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NOVIDADES | Monsieur de Chanel: Validação masculina

Monsieur de Chanel

EdT56 — Sentido de estilo, técnica apurada: com o Monsieur, a Chanel alcandorou-se num novo patamar — não só porque foi um dos mais elogiados relógios desvelados este ano em Baselworld, mas também porque personifica uma nova estratégia da maison parisiense no mercado relojoeiro.

Originalmente publicada na edição outono de 2016 da Espiral do Tempo, número 56.

A lendária Gabrielle ‘Coco’ Chanel nunca receou estar à frente do seu tempo. Construiu um império no mundo da moda que se mantém extremamente influente — e que, a partir do reflorescer da relojoaria mecânica na passagem do milénio, também passou a deixar a sua marca de maneira significativa no universo relojoeiro. O investimento mais sério no setor já tinha começado em 1987, com o Première, um modelo minimalista feminino que tem ganhado sólidas ramificações. Mas foi sobretudo com o emblemático J12 em cerâmica branca que a Chanel logrou fazer a diferença a partir de 2003.

Chanel

J12, em cerâmica. © Chanel

Desde então, basta acompanhar atentamente as criações que a Chanel apresenta anualmente em Baselworld para constatar a extrema qualidade de cada um dos seus produtos, da alta-joalharia à alta-relojoaria, passando pelos exemplares de métiers d’art (as peças Mademoiselle Privé são autênticas obras-primas) e até pelos modelos regulares da coleção. Mas o Monsieur de Chanel surgiu de modo inesperado e impressionou de maneira global — não propriamente porque apresentou algo completamente novo, mas pela sua qualidade intrínseca e palpável, pela arquitetura estabelecida, pelas soluções de acabamentos, pela técnica apurada, pela masculinidade.

A Chanel apresentou o Monsieur de Chanel como o seu primeiro relógio exclusivamente para homem, embora, no seu catálogo, seja fácil encontrar relógios que são claramente adaptados a pulsos masculinos. Como o J12 Marine Diver ou o J12 Chromatic, embora possam ser considerados  variantes do J12 — o tal que revolucionou o mercado e que se impôs como um relógio verdadeiramente unissexo, quer na versão preta quer na branca. No âmbito da alta-relojoaria, convém também não olvidar (e houve muitos analistas a esquecerem-se) essa obra-prima complexa e onerosa que foi o J12 Rétrograde Mystérieuse Tourbillon, uma edição ultralimitada de 2010 que foi idealizada pelo mestre Giulio Papi para pulsos masculinos.

J12 Rétrograde Mystérieuse Tourbillon

J12 Rétrograde Mystérieuse Tourbillon © Chanel

O Monsieur de Chanel não é tão limitado, mas é suficientemente exclusivo, com uma tiragem de apenas 300 peças (150 em ouro branco e 150 no chamado ouro bege, caraterístico da marca) e um preço à volta dos 35 mil euros. É verdade que não teve por base qualquer modelo unissexo e até pode ser usado num bom pulso feminino, devido aos seus 40 mm de diâmetro por 10 mm de espessura, mas é claramente um relógio masculino — sobretudo um relógio urbano, sofisticado, de look decididamente parisiense. Sabe-se que a Chanel é dona da G&F Châtelain (empresa produtora de braceletes e caixas para marcas de alta-relojoaria, especialista em cerâmica) e estende os seus tentáculos até duas companhias exclusivamente relojoeiras de excelente  reputação — com uma participação no capital da Bell & Ross, também sediada em Paris, e da Romain Gauthier, estabelecida nesse histórico berço da alta-relojoaria suíça que é a Vallée de Joux. Mas o Monsieur é um relógio muito Chanel, completamente concebido ‘em casa’ na manufatura que a marca estabeleceu em La Chaux-de-Fonds; desde todos os pormenores de design (que incluem uma fonte tipográfica específica), até aos planos do calibre, o espírito ‘Chaneliano’ é evidente.

Chanel, sem dúvida

Monsieur de Chanel

Monsieur de Chanel © Chanel

O mostrador, inequivocamente o rosto do tempo, é de um prateado opalino e apresenta três tipos de leitura distintos — um submostrador de pequenos segundos a partir do eixo central, ponteiro retrógrado dos minutos com sistema de segurança num arco superior ao normal e a opção por horas digitais saltantes (para reforçar a importância dos algarismos para a marca, como o 5 do célebre perfume criado em 1921), numa janela em formato octogonal (um piscar de olho à tampa do perfume Nº 5 e à própria Place Vendôme) na parte inferior. A particularidade retrógrada é diferente da de outros modelos do género, no sentido em que o ponteiro salta para trás mais do que 180 graus (no caso, um arco de 240 graus destinado a não afetar os segundos) e também pode ser ajustado para trás, dois aspetos que mostram bem o cuidado colocado no desenvolvimento técnico de um calibre que demorou cinco anos a operacionalizar.

Quando viramos o relógio, podemos apreciar convenientemente esse Calibre 1 de corda manual com uma frequência de 28.800 alternâncias/hora e formado por 170 componentes: é uma autêntica maravilha do modernismo, assente em motivos circulares e elaborado nos inevitáveis tons negros e antracite (a partir do mesmo tratamento ADLC, mas diferenciados  pelos padrões de acabamento) que bem caraterizam a célebre griffe parisiense. A ponte circular central é uma solução completamente original e o balanço (ajustável) assume uma forma estrelada. Dois tambores gémeos de corda asseguram autonomia de funcionamento até três dias e a cabeça de leão identificativa da marca surge como selo de garantia que será sempre utilizado em futuras criações. Como o leão fetiche, vários detalhes foram inspirados em objetos marcantes do apartamento de Coco Chanel em Paris.

Monsieur de Chanel

Monsieur de Chanel © Chanel

Sabendo-se que, a partir de 2011, a Chanel investiu parcialmente no atelier de Romain Gauthier — um protegido de Philippe Dufour que até já foi galardoado com o Grand Prix d’Horlogerie de Genève pelo seu Logical One —, poder-se-ia pensar que o Calibre 1 tinha sido concebido na Vallée de Joux, mas não; apenas algumas partes do movimento (rodagens) são feitas lá seguindo especificações da Chanel. O departamento criativo desenhou especificamente as rodas com dentes especiais, os parafusos e até os rubis em colaboração com a equipa de oito especialistas em construção e montagem de movimentos contratada pela Chanel.

Duas faces da moeda

«É como um relógio com duas faces», disse-nos Nicolas Beau, diretor do departamento relojoeiro da marca e na Chanel desde 1987. «De um lado, temos um design simples, limpo, em tons claros; do outro, temos um belo motor escurecido, o calibre com que sonhávamos». Duas faces distintas da mesma moeda que asseguram uma notável coerência ao produto final. «Mas o relógio nasceu a partir do movimento. Em 2011, resolvemos preparar-nos tecnicamente para poder controlar o nosso futuro na relojoaria, e houve uma conjugação de fatores favorável. Conheci Romain Gauthier e adquirimos uma parte minoritária na sua empresa, sem lhe propor quaisquer restrições. Estabelecemos uma base sólida de alta-relojoaria e lançámo-nos numa aventura de cinco anos. E conseguimos combinar tradição e moda — é essa a magia da Chanel».
Sendo o Calibre 1 um movimento totalmente integrado, em princípio não poderá servir de base para outras variantes adicionais, mas a base estilística para uma coleção masculina alargada está definitivamente estabelecida e será implementada pela divisão Chanel Haute Horlogerie. «Não fazemos estudos de mercado, não fazemos marketing; os produtos vão surgir com naturalidade e dependem da criatividade dos nossos especialistas», assegura Nicolas Beau. Vai ser interessante ver os senhores que se seguem ao Monsieur…

Manufatura Chanel

Manufatura Chanel — G&F Châtelain, La Chaux-de-Fonds, Suiça. © Chanel

Ao longo das duas últimas décadas, a melhor maneira de uma marca validar o seu estatuto relojoeiro foi atingindo o cobiçado estatuto de manufatura ou, pelo menos, com a apresentação de um movimento próprio (havendo algumas marcas que até compram ‘fora’ esses calibres que depois dizem ser de manufatura). E depois também há aquela perceção errada de que uma marca de moda não tem a mesma validação de outras que são puramente relojoeiras. A Chanel já está muito para além disso, e o Monsieur de Chanel prova toda a sua competência, apesar de ser um relógio que merece ser julgado exclusivamente pelos seus méritos próprios — que são muitos. ET_simb

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