Histórias, Perfil

Arquivos: recordar a entrevista exclusiva a Manuel Cargaleiro

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EDT 03/ No dia em que Manuel Cargaleiro celebra 90 anos, recordamos a entrevista exclusiva ao artista português que foi publicada no número 3 da Espiral do Tempo. Estávamos em 2002, ano que coincidiu com o lançamento do Reverso Arte Portuguesa da Jaeger-LeCoultre, assinado Manuel Cargaleiro.

Manuel Cargaleiro: «O tempo é um espaço infinito»

Aos 74 anos, Manuel Cargaleiro mantém toda a sua jovialidade e continua a ser um artista extremamente profícuo. A série limitada do Reverso com a sua assinatura constituiu mais um desafio na sua carreira — que aceitou de bom grado, tal como aceitou partilhar as sua preocupações sociais e opiniões sobre si próprio, o tempo e o mundo em que vivemos.

Convidado pela Torres Distribuição e pela Jaeger-LeCoultre para assinar a segunda das séries limitadas do Reverso dedicadas aos mais célebres artistas plásticos portugueses, o pintor e ceramista Manuel Cargaleiro desenvolveu uma composição simbólica e geométrica em que misturou o tempo e o cosmos com o azulejo e o mar lusitano. Sempre energético e comunicativo, mantém um elevado poder criativo e o trajecto da sua carreira já lhe valeu uma fundação e um museu com o seu nome. Continua a viver entre o bairro parisiense de St. Germain-des-Près e a sua quinta perto da Costa de Caparica — onde se dispôs a ser retratado pela objectiva de Kenton Thatcher e aceitou desenhar em palavras o seu próprio perfil.

Como é que se auto-define?
Profissionalmente, considero-me um aprendiz de arte, de pintura, de cerâmica, de tudo. Sou alguém que está todos os dias a aprender e a experimentar. Pessoalmente, gosto de me afastar um bocadinho, detesto multidões, gosto de ir vivendo em diversos sítios. Imagino a felicidade das pessoas que vivem naquelas aldeias médias com toda a sua estrutura, a sua organização, e acho ideal viver uma vida de província. Sou uma pessoa extremamente simples, mas consciente das minhas características, da minha personalidade. Não me considero alguém que saiba tudo — nada disso; tenho consciência daquilo que sei, daquilo que sou, mas duma maneira muito simples. Detesto tudo o que é vaidade, espectáculo, exuberância e pretensiosismo.

© Espiral do Tempo / Kenton Thatcher

© Espiral do Tempo / Kenton Thatcher

O seu ideal bucólico de vida estará directamente relacionado com as suas próprias origens?
Evidentemente. Os meus pais eram agricultores; sou descendente de gente do campo, mas, ao mesmo tempo, o meu pai era um homem ultra-moderno para o tempo dele. Veio de Vila Velha de Rodão para aqui e revolucionou esta região da Costa de Caparica. Comprou uma quinta e fez um trabalho social enorme porque desenvolveu não só o que era dele na agricultura mas também proporcionou desenvolvimento aos outros. Vim com ele para cá, ainda não tinha dois anos. A Beira-Baixa e todas as regiões de Portugal têm uma cultura ancestral que marca muito as pessoas; por isso, embora viva aqui há 73 anos, estou bastante marcado pela cultura da Beira-Baixa.

Quando é que sentiu nascer a sua faceta artística?
Nasceu de maneira um pouco insólita. Nunca pensei ser artista. Aconteceu porque comecei a brincar, a fazer bonecos, a modelar o barro aqui da quinta. Quando andava na escola primária, havia um oleiro ao pé da escola, aqui no Monte de Caparica, e eu ia para lá para o ver fazer peças lindíssimas saídas de uma bolinha de barro — ficava fascinado com aquilo. Era arte primária. Gostava daquilo sem saber porquê. Pedia-lhe barro e ele dava-me; eu modelava um bonequito e ele cozia-o no forno. E comecei a fazer experiências. Um dia, um colega do liceu levou-me ao Museu de Arte Antiga para uma conferência do Prof. Luís Reis Santos sobre a pintura holandesa do século XVI; dias depois, telefonei-lhe: acho que foi o subconsciente, porque eu era muito tímido quando era mais novo e ter feito isso foi um acto de grande coragem. Ele achou graça aos meus bonecos, mas disse que aquilo não era nada e encorajou-me o mais possível. Apresentou-me ao António Barradas, um grande ceramista com quem aprendi muito. Deu-me um cantinho no atelier dele e mandou-me trabalhar. E continuei a fazer experiências.

Acha que foi o subconsciente ou o destino?
Como é que do nada nasce uma coisa? Tudo o que tive na vida veio por acréscimo a não fazer nada. Tenho uma actividade para a qual não fiz nada. Aconteceu; foi o destino. O meu pai queria que eu fosse agrónomo ou veterinário. O meu irmão fez-lhe a vontade: é veterinário; eu fui para a faculdade de ciências, mas o meu coração estava no barro; depois de dois anos na faculdade, e sem dizer nada a ninguém, fui estudar desenho com uma judia fugida da Alemanha do Hitler e com as minhas economias paguei as aulas que tive com ela. Ela preparou-me para a Escola Superior das Belas-Artes. Simplesmente, o meu pai disse-me que não: «Isso é uma coisa que não dá nada». Logo no dia seguinte, concorri à Caixa Geral de Depósitos e disse-lhes: «Eu não quero cá ficar; só quero ganhar algum dinheirito para ir para as Belas-Artes». Eu fazia o meu trabalho e ia às aulas. Ao princípio, ninguém comprava as minhas peças e eu dava-as aos meus amigos; mas depois fiz uma exposição importante em que vendi tudo e com os 15 contos fui para Paris e Londres, ver concertos e exposições.

© Espiral do Tempo / Kenton Thatcher

© Espiral do Tempo / Kenton Thatcher

A sua família estava muito ligada à terra; a sua arte é muito ‘terrena’ (o barro, os azulejos), mas o abstraccionismo da sua pintura torna-a um pouco etérea. Como é que vê essa dicotomia?
Vejo as coisas de outra maneira. Na arte, ou se segue uma via clássica baseada no academismo, nos cânones, na lógica, ou então dá-se rédeas largas a imaginação — que é aquilo que eu faço. Andei o tempo todo a aprender a técnica para poder traduzir aquilo que me ia na cabeça. E foi por isso que eu, agarrado à cerâmica, aos azulejos, fui sempre como um computador que absorveu informação para depois transmitir o que fui apanhando à minha própria maneira. No fundo, o que faço é interpretar o que me rodeia. E o abstraccionismo nunca é abstraccionismo; há linhas de alegria e de tristeza, linhas que ultrapassam a imaginação. A entrega que fazemos à pintura não é uma obsessão, é uma entrega natural. Existe a paixão, um estado natural. O pintor como que se realiza quando entra na paixão. Esse estado não é resultante de uma decisão: acontece quando menos se espera. O Matisse dizia que era preciso estar a trabalhar quando o génio aparecesse. Porque se não se estiver a trabalhar, nunca se faz nada. E preciso é estar a trabalhar — eu considero-me é um grande trabalhador. E através do meu trabalho andei toda a vida a tentar realizar qualquer coisa. E depois há outro problema: na nossa época, há duas grandes tendências da humanidade; uma construtiva, outra destrutiva. A destrutiva muitas vezes tem muito talento, como se pode ver num artista como o Picasso, que é o génio máximo da arte do século XX.

Como é que justifica essas duas tendências?
Muitas correntes da arte tem a tendência da destruição — aqueles artistas que sofreram, como aqueles que ficaram muito marcados pelo nazismo, que estiveram nos campos de concentração, que viram os avós, os pais e os filhos morrer; essas gerações ficaram destruídas, nada tinha sentido: há correntes que justificadamente fazem uma arte muito importante mas muito pessimista. E há outra corrente que defende que devemos contribuir para melhorar o mundo. Temos de ter a coragem, dentro do sofrimento, para propor qualquer coisa de positivo. É esse o caminho a seguir. Eu tento transmitir o lado positivo. Porque se vivermos na depressão, não podemos contribuir para que as coisas melhorem.

© Espiral do Tempo / Kenton Thatcher

© Espiral do Tempo / Kenton Thatcher

Essa visão social da arte incluiu um episódio traumático na sua vida — a anulação do seu projecto para a Cidade Universitária!
Era um projecto essencialmente social. Quando aquilo foi feito no início dos anos 50, eu era um garoto e fui convidado para fazer, durante um ano, os estudos para revestir de azulejos a Cidade Universitária e a Biblioteca Nacional. Fiz uma série de padrões durante um ano, estudei e ganhei o projecto. Só que, num regime anti-democrático como o da altura, as coisas eram resolvidas de outra maneira — como era um garoto e não tinha influências políticas, nem o facto de o arquitecto gostar muito de mim chegou. Anularam o concurso. O meu amigo Ruben Andersen Leitão escreveu uma carta muito bem feita ao Salazar, que eu assinei, dizendo que a anulação tinha sido uma decisão impossível. O orçamento para revestir tudo era seis mil contos, muito dinheiro para a altura. Eu iria ganhar 12 mil escudos e ganhava então dois contos por mês como professor de pintura e cerâmica na escola António Arroio, sem sequer ter um curso. O secretário de Salazar enviou-me uma carta a explicar que eu não faria o projecto, mas que também ninguém o faria. Psicologicamente foi um rude golpe.

Foi então que decidiu sair do país…
Quando era novo, tinha grande preocupação pelo aspecto social; o projecto is fazer com que cerca de 1oo pessoas trabalhassem durante dois anos a pintar à mão os azulejos todos para os edifícios das faculdades. Eu quis fugir, sair daqui. O Ministro dos Negócios Estrangeiros foi simpático e ofereceu-me uma bolsa do governo italiano. Estudei na Escola Superior de Cerâmica em Faenza, estive em Florença, em Roma, e vim-me embora. Quando cheguei cá começou a funcionar a Fundação Gulbenkian. A Maria José de Mendonça, primeira directora do serviço de Belas Artes da Gulbenkian, chama-me para ir para França com uma bolsa de dois anos, mas tive de recusar ao fim de um ano, pois a minha intenção não era regressar a Portugal para dar aulas — era ficar por lá.

Como artista, qual é a sua definição de tempo?
Qualquer ser pensante interroga-se sobre a origem das coisas, sobre o que está para além das estrelas. É um pensamento comum a outros artistas. Interrogamo-nos sobre o que haverá para além do nosso mundo e, aí, entramos numa definição de tempo. Há um tempo limitado para a existência do que nos rodeia. E o cosmos é uma coisa tão imensa! Para mim, a definição do tempo está muito ligada à definição de Deus: aquilo que não atingimos é Deus, e o tempo é uma palavra indefinível. Podemos contar um pedaço de tempo, mas não podemos contar o tempo porque o tempo não tem princípio nem fim. É um espaço infinito, para trás e para a frente. Quando o Pedro Torres me propôs decorar um relógio, eu pensei: «A minha pintura, a minha arte é toda baseada em algo de que não transijo um milímetro — a liberdade. A definição mais fácil para traduzir aquilo que eu faço é ‘abstraccionismo lírico’.

© Espiral do Tempo / Kenton Thatcher

© Espiral do Tempo / Kenton Thatcher

Como idealizou a sua composição do tempo para o Reverso?
O que eu quis para o Reverso foi uma composição toda simbolista do princípio até ao fim. A parte de cima da composição tem lá o cosmos, as três manchas vermelhas; e tem a espiral, que para mim sempre foi a imagem do tempo, do eterno retorno, algo que não tem princípio nem fim. A primeira ideia que me veio à cabeça foi mesmo utilizar a espiral; fui fazendo estudos e acrescentei três esferas vermelhas: o cosmos e a côr que simboliza a alegria e a felicidade. Na parte de baixo surge a azulejaria, que foi onde a arte portuguesa se manifestou com mais força desde o princípio; o azulejo é a expressão mais importante da arte portuguesa. As cores são as da bandeira de Genebra, considerada a capital mundial da relojoaria. E o azul representa o mar português. O curioso é que um sobrinho me perguntou se aqueles losangos eram ampulhetas — só se foi o meu subconsciente…

Durante o projecto do Reverso, esteve numa zona da Suiça que é uma espécie de ‘berço do tempo’. Quais foram as impressões que retirou da sua estadia em Le Sentier, na Vallée de Joux?
Aquela zona tão calma é um pouco o contrário da minha maneira de ser: sou muito espontâneo e energético. Lá senti a antiguidade, a força da natureza, das montanhas e das paisagens; senti a rudeza daquela gente austera — são pessoas capazes de se sacrificar por um ideal, de lutar por um objectivo, de tomar decisões e executá-las com precisão. São capazes de ficar horas a fazer uma pequena roda e depois são capazes de fazer 50 rodas iguais. Eu não conseguiria: se fosse eu, fazia-as todas diferentes! Para mim, a Vallée de Joux é um local cheio de mistério, porque tem história e tem vida. Os suíços são um pouco o reflexo das quatro estações; por exemplo, têm a alegria da Primavera e a tristeza do Inverno; nós, é confusão o ano inteiro!

© Espiral do Tempo / Kenton Thatcher

© Espiral do Tempo / Kenton Thatcher

Este ano tem sido triste e marcado por dois acontecimentos: a polémica que rodeou a cimeira da Organização Mundial do Comércio em Génova e a chamada Guerra Contra o Terrorismo. Como é que os encarou?
Houve grandes mudanças no mundo após as Grandes Guerras, em 1918 e 1945. A mudança que se seguiu aos atentados de 11 de Setembro é maior do que essas, é mais global. E os pequenos movimentos políticos de manifestação contra o G-8 e a globalização, quando os ouvimos, apetece-nos dar-lhes crédito; mas quando raciocinamos de maneira fria, vemos que eles não têm razão. Quando os países ricos são obrigados a tomar determinadas posições, também gostariam de tomar outras, mas não as tomam porque existe uma inteligência mundial que está convencida de qual é o bom caminho. E acontece o mesmo em relação à Guerra Contra o Terrorismo: existe o consenso de que é o bom caminho — senão, não iriam matar pessoas para o Afeganistão. Mas o que está a acontecer de muito mais grave neste momento é a luta entre os ricos e os pobres; não está certo que o mundo vá buscar as matérias primas mais ricas a África e que as pessoas continuem a morrer de fome por lá. Acho que o grande problema do mundo é mesmo a falta de instrução, de educação…