Opinião

CRÓNICA HiSTÓRIA DA CIÊNCIA | Lições dos nossos neolíticos avós

Flora
von Deutschland,
Österreich und
der Schweiz 1885,
de Otto Wilhelm
Thomé. Reproduções
de Kurt Stueber.

EdT54 — A Organização das Nações Unidas decidiu que 2016 será o Ano Internacional das Leguminosas, esperando apontar os holofotes da opinião pública mundial para os serviços prestados por esta família de plantas tão negligenciada. Na verdade, esta história começa há oito mil anos.

Crónica originalmente publicada na edição 54 da Espiral do Tempo.

Em 1957, aquando da visita da rainha Isabel II a Portugal, todo o programa real foi discutido com a embaixada britânica para não ferir suscetibilidades diplomáticas. O menu do banquete servido no Palácio de Queluz não fugiu à regra: foi acordado, com semanas de avanço, que seria servida perdiz à soberana. Não se contou, porém, com a arbitrariedade da natureza. A escassez temporária de perdiz de caça levou a uma modificação súbita do almoço diplomático decisivo para a notoriedade do regime. Se é verdade que a substituição da perdiz por outra iguaria não gerou embaraços de monta, serviu para mostrar que mesmo a mesa dos poderosos está sujeita às flutuações de recursos. E de então para cá os nossos desejos alimentares têm sido cada vez mais excêntricos.

Uma corrente de protestos alimentares varreu o Globo no ano passado. No Brasil, protestou-se contra a expansão das plantações de soja para uso em biocombustíveis e contra a transformação de áreas florestais em terrenos de pasto. Na Índia, país onde o consumo de proteína animal per capita começa a disparar, foi o aumento do preço da carne de porco que gerou tumultos violentos. Em França, ativistas penduraram-se de cabeça para baixo, simulando as atrocidades dos matadouros e protestando contra a desumanidade da criação de carne para abate. Pescadores de áreas costeiras nos Estados Unidos queixaram-se da redução abrupta de peixe disponível desde sempre nos seus bancos de pesca. Em Londres, houve protestos contra o desperdício alimentar e a rejeição de alimentos motivada pelos critérios estéticos de restaurantes e supermercados que não querem servir fruta e legumes com formatos exóticos.

Na verdade, é muito provável que o debate sobre a sustentabilidade da alimentação humana atravesse o século XXI à medida que a realidade se impuser e algumas fontes de alimentação que tomámos como garantidas se tornem mais escassas e caras. Outros menus terão de ser inventados e o nosso gosto será provavelmente retocado. Pouco antes de falecer, em 2013, Gene DeFoliart, professor emérito da Universidade de Madison e entomólogo conceituado, levantou uma vez mais a controversa questão que o motivou ao longo da sua brilhante carreira: mais cedo ou mais tarde, teremos de admitir que a carne de criação é cara de mais do ponto de vista económico e ambiental. Teremos de nos concentrar noutros regimes, mais vegetais do que animais. E, dentro destes últimos, o último candidato viável será o uso dos insetos como recurso alimentar.

A fava é uma das leguminosas cultivadas há mais tempo no nosso território. Encontraram-se vestígios do cultivo desta planta em sítios arqueológicos do Neolítico.

A fava é uma das leguminosas cultivadas há mais tempo no nosso território. Encontraram-se vestígios do cultivo desta planta em sítios arqueológicos do Neolítico.

A Organização das Nações Unidas não vai tão longe, mas deu um passo importante ao classificar 2016 como o Ano Internacional das Leguminosas. As leguminosas são uma família extensa de plantas com mais de 16 mil espécies — muitas são ornamentais, mas outras são usadas há séculos como fonte de alimento ou forragem. As suas sementes crescem dentro de uma vagem, que tanto pode ser consumida integralmente, como sucede com o feijão-verde ou a ervilha, como reduzida às sementes ainda verdes (como nas favas ou no feijão) ou secas (como comemos o amendoim ou o grão-de-bico).

A nossa relação com o mundo botânico é mais complexa do que parece, pois resulta, tal como com os animais que nos habituámos a considerar mais próximos, de processos de domesticação de variantes selvagens. Da mesma forma que o cão tem o lobo como ancestral selvagem, o porco resultou da domesticação do javali e o boi de experiências de domesticação do auroque. Também as plantas comestíveis têm uma longa história — dos cereais às leguminosas.

O trigo e a cevada, cultivados desde o Neolítico na Península Ibérica, são domesticações de variantes selvagens que existiam entre a Anatólia turca e os planaltos iranianos. A ervilha e a lentilha distribuíam-se pelo sul da Turquia e litoral do Levante antes de serem trazidas para a Europa. A batata e algumas espécies de feijão remontam à América, onde começaram a ser cultivadas pela primeira vez no Peru há sete e quatro mil anos, respetivamente, aguardando depois pelos Descobrimentos para a sua migração transatlântica. O arroz, por seu lado, foi domesticado junto da bacia do rio Yangtzé, na China, há nove mil anos e só chegou à Europa com os árabes no século X. O grão-de-bico, igualmente domesticado no Próximo Oriente, tardou mais a chegar à Península Ibérica, pois só emerge em sítios arqueológicos da Idade do Ferro (cerca do século IV a.C.).

Como referiu António Faustino Carvalho, arqueólogo da Universidade do Algarve, especialista do Neolítico e consultor do processo bem-sucedido de candidatura da dieta mediterrânea a Património Imaterial da UNESCO, «não estamos perante uma realidade cristalizada, acabada, mas sim em permanente mutação [que] continuará a transformar-se independentemente da nossa vontade de a conservar».

Culturalmente, as lentilhas têm uma longa tradição, com direito a referências bíblicas. Em vários locais do mundo, as sementes são associadas a bons augúrios económicos.

Culturalmente, as lentilhas têm uma longa tradição, com direito a referências bíblicas. Em vários locais do mundo, as sementes são associadas a bons augúrios económicos.

Parece estranho entrar no elevador da evolução humana e recuar oito mil anos para contextualizar um grão de lentilha, uma fava ou restos de chícharo, outra leguminosa normalmente dada como forragem. Na verdade, como nas fábulas das mil e uma noites, tudo começou no Próximo Oriente, sensivelmente na fase de transição entre o fim do Paleolítico e o Neolítico. Algo estava a mudar na paisagem. O recuo dos glaciares abriu, na zona atlântica, estuários ricos em alimento e criou oportunidades para o crescimento florestal. Novas faixas de ecótono (entre os montes Zagros e Taurus e o deserto, entre os rios Tigre e Eufrates e o deserto circundante, ou ao longo do litoral sírio-palestino) possibilitaram a exploração intensiva (e depois a domesticação) de um amplo espetro de recursos animais e vegetais. As comunidades de caçadores-recoletores, típicas do Paleolítico, ensaiaram novas estratégias de sobrevivência: a caça tornar-se-ia a partir daí um complemento de uma atividade mais sedentária, baseada na agricultura e na criação de animais domésticos.

Um regime alimentar mais seguro, porque menos sujeito a intempéries e flutuações da caça, provocou uma expansão demográfica sem paralelo na história humana até então. Em breve, estes grupos pioneiros de uma nova economia de vida expandiram-se pela Europa.

Não há muitos vestígios em sítios arqueológicos portugueses de cultivo de leguminosas, mas eles existem. Em São Pedro de Canaferrim e Lapiás das Lameiras, em Sintra, surgiram restos de chícharo, lentilha e fava num contexto do Neolítico Antigo (cerca de 5400-5200 a.C.). Em Buraco de Pala, Mirandela, as escavações recolheram restos de fava num mar de trigo e cevada igualmente cultivados, num sítio que terá sido ocupado no Neolítico Final, perto do final do quarto milénio antes de Cristo. Nos períodos pré-históricos seguintes, estes vestígios aumentam consideravelmente. Por outras palavras, é impossível dissociar o início da agricultura e a domesticação de cereais do cultivo de leguminosas, fonte fundamental de proteína e fertilizante natural dos solos.

António Faustino Carvalho lembra que esta conclusão não se fundamenta apenas em vestígios botânicos. As práticas agrícolas neolíticas podem ser inferidas igualmente pela descoberta de «mós (presumivelmente para a moagem de cereais), de peças em sílex originalmente encabadas em foices de madeira (que não se conservaram) usadas na ceifa e nos diagramas polínicos de turfeiras ou lagos de montanha, onde surgem alterações nos cobertos vegetais (principalmente desflorestações) interpretados como resultado da introdução de práticas agropastoris».

A ervilha tem uma história comum com a humanidade. Na Idade Média, foi com frequência o único recurso alimentar para travar a fome em toda a bacia do Mediterrâneo.

A ervilha tem uma história comum com a humanidade. Na Idade Média, foi com frequência o único recurso alimentar para travar a fome em toda a bacia do Mediterrâneo.

Com exceção da fava, que poderia ter sido autóctone da bacia mediterrânea, a generalidade das leguminosas descende de variantes selvagens orientais. É inegável que foi a ação humana a partir do Neolítico Antigo que as trouxe para o extremo ocidente europeu. Ao longo de milénios, este acontecimento cultural criou a primeira forma de dieta mediterrânea intencional (uma vez que resulta do cultivo programado de fontes alimentares) e transregional, pois incorporou elementos de todo o mundo conhecido. Até aí, o consumo vegetal dependia da sorte de encontrar vegetais espontâneos comestíveis e teria seguramente pouco peso na pirâmide alimentar do Paleolítico.

É verdade que nunca valorizámos culturalmente as favas, as ervilhas ou o feijão. Interiorizámos um certo menosprezo por estas vagens, até porque a história fundadora da nossa civilização — a Bíblia — inclui uma parábola pouco agradável sobre como Esaú cedeu o seu direito de primogénito ao irmão Jacob em troca de um mero prato de… lentilhas, outra leguminosa.

Lembremos porém que a dieta mediterrânea que incorporámos no sul da Europa é necessariamente diferente da do norte europeu, mais frio, onde abunda o cultivo de trigos vestidos, mais aptos para as amplitudes térmicas, e a criação de grandes bovinos resistentes à neve e ao gelo. No Sul, a dieta inclui cereais mais abundantes (vestidos e nus, pois o frio não é uma componente tão decisiva da equação), leguminosas, ovinos, caprinos e produtos lácteos derivados destes. Não é por acaso que a tolerância à lactose é consideravelmente maior em territórios como o nosso, onde o contacto com produtos lácteos é culturalmente contínuo. «A mais recente etapa da evolução biológica humana foi a adaptação à lactose», diz António Faustino Carvalho, que lembra igualmente outra revolução evolutiva que data do Neolítico: a capacidade de digestão de bebidas alcoólicas como a cerveja, obtida a partir da cevada.

De alguma forma, a mensagem da ONU neste Ano Internacional das Leguminosas, tantas vezes consideradas a proteína dos pobres, ecoa com força em países como o nosso — não tanto como uma sugestão drástica de mudança de regime e de aproveitamento desta valiosa fonte de proteína, mas como regresso às origens e àquilo que os nossos neolíticos avós incorporaram à nossa mesa. Um prato de lentilhas não tem necessariamente de ser um castigo! ET_simb

 

Todas as ilustrações inseridas em Flora von Deutschland, Österreich und der Schweiz 1885, de Otto Wilhelm Thomé. Reproduções de Kurt Stueber.