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Crónica: Encontros imediatos de relógio no pulso

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Gosto de relógios de todos os tamanhos, feitios e de complicações. Mas, após todo este tempo, aprendi a reconhecer que foram as relações humanas que tornaram a minha carreira de jornalista ainda mais aliciante — graças ao carisma e à personalidade das pessoas que fui encontrando por esse mundo fora através das mais diversas circunstâncias. Até mesmo por causa de uma piza ou de uma tatuagem.

Crónica originalmente publicada no número 57 da Espiral do Tempo (inverno 2017)

Imagem de abertura: encontro imediato com François-Paul Journe em Nova Iorque.

No outro dia, alguém me perguntou porque utilizava exclusivamente o inglês nas minhas publicações nas redes sociais. De certo modo, estranhei a pergunta — porque bastava um mínimo de atenção para se encontrar a explicação para isso, já que é fácil ver através da interação online que uma grande percentagem dos meus amigos e colegas jornalistas é oriunda dos mais diversos pontos do globo. Daí ter optado desde o início por me expressar em inglês para que toda a gente me entenda, porque é essa (quer se queira, quer não) a língua mais universal.

Na sequência de uma carreira de mais de duas décadas e meia enquanto jornalista de ténis e de relojoaria, sinto-me privilegiado por ter tido a possibilidade de viajar pelos quatro cantos do mundo e de ter amigos um pouco por todo o lado; e se há coisa que aprendi após todo este tempo, foi mesmo que o mais importante tanto no meio tenístico como no meio relojoeiro em que me movimento são… as pessoas. É por isso que, quando convergimos num mesmo evento de ténis ou de relógios, é sempre uma festa. E também é um pouco por isso que encontro amigos em quase todos os sítios onde vá.

Entre amigos, incluindo o compatriota Carlos Torres, a discutir relógios no Dubai © Dubai Watch Week

Entre amigos, incluindo o compatriota Carlos Torres, a discutir relógios no Dubai. © Dubai Watch Week

Foi precisamente entre amigos/colegas, à volta de uma mesa e com o espetáculo audiovisual promovido sobre a estrutura do impressionante Burj Khalifa (o edifício mais alto do mundo) como cenário de fundo num jantar da Dubai Watch Week, que partilhámos alguns contactos imediatos do primeiro grau relacionados com a relojoaria. E tive de contar dois episódios inverosímeis que me tinham acontecido nas semanas anteriores — um com alguém conhecido; o outro com uma pessoa completamente desconhecida.

Transeuntes

No primeiro caso, estava em Nova Iorque para a apresentação do novo relógio da TAG Heuer dedicado a Muhammad Ali e acabei por ficar mais um dia; aproveitei para almoçar na zona de Chelsea Peers com Francisco Franco Dias, um antigo campeão nacional de ténis em cadetes e juniores que se encontra radicado na Grande Maçã a trabalhar na área financeira, e depois encontrei-me com Francesco Calamai, um signore florentino que vendeu a sua empresa de águas para se reformar e fundar uma marca de relógios de aviação (Orologi Calamai) porque o seu pai foi piloto na Segunda Guerra Mundial e ele próprio é piloto de lazer.

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Com o antigo campeão nacional de ténis de cadetes e juniores Francisco Franco Dias em Chelsea Piers. © Espiral do Tempo

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Francesco Calamai e a sua mulher na loja Aaron Faber, em Manhattan. © Espiral do Tempo/Miguel Seabra

Esses foram encontros programados, porque sabíamos que iríamos coincidir em Manhattan, mas logo depois esbarro surpreendentemente com a minha colega Roberta Naas (que vive em New Jersey) nos passeios lotados da Quinta Avenida… tirámos imediatamente uma selfie para a enviar à nossa confrade Elizabeth Doerr, claro.

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Selfie com Roberta Naas na Quinta Avenida para enviar à amiga Beth Doerr. © Espiral do Tempo/Miguel Seabra

Seguidamente, após ter resolvido dar um passeio por Central Park e cortado aleatoriamente para uma das ruas do Upper East Side, dou de caras com François-Paul Journe com uma caixa de piza na mão. No afã de milhões de pessoas que circulam diariamente na mais populosa cidade norte-americana!

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Com o mestre François-Paul Journe na Madison Avenue. A piza não estava grande coisa, mas os relógios F.P. Journe são sempre uma delícia! © Espiral do Tempo

Que coincidência; já há algum tempo que não estava com François-Paul Journe, um dos maiores relojoeiros vivos e alguém com quem mantenho uma relação especial desde que o ajudei a resolver um imbróglio no mercado americano por volta de 2001, quando ainda não se expressava muito bem em inglês. O mestre estava em Nova Iorque porque tinha tido um encontro de colecionadores na véspera e fora buscar algo para comer rapidamente enquanto tratava de vários assuntos. Esqueci tudo o que tinha a fazer nessa tarde, porque ele levou-me a conhecer a boutique da sua manufatura na Madison Avenue e simplesmente não se diz «não» a François-Paul Journe. Para mais, aproveitei a ocasião e entrevistei-o para complementar o artigo sobre as variações do ouro utilizadas na indústria relojoeira que pode ser lido nesta edição da Espiral do Tempo. E recordámos juntos Pedro Torres, o fundador da Torres Distribuição e um dos primeiros importadores, a nível mundial, a apostar na marca F.P. Journe. O François-Paul fez questão de vir a Lisboa para o funeral de Pedro Torres, em 2008, e ainda tinha bem presente na sua memória vários momentos vividos com ele. Lá está: na relojoaria, e sobretudo na alta-relojoaria, a ligação pessoal é extremamente importante — e não pude deixar de me emocionar quando vi alguém que é tido como um duro ficar com lágrimas nos olhos ao mostrar-me, no seu iPhone novo, fotografias de há 15 anos ao lado do amigo português. Depois, fomos aparecer de surpresa numa reunião do Red Bar Group, um conceito de encontros de aficionados da relojoaria fundado por Adam Craniotes que já se está a tornar num franchising; a reação do grupo foi, como esperava, impagável… semelhante à que teria acontecido se tivesse levado Roger Federer a visitar um clube de ténis local!

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Star appeal: o nosso colega Robert Velasquez a tirar um wristshot de um F.P. Journe Grande & Petite Sonnerie com François-Paul Journe como cenário de fundo. © Espiral do Tempo/Miguel Seabra

E acabámos a jantar com amigos no Le Colonial, um restaurante franco-vietnamita. A partir de um puro acaso metropolitano, passei uma das melhores tardes/noites da minha vida.

No Colbert

O segundo encontro foi ainda mais inverosímil e aconteceu durante o Salon QP, em Londres. Após uma longa jornada na Saatchi Gallery, fomos jantar ao Colbert, na vizinha Sloane Square — e, a certa altura, fiz soar o meu Master Réveil para mostrar à Audrey Humbert, responsável de comunicação da Ferdinand Berthoud, a qualidade de som do alarme mecânico. Na mesa ao lado, estavam dois indivíduos a jantar e, ao ouvir o toque, um deles vira-se para nós e diz muito simplesmente «esse Jaeger-LeCoultre soa mesmo bem, não soa?». Ficámos siderados e respondi-lhe que devia perceber muito de relógios, por ter conseguido identificar imediatamente o som e a marca. Prosseguimos com a refeição, intrigados; ali estavam dois fulanos que ainda não tinham atingido a meia-idade, vestidos de maneira absolutamente casual e sem qualquer pinta de colecionadores mas capazes de perceber um som especificamente relojoeiro na cacofonia de uma animada sala de restaurante… até que resolvi retomar a conversa, porque pareceu-me reconhecer o relógio que ele tinha no pulso. E não era um relógio qualquer.

Encontros — Concentrique Grand Complication 5

Concentrique Grand Complication 5 do mestre inglês Peter Roberts, pertença do colega Ken Kessler; wristshot no Lago Maggiore. © Espiral do Tempo /Miguel Seabra

Tratava-se de um Concentrique Grand Complication 5 do mestre inglês Peter Roberts, que aos 20 anos idealizou, em 1972, o primeiro relógio de pulso com cinco ponteiros a partir do centro (para além de janelas para o dia da semana, mês e fases da Lua) com base num calibre Valjoux 726 modificado, e que mais recentemente foi lançado numa série para colecionadores limitada a 40 exemplares com um antigo calibre Valjoux 88 reformulado e adaptado. Reconheci-o, porque o meu colega Ken Kessler, editor-at-large da Revolution, possui um igual e tive a oportunidade de lhe tirar um wristshot no Lago Maggiore durante um evento da Oris. Era esse o relógio tão especial que o homem da mesa do lado tinha no pulso — e acabei por descobrir que esse homem é Anthony Green, um especialista em paraquedismo com um fascínio tão grande pela Jaeger-LeCoultre que resolveu tatuar o movimento do Master Grande Tradition à Quantième Perpetuel nas costas.

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Paixão tatuada: o Calibre JLC 8765Q do Master Grande Tradition à Quantième Perpetuel nas costas. © Anthony Green

Pedi-lhe para me enviar fotografias da tatuagem, porque a sua paixão pela relojoaria merecia ser contada — e, sobretudo, ilustrada. Enviou-mas, finalmente, quando eu estava na Dubai Watch Week e claro que as mostrei aos meus colegas durante o tal feérico jantar ao lado do Burj Khalifa; todos revelaram extraordinários relatos de encontros bizarros devido à relojoaria, mas lá tiveram de reconhecer que a tatuagem do Calibre 876SQ bate qualquer outra história… ET_simb

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