da equipa liderada por Ton de Haas e Tino Bobe.

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A. Lange & Söhne Datograph Perpetual Calendar, vencedor na categoria ‘Relógio Complicado’. © A. Lange & Söhne

No departamento da inovação, o Bvlgari Octo Finissimo Minute Repeater passou a ser o mais fino relógio dotado de repetição de minutos a partir da sua apresentação em Baselworld e a sua acústica é impressionante.

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Bvlgari Octo Finissimo Minute Repeater, vencedor na categoria ‘Relógio Inovador’. © Bvlgari

Na categoria desportiva, a grande renovação do Overseas colocou-o automaticamente na lista de favoritos — por se tratar de um relógio emblemático de uma reputada manufatura. A renovação estrutural foi evidente, com a caixa a assumir na sua base um pendor mais ergonómico (embora pessoalmente não tivesse gostado de tanto ‘arredondamento’) e um sistema rápido de troca de braceletes (bastando um instante para passar do aço para o cauchu e para a pele de crocodilo).

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Vacheron Constantin Overseas Chronograph, vencedor na categoria ‘Relógio Desportivo’. © Marcin Klaban

No que diz respeito à categoria feminina, impôs-se um relógio disruptivo — como todas as criações da dupla formada por Felix Baumgartner e Martin Frei para a sua marca de alta-relojoaria vanguardista de nicho Urwerk. O Urwerk UR-106 Lotus ganhou o galardão de ‘Relógio de Senhora’ num ano em que vários relógios da marca destinados aos pulsos masculinos também deram muito que falar.

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Urwerk UR-106 Lotus, vencedor na categoria ‘Relógio de Senhora’. © Urwerk

Na categoria de relógio de preço acessível (mesmo assim, até à fasquia de 3.000 francos suíços) ganhou o Seiko Prospex Special Edition PADI Automatic Diver SRPA21, uma edição limitada de um conhecido modelo da competente manufatura nipónica — que será a única não-europeia a poder rivalizar com a competência dos helvéticos (e alguns alemães) no setor da relojoaria mecânica.

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Seiko Prospex Special Edition PADI Automatic Diver, vencedor na categoria ‘Relógio Acessível’. © Seiko

Entre os relógios finalistas (cinco em cada categoria) houve também uma votação a partir do website para escolher o ‘Favorito do Público’ — e os cibernautas optaram por uma reedição da Longines que já tinha recolhido muitas simpatias entre os aficionados e a crítica em Baselworld: o Heritage Rail Road.

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Longines Heritage Rail Road, vencedor na categoria ‘Favorito do Público’. © Longines

E o que virá a seguir? Daremos conhecimento em breve das eleições de Relógio do Ano mais relevantes, incluindo as recentes apresentadas no SIAR (Salão Internacional de Alta-Relojoaria do México) e na cerimónia do Eve’s Watch (iniciativa exclusivamente feminina), e sobretudo daquela que mais pedigree tem — o Grand Prix d’Horlogerie, iniciativa pomposa e encarada como os Óscares da relojoaria que está agendada para o próximo dia 10 de Novembro em Genebra… ET_simb

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