Opinião

PONTO de VISTA – Ser quadrado é fixe

TAG Heuer Monaco

EdT55 — «Quadrado» (adjetivo popular figurado): pouco inteligente, sem agilidade de pensamento; limitado, pouco recetivo a inovações; obtuso; convencional, retrógrado; tradicionalista. Ironicamente, as pessoas que conheço que gostam de relógios quadrados — e, por extensão, relógios de forma — são exatamente o oposto dessa definição pejorativa. Não tinha Steve McQueen o cognome ‘King of Cool’?

Originalmente publicada na versão impressa da Espiral do Tempo 55.

Entre comentários para o Eurosport e numa das interrupções provocadas pela chuva na recente edição de Roland Garros, pus-me a ver o resumo do Grande Prémio do Mónaco — e, ao olhar para a minha reedição do Monaco da TAG Heuer no pulso, questionei-me sobre o que fará com que alguém escolha um relógio chamado ‘de forma’ em detrimento de um relógio redondo.

Por relógios ‘de forma’ definem-se todos aqueles que apresentam uma geometria não redonda — ou seja, os relógios em forma de barril, se seguirmos a tradução literal do francês «tonneau», ou em formato almofada, segundo a expressão anglicista «cushion»; os relógios quadrados; os relógios retangulares; os relógios ovais; e os relógios assimétricos. Mas os modelos redondos ou os que têm uma caixa de base geométrica mas com mostrador circular continuam a apresentar um domínio quase esmagador no mercado, com honrosas exceções de exemplares icónicos que se tornaram incontornáveis na história da relojoaria de pulso. Como o Reverso da Jaeger‑LeCoultre, o Santos da Cartier e o Monaco da TAG Heuer. Por enquanto, o Apple Watch ainda não integra o lote… e, não sendo mecânico, também não merece pertencer à mesma categoria.

Relógio quadrado:  Jaeger-LeCoultre Reverso Squadra Hometime

Jaeger-LeCoultre Reverso Squadra Hometime
| Foto de abertura: TAG Heuer Monaco, reedição Steve McQueen. © Espiral do Tempo / Miguel Seabra

Percebe-se a predominância dos relógios redondos ou de mostrador circular: a noção de circularidade do tempo existe desde os primórdios da humanidade, com o Sol a alternar com a Lua, os dias a sucederem-se às noites e as estações a revezarem-se perpetuamente, fomentando o mito do eterno retorno e a alegoria da serpente que engole a própria cauda. Tornou-se natural que, a partir do momento em que surgiram os primeiros relógios, a melhor e mais intuitiva maneira de apresentar o tempo fosse com o recurso a ponteiros em movimento cíclico a partir de um eixo. Essa noção permanece e, para a maioria, acaba por ser instintiva a opção por um modelo redondo enquanto primeiro relógio.


Quadrado: da técnica ao intangível

Para os fabricantes, a profusão de relógios redondos vai além do aspeto intuitivo e do fator comercial. Tal como sucede com os mostradores e as caixas, também os calibres redondos são os mais naturais — o círculo é o formato natural de qualquer mecanismo que permite ao tempo correr ciclicamente e os mecanismos redondos favorecem a inclusão, no espaço mais reduzido possível, de complicações suplementares. E, se é natural transportar o élan circular do movimento para o mostrador e também para a caixa, as exigências de estanqueidade também tornaram o formato redondo mais exequível. A dilatação dos materiais, que se efetua do centro para a periferia, é mais fácil de gerir utilizando peças trabalhadas sobre uma base circular; as juntas em anel também são mais fáceis de produzir e os vidros redondos mais fáceis de acoplar à caixa. Resumidamente: por motivos simbólicos e técnicos, as caixas circulares tornaram-se a escolha mais evidente — não só pela sua legibilidade, mas também por serem mais resistentes e estanques.

Relógio quadrado: TAG Heuer Monaco

TAG Heuer Monaco, primeira reedição de 1998. © Espiral do Tempo / Miguel Seabra

As melhores manufaturas relojoeiras sempre estiveram mais livres para ultrapassar constrangimentos devido à sua mestria técnica e capacidade de apostar noutros formatos, mantendo caixas relativamente invioláveis. Quando foi lançado, em 1969, o Monaco foi o primeiro cronógrafo quadrado dotado de um mínimo aceitável de estanqueidade. E foi imediatamente encarado como sendo um relógio vanguardista — mesmo para o experimentalismo cromático e geométrico da época, era um relógio ‘muito à frente’. Jack Heuer batizou-o em honra do Grande Prémio do Mónaco e de todo o glamour associado ao Principado e à Riviera Francesa, com o mar da Côte d’Azur refletido num mostrador azul tornado racing com totalizadores brancos contrastantes e detalhes a vermelho. Foi o relógio escolhido por Steve McQueen na construção da sua personagem no filme Le Mans (1971), baseada no piloto suíço Jo Siffert (que até ficou mais associado a outro relógio da mesma marca: o Autavia).

Steve McQueen tinha o cognome ‘King of Cool’ porque ele era, de facto, cool. E o Monaco também é um relógio cool, independentemente de ter sido celebrizado pelo lendário ator americano. Pelas cores, pelo formato, por ser inconfundível. Mesmo não tendo sido um sucesso comercial na altura: tanto disseram a Jack Heuer que era demasiado angular que foi forçado a criar o Silverstone, a partir de um protótipo do Monaco com os ângulos arredondados.

O curioso é que, entretanto, a palavra inglesa «square» — com a devida correspondência em português, se bem que o termo «quadrado» já não seja corrente — passou a ser utilizada para definir pessoas conformistas, acomodadas, até mesmo tacanhas e resistentes à mudança. A seguir a «Power of Love», o segundo maior êxito de Huey Lewis foi o tema «Hip to be Square», de 1986, em que o protagonista da canção revela que tentou lutar contra o sistema, mas que, afinal, também é fixe ser quadradão: I used to be a renegade, I used to fool around; but I couldn’t take the punishment and had to settle down; now I’m playing it real straight and yes, I cut my hair; you might think I’m crazy, but I don’t even care; because I can tell what’s going on: it’s hip to be square.

 Relógio quadrado: Bell & Ross BR-X1 Skeleton Chronograph Hyperstellar

Bell & Ross BR-X1 Skeleton Chronograph Hyperstellar © Espiral do Tempo / Miguel Seabra

Na relojoaria, é o contrário. Os relógios de forma são uma reação à tirania circular e uma expressão de inconformismo — e não é raro que designers, arquitetos e artistas prefiram modelos que não sejam redondos. É fixe ter um relógio quadrado. Consequentemente, quem tem um relógio quadrado é fixe. Pelo menos quero acreditar nisso, pelo que apostei a triplicar: tenho a primeira reedição do Monaco (preta, de 1998), a tradicional reedição Steve McQueen (azul) e ainda um Jaeger-LeCoultre Reverso Squadra Hometime. Dos mais recentes lançamentos, o Bell & Ross BR-X1 Skeleton Chronograph Hyperstellar é claramente coolET_simb

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