Histórias, Histórias

Carrera Heuer 01: emblema modular

Carrera Heuer 01

EdT57 — Todos os grandes líderes fazem questão de deixar obra que seja emblemática do seu mandato. No caso de Jean-Claude Biver, à frente da TAG Heuer, esse marco pode muito bem ser o Carrera Heuer 01 — um cronógrafo cujo conceito não podia estar mais à medida do seu progenitor e de uma companhia relojoeira que tem vanguardismo no seu ADN.

Texto originalmente publicado no número 57 da Espiral do Tempo (inverno 2016)

Carrera Heuer 01

Calibre Heuer 01 Automatic Chronograph Ref. CAR 2A8A. FT6072 (bracelete em pele) e Ref. CAR 2A1Z.FT6050 (bracelete vermelha). © Espiral do Tempo / Paulo Pires

A edição de 2015 de Baselworld foi a primeira que teve Jean-Claude Biver à frente da TAG Heuer — e o célebre guru da relojoaria suíça fez questão de provocar um abanão no catálogo da marca ao anunciar dois produtos que são, para já, o cartão de visita da sua liderança: o Carrera Connected e o Carrera Heuer 01. Pelas suas caraterísticas muito específicas, o Carrera Connected tem obrigatoriamente de ser considerado um caso à parte; já o Carrera 01, com todas as suas posteriores ramificações, constitui o perfeito exemplo do modo de pensar relojoaria por parte de Jean-Claude Biver.

TAG Heuer Baselworld 2016

Calibre Heuer 01 Automatic Chronograph Ref. CAR2A1W.BA0703 © TAG Heuer

Esse peculiar modo de pensar começou por ser evidente na Hublot, marca fundada no início da década de 80 que ele recuperou em 2004 e transformou num dos grandes sucessos da relojoaria contemporânea — vendeu-a entretanto à LVMH (Louis Vuitton Moët Hennessy), mas continuou à frente dos seus destinos e assumiu mesmo a liderança do polo relojoeiro do grupo do qual a TAG Heuer e a Zenith também fazem parte. Beneficiando do boom relojoeiro da primeira década do milénio e, sobretudo, do ímpeto modernista na segunda metade dessa década transata, a Hublot floresceu muito graças à eclosão do Big Bang e do seu conceito modular e sobredimensionado. E quando Jean-Claude Biver achou que deveria substituir Stéphane Linder na liderança da TAG Heuer, fez questão de também dotar a marca do ADN que está bem patente no seu nome (TAG quer dizer precisamente Techniques d’Avant Garde) e que parecia estar apenas confinado ao atelier de alta-relojoaria que vinha concebendo notáveis produtos no âmbito das altas frequências e do magnetismo… mas com preços demasiados elevados para o seu público-alvo.

Carrera Heuer 01

Calibre Heuer 01 Automatic Chronograph Ref. CAR2A5A.FT6044 © TAG Heuer

O conceito Heuer 01 foi a resposta adequada de Jean-Claude Biver a um momento crítico na história da marca e do mercado relojoeiro. Aquando da sua apresentação em março de 2015, brinquei um pouco com ele ao dizer que se tratava de um ‘Hubleuer’ — mas foi um exagero propositado, porque se trata de um produto que evidentemente não tem a ver com a Hublot, embora seja alicerçado na ideologia modular tão cara a essa outra marca do grupo LVMH. Para começar, o Big Bang assenta num design completamente integrado e sem asas; o Carrera Heuer 01 apresenta asas tradicionais e a integração é feita a partir desse elemento de design praticamente omnipresente desde o advento dos relógios de pulso até ao advento do relógio moderno (na década de 70). E depois há todo um conjunto de interpretações contemporâneas da rica herança da TAG Heuer que contribuem decisivamente para a personalidade do produto.

Carrera Heuer 01

Calibre Heuer 01 Grey Phantom Titanium Ref. CAR2A1W.BA0703 © TAG Heuer

O Carrera Heuer 01 não só apresenta uma designação mágica na história da TAG Heuer (o Carrera foi lançado em 1963 e, hoje em dia, é o pilar do catálogo), como também coloca em evidência o calibre cronográfico próprio — tanto no nome como no mostrador semirrecortado. Trata-se de um relógio pujante, carregado de testosterona e, por isso, tão apelativo a um público masculino: apresenta uma óbvia conotação com o mundo do desporto motorizado e é imponente (a caixa inaugural de 45 mm foi recentemente acompanhada de uma de 42 mm, mas igualmente possante), apelando também a uma camada mais jovem que deseja um produto mais contemporâneo e urbano do que os modelos inspirados por relógios icónicos que a marca lançou no passado, quando a TAG Heuer ainda era apenas Heuer. O Carrera Heuer 01 veio dar não só um novo posicionamento à marca; veio dar algo de completamente novo e ajustado aos tempos que correm.

Técnica à vista

Carrera Heuer 01

Calibre Heuer 01 © TAG Heuer

O Calibre Heuer 01 é alimentado pelo Calibre 1887, o movimento cronográfico de manufatura próprio da TAG Heuer que se destaca pela sua incrível suavidade de acionamento — mas com um maior pendor de esqueletização e de cor, recorrendo a uma roda de colunas vermelha e à criteriosa utilização do negro que podem ser bem apreciadas através do fundo em vidro de safira, ao passo que o mostrador transparente também permite ver a parte da frente do movimento automático. A equipa liderada pelo responsável de produto Marc Wälti também fez questão de que as componentes fossem muito bem tratadas, de modo a oferecer um acabamento escovado metálico e acinzentado, condizente com a personalidade do relógio. As pontes são mais abertas do que as do Calibre 1887 e o próprio rotor de 360º evoca um volante e é decorado com Côtes de Genève e escurecido com PVD negro. Ou seja, há técnica à vista com um espírito muito racing e um invólucro condizente.

Carrera Heuer 01

© TAG Heuer

Toda a estrutura foi feita para acentuar o espírito modular do conceito; a caixa (também fabricada in-house, numa das subsidiárias da TAG Heuer) do modelo inaugural é feita em aço ou aço com revestimento de titânio para um visual ainda mais moderno, sendo as asas acopladas via parafusos. A construção, assente em 12 peças, permite múltiplas combinações — daí a possibilidade de conjugações distintas entre asas, corpo central da caixa, fundo da caixa, luneta, coroa, botões do cronógrafo, parafusos, inserções e vidros utilizados tanto no mostrador transparente como no fundo. Para beneficiar de uma economia de escala sem grandes custos adicionais, como desejável.

Carrera Heuer 01

Calibre Heuer 01 Automatic Chronograph Ref. CAR2A1Z.FT6044 © TAG Heuer

Também as braceletes com fecho de báscula foram pensadas de maneira a acentuar o tom modernista do Carrera Heuer 01: estão perfeitamente coladas à estrutura e podem ser alargadas de modo a cobrir a ponta das asas; a versão de base em cauchu é perfurada para sublinhar a herança racing, mas há muitas mais variantes disponíveis — incluindo as de pele com base em cauchu e as inevitáveis braceletes em aço.

Carrera Heuer 01

Calibre Heuer 01 Automatic Chronograph Ref. CAR 2A1Z.FT6050 (bracelete vermelha), Ref. CAR 2A1W.BA0703 (aço) e Ref. CAR 2A8A. FT6072 (bracelete em pele). © Espiral do Tempo / Paulo Pires

Ao Carrera Heuer 01 original, vieram juntar-se as esperadas variações, com modelos mais monocromáticos e escurecidos (como o Grey Phantom completamente acinzentado em titânio e o Black Phantom em cerâmica preta, por exemplo) ou mais preciosos — as versões em ouro rosa e titânio escurecido e em ouro rosa com luneta em ouro rosa eram inevitáveis para oferecer o mesmo produto num patamar mais prestigioso. E também já está lançado o Carrera Heuer 02, que combina a função cronográfica com um turbilhão a um preço acessível que mais nenhuma outra marca consegue oferecer — um atestado à excelente capacidade de produção integrada da TAG Heuer.

Carrera Heuer 02

Calibre Heuer-02T Automatic Chronograph Ref. CAR5A8Y.FC6377 © TAG Heuer

Mas, mesmo com uma vida tão curta, o Carrera Heuer 01 já tem uma pequena herança: o seu design constitui também a base estética do Carrera Connected, o outro estandarte da vigência de Jean-Claude Biver à frente da TAG Heuer. A base da caixa e a estrutura são muito semelhantes — e podem inclusivamente receber a posteriori um movimento mecânico. ET_simb

 

 

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