Opinião

Crónica Literatura: «Oscar Wilde, artista ideal (para o bem e para o mal)»

Destaque_livros

EdT57 — Uma medida da importância de um escritor são as anedotas, os ditos, as aventuras que dele ficam na memória popular. Oscar Wilde é um caso tão especial que esses episódios — como sucede com o português Bocage, menos conhecido internacionalmente — dão para fazer livros inteiros.

Crónica originalmente publicada no número 57 da Espiral do Tempo (inverno 2016)

Mesmo sem ir à estante procurar a recolha dos seus ditos espirituosos, publicação que enfiei sei lá onde, num buraco longe dos seus contos, de teatro e de poesia, memorizei dois ou três episódios de Wilde. Uma vez, o escritor entrou num salão onde estava um maçador, com ideias de humorista, que não o largava. Quando Oscar Wilde saiu, farto de ser importunado, o chato pegou no chapéu e correu atrás dele:
— Para onde vai, senhor Wilde?
— Para o outro lado.

Outra vez, o escritor irlandês, nascido em Dublin em 1854, e que mais tarde conquistaria Londres com o seu espírito inconfundível, descreveu a diferença entre um homem bígamo e um monogâmico:
— Um bígamo é um homem que casou com uma mulher a mais. O monogâmico também.

Já se anteviam, nesta interpretação, os graves problemas que iriam perseguir Wilde no fim da sua vida, quando, homem casado e com filhos, foi condenado em tribunal por devassidão e homossexualidade, preso em penitenciária, vendo as suas peças tiradas de cena e acabando por falecer em 1900 no exílio, em Paris. Quando, no fundo, a sociedade vitoriana, e a sua moralidade supostamente virtuosa, encontrou prazer e vingança na queda brutal de um dos artistas que melhor souberam, através da suposta ligeireza e humor do seu trabalho, expor a hipocrisia dos costumes privados da Grã-Bretanha e da Irlanda (então ainda dentro do Império). O autor que, poucos meses antes, estreara Um Marido Ideal, sobre alguém que, pouco antes do casamento, é alvo de chantagens vindas do passado.

Nunca se perceberá bem até que ponto Wilde tinha noção da sua extraordinária ambivalência (que é, penso eu, uma forma de profundidade). Para ele, isso parecia ser um assunto menor. Como escreveu no prefácio do seu único romance, o decandentista, gótico e então escandaloso O Retrato de Dorian Gray, a história de um homem que consegue passar para o seu retrato pintado todas as marcas do mal, devassidão e crueldade que pratica, mantendo-se belo e jovem: «Não há cá essa coisa de um livro moral ou imoral. Os livros são bem escritos ou mal escritos. E é tudo.» Wilde podia, com segurança, escrever que não há qualquer utilidade na Arte, que esta só serve para atingir o Belo, porque a sua escrita era, e é, tão perfeita, sagaz, cómica e poética que conseguiria passar com esta qualquer ideia que lhe viesse à cabeça. Por exemplo, a sua peça mais conhecida, The Importance of Being Ernest, (A Importância de Se Chamar Ernesto é uma tradução possível) é interpretada, umas vezes, como um exercício cómico e vazio de intervenção social, outras como um libelo sobre a dissimulação em sociedade e as vidas duplas.

Foi porventura a segurança linguística que o levou a desafiar poderes que menosprezou, como o do pai do seu amante Alfred Douglas, o marquês de Queensbury, que o acusou de práticas homossexuais. Alfred teria, a propósito, um papel ‘literário’ importante, como tradutor para inglês da peça Salomé, originalmente escrita em francês e, depois — quando abandonou Wilde à sua sorte — como objeto e destinatário de De Profundis, um longo e belo lamento do escritor sobre a sua situação. Ao desafiar em tribunal o Marquês, Wilde não mediu o contra-ataque, quando o tribunal, de surpresa, chamou a depor jovens prostitutos. O destino de Wilde seria traçado no mais puro estilo wildiano, pois o escritor não prescindiu de uma resposta espirituosa que definitivamente o levou à prisão.
— O senhor beijou este rapaz?
— Claro que não… ele é tão feio!
A partir daí, estava tristemente invertida uma das suas boutades mais famosas: «Só há uma coisa pior do que falarem mal de nós. É não falarem de nós.»

E aqui estamos nós, como é costume, a falar mais de pormenores da vida de Wilde do que da sua obra (na verdade, cumprindo o próprio desejo de juventude do escritor, quando prometeu que a sua vida seria a sua verdadeira obra, e o resto uns ‘escritos’)… Mas os grandes escritores também se fazem na leitura e nas circunstâncias da vida de cada leitor, e tenho de agradecer a Oscar Wilde o prazer e a frescura que me deram O Aniversário da Infanta ou O Fantasma dos Canterville. E, principalmente, O Príncipe Feliz. Durante anos, todos os dias contei o conto (resumido e com lapsos de argumento) à minha filha. Tenho-o numa bela edição ilustrada da obra completa. Era a única forma de a menina adormecer: ouvir a história da andorinha que, a pedido de uma estátua rica da cidade (de um príncipe), lhe vai tirando o rubi da espada, as safiras do olhos, as folhas de ouro que a cobrem, para ajudar os pobres da cidade. Um destes é um dramaturgo que não consegue acabar a sua peça a tempo e, enfim, quem já passou por coisa parecida, mais se comoverá…
No fim, a andorinha morre de frio e a estátua já cega, feia, sem préstimo, é derretida, mas não lhe conseguem derreter o coração de chumbo. Ainda me arrepia o final, eu que não sou religioso: «‘Traz-me as duas coisas mais preciosas da cidade’, disse Deus a um dos seus Anjos; e o anjo trouxe-Lhe o coração de chumbo e o pássaro morto.»
Um dia, eu e a minha filha fomos ao cemitério do Père-Lachaise, em Paris, e, diante do túmulo de Oscar Wilde, agradecemos sinceramente, do coração, a serenidade que este homem contraditório deu aos sonhos de uma criança.

A última frase de Wilde foi dita num esquálido hotel de Paris, em cama pequena e pobre: «Este papel de parede… ou morre ele, ou morro eu.» ET_simb

Save

Save

Save

Save

Save