Histórias

HISTÓRIAS – John Mayer: rockin’ on vintage time

EdT53_JohnMayer

EdT53 — John Mayer é um colecionador. Escreve no blogue Hodinkee e já fez parte do júri do Grand Prix d’Horlogerie de Genève. A sua coleção está avaliada, pelo próprio, em dezenas de milhões de dólares. Ah! E é também um dos mais famosos músicos de pop-rock da sua geração. Já não se fazem colecionadores como antigamente. Ainda bem.

Por Vasco Alencastre

Texto originalmente publicado no número 53 da Espiral do Tempo.

O primeiro foi um Armitron e tinha as imagens de C-3PO e R2-D2 gravadas. À noite, o jovem John dormia com a cabeça enfiada numa caixa de cartão onde guardava as coisas de que mais gostava. O relógio eletrónico com as personagens de Star Wars era uma delas, talvez a mais preciosa. «Quando somos pequenos», contou recentemente John Mayer ao New York Times, «não temos muitas coisas, então é normal criarmos mundos imaginários a partir de objetos mínimos. Lembro-me de olhar para aquele relógio e pensar que era um amigo.»

«Um colecionador é parte obsessão, parte curiosidade — o que veio antes de mim, do meu tempo — e parte vontade de ter o que os outros não têm. Na sua versão mais nobre, o colecionador é um connoisseur, alguém que coleciona por amor à coisa bela». Um colecionador é, pois, nas palavras de Gully Wells, um quase-historiador, alguém que coleciona para se ligar às civilizações passadas e para se colocar no contínuo da História. E para assumir a posse temporária de objetos que já pertenceram a outros e, depois da nossa morte, serão de outros ainda. Colecionar assim é um ato de humildade: significa educar-nos sobre uma tradição, conclui Wells.

John Mayer pode assumir, em parte, esta linhagem. Como confessa o músico, «no mundo da relojoaria, sou apenas o John. Vou às feiras e apresentações com a minha lupa e o meu badge e sou apenas mais um tipo que gosta de relógios. Adoro relacionar-me com outras pessoas como colecionador.» E, como confessou ao NYT, «o que é fantástico em colecionar relojoaria é que não é preciso ter os relógios para fazer parte da conversa. De facto, a maior parte das pessoas que comentam a face da última versão do Patek Philippe Perpetual Calendar Chronograph 5270 não tem um. Mas isso é como dizer que a maior parte das pessoas que falam sobre os Chicago Bulls não faz parte da equipa dos Chicago Bulls.»

No outro lado desta face, temos o jovem John Mayer, tímido, agarrado à sua guitarra no seu quarto em Fairfield, Connecticut. Filho de professores, as paredes do quarto eram eloquentes nas suas preferências, descartando imagens dos Nirvana e fazendo papel de parede com posters de Stevie Ray Vaughan, B. B. King e Jimi Hendrix. As leituras incluiriam Damn Right, a biografia de Buddy Guy. O colecionador é um quase-historiador.

Na outra face — a da música e da consequente fama —, John Mayer não pode assumir a humildade necessária. Aos 37 anos, refere-se a si próprio como um ego-addict em recuperação. Com sete prémios Grammy na prateleira e álbuns como Continuum aclamados tanto pela crítica como pelas vendas, Mayer é um guitarrista blues-rock de créditos mais que firmados. Em 2015, está em tournée com os membros sobreviventes da lendária banda californiana Grateful Dead, num combo intitulado Dead & Company. A honraria não podia ser maior e John assume-a com incaraterística modéstia: «Espero estar à altura. Esta música é demasiado importante para eu dar barraca.»

O sucesso veio cedo. O primeiro álbum, Room for Squares, em 2001, rendeu-lhe um Grammy e a admiração de pessoas como Eric Clapton. O jovem John sucumbiu às exigências da fama e ao ‘high’ de ver o seu nome nas tituleiras dos jornais de escândalos. Mestre nos 140 carateres requeridos pelo Twitter, os seus milhões de seguidores adoram-no pelas descomplexadas e genuínas observações, muitas das quais são irrepetíveis numa revista como esta. Para esta notoriedade, contribuiu a série de romances com atrizes e cantoras como Jennifer Aniston, Taylor Swift, Katy Perry, Jessica Simpson… E fico-me por aqui por ser um pouco entediante estar a desfilar meio Hollywood por estas colunas. Basta dizer que o nosso John é considerado o grande playboy do rock ‘n’ roll, uma espécie de Sinatra do novo século, o que não é dizer pouco.

Mas o espaço da Espiral é curto, e precioso, e aqui devemos falar de relojoaria, uma paixão que toma foros de culto para aqueles para quem o tempo releva de forma maior. E aí a importância de ‘John Mayer, colecionador’ importa de outras maneiras. Com a credibilidade rock por detrás do interesse genuíno do músico pela alta-relojoaria, a sua história e os seus recônditos objetos de culto tornam-se interessantes a novos públicos. Não estamos a falar da relojoaria como ostentação mais ou menos ignorante, aceitável como é, mas não frequentável, porque aborrecida. Falamos de alguém que celebra discretamente a sua ‘entrada’ no mundo dos colecionadores ‘sérios’ com a aquisição do ‘Double Red’ Rolex Sea-Dweller dos anos 70, assim chamado pelas duas linhas, Sea Dweller e Submariner 2000, inscritas a vermelho na face do relógio. Hoje, para além deste, gosta especialmente — e sentimentalmente — do simples Explorer II, com o qual começou a sua coleção, e do Paul Newman Rolex, o raro Daytona Chronograph 6263.  Diz John: «É como um Cadillac. A Rolex transcende os relógios. É um nome. É o ‘Rolex’ de alguma coisa, o ‘Cadillac’ de alguma coisa. A paixão pelos Rolex levou-o a escrever uma coluna para o site Hodinkee sobre os cinco melhores Rolex vintage abaixo dos 6.000 euros.» A verdadeira paixão é também manifestada pela vontade de a partilhar de forma educada.

Mas não é só de Rolex que esta imersão no mundo da alta-relojoaria de John Mayer é feita. Ele próprio assume que a marca fundada por Alfred Davis e Hans Wilsdorf foi apenas a donzela que lhe abriu os olhos para os prazeres dos mecanismos complexos da alta-relojoaria. A Patek Philippe reconhece-o como uma figura importante no colecionismo aquiescendo a criar peças únicas para o músico, como uma versão em ouro branco do 5004G com ponteiros luminosos. O músico disse-lhes que precisava de ver as horas em palco.

Outra das ‘provas’ da paixão de Mayer veio quando publicou, em janeiro de 2015, uma ‘carta aberta’ dirigida à IWC na sua coluna regular no Hodinkee, o site de Benjamin Clymer. A afeição pela marca veio desde que descobriu, no início da sua carreira, o IWC Big Pilot’s Watch, um relógio que precede a moda dos ‘grandes’ relógios tão em moda hoje. A ligação à peça foi tão grande que o petit nom do músico na tournée de Squares ficou ‘Big Pilot’. A carta, uma missiva intensa na paixão pelos primeiros modelos da IWC, ficou famosa e revela o pormenor a que John vai para celebrar a marca relojoeira que mais lhe toca. Detentor de vários IWC, John admira o minimalismo, a funcionalidade e a profunda reverência pelo passado que a marca demonstrava. A resposta da IWC, argumentando que um mercado em transformação requer uma abordagem diferente das marcas de alta-relojoaria para assegurarem a sua própria sobrevivência, quase convence, mas é a paixão de John que sobra dando voz a todos os cultivadores de valores relojoeiros muitas vezes atropelados pela corrida a mercados de gostos duvidosos.

Daí talvez a curiosa observação que John Mayer fez quando o New York Times lhe perguntou sobre o iWatch: «Penso que é um objeto cool, mas deve haver outro sítio onde o possamos usar. Não vou dar o precioso espaço que é o meu pulso para usar um relógio da Apple.»

O colecionador de relógios já nasce assim, diz John. «A comunidade da alta-relojoaria é um pouco esotérica. Não queremos que toda a gente esteja lá metida». Para os que veem aqui algum elitismo, pois que o seja, e seja só daqueles que dedicam verdadeira paixão a objetos que parecem não fazer muito sentido e que paradoxalmente despertam complexas emoções a poucos mas dedicados amantes. Como John Mayer. ET_simb