Histórias

ENTREVISTA | Éric Cantona: pisar o risco

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EdT58/ Éric Cantona é um dos melhores futebolistas das últimas décadas — mas o seu carisma transcendeu o futebol e tornou-se numa espécie de ícone inconformado, de rebelde transgressor. Também se tornou artista noutros campos. E a Hautlence escolheu a sensibilidade artística do francês atualmente residente em Lisboa para uma parceria relojoeira capaz de personificar o lema da marca: «Cross the Line». Numa entrevista realizada em Cascais, Éric, the King, pisou o risco e deu-nos a conhecer o lado de lá da sua personalidade e dos seus relógios.

Perguntas: Hubert de Haro e Miguel Seabra

Entrevista originalmente publicada no número 58 da Espiral do Tempo

Éric Cantona estreou-se pelo Manchester United num encontro amigável diante do Benfica destinado a celebrar o 50.º aniversário de Eusébio, no Estádio da Luz. Nos anos seguintes, transformou-se numa lenda do futebol mundial, não só graças ao seu bom futebol, mas também à rebeldia que já trazia do campeonato francês — sem esquecer o seu visual marcante, celebrizado por uma tirada de Roy Keane: «com o colarinho para cima e peito para fora, o Éric andava pelos estádios como se fosse o dono daquilo tudo».
O panteão da fama do futebol britânico indica Éric Cantona como um dos mais controversos jogadores de futebol de sempre — sempre se mostrou indomável, e as múltiplas ausências dos relvados na sequência de suspensões só aumentaram o desejo do público de vê-lo jogar o seu futebol ofensivo e imprevisível. Após ser campeão pelo Marselha e pelo Leeds United, ganhou quatro títulos da Premier League pelos Red Devils e celebrizou a ‘camisola 7’ que seguidamente pertenceria a David Beckham e a Cristiano Ronaldo. Mas o idolatrado marselhês ficou conhecido por muito mais além do seu futebol ou da sua rebeldia. Nunca hesitou em dar a conhecer os seus pontos de vista políticos, tornou-se num símbolo de anticonformismo e sempre procurou alargar as suas fronteiras. Viajou pelo mundo e abraçou a veia artística herdada do pai, um pintor. Mais recentemente, tem dado que falar no papel de ‘comissário do futebol’ num divertido programa especialmente criado para ele pelo canal Eurosport. Entretanto, escolheu residir em Portugal com a família e foi na Grande Lisboa que nos encontrámos com ele para uma entrevista — mais precisamente no restaurante Furnas do Guincho, à saída de Cascais.
Acompanhou-nos Sandro Reginelli, cofundador da Hautlence, em 2004, e que regressou no final de 2015 para suceder a Guillaume Têtu e ocupar o cargo de CEO de uma das marcas concetuais de luxo que na década passada deram novos horizontes à relojoaria mecânica contemporânea. Tendo em conta o mote «Cross the Line», o carismático Éric Cantona apresentava-se como o embaixador ideal; graças aos seus dotes artísticos, a parceria com a Hautlence já deu excelentes frutos com o lançamento de dois surpreendentes modelos com o seu cunho pessoal. Aqui fica a conversa tida connosco.

Éric Cantona. © Paulo Pires

Éric Cantona. © Paulo Pires

 

O tema de capa desta edição da nossa revista é a atitude. O que é que o termo «atitude» representa para si?
Para mim, a atitude é uma pessoa poder ser o mais natural possível, e, paradoxalmente, o mais difícil é poder ser-se o mais natural possível nos dias que correm. É ser, porque parecer é fácil. E digo «ser» no estado primitivo, animal. O animal não se questiona sobre se deve ser ou parecer. Parecer é a sociedade em que vivemos hoje em dia. A vida moderna exige-nos que temos de parecer qualquer coisa, temos de parecer para ser. Vivemos num mundo em que há códigos de acordo com o meio em que nos inserimos. Códigos para viver, para vestir, para exprimir, para a maneira de gesticular, de dizer as coisas. Vemos isso no jornalismo, na televisão, nos negócios, nas mais diversas áreas. Para mim, a atitude certa tem a ver com o que é mais simples.

E considera isso algo que está inerente à tirania do politicamente correto?
Quando dizemos que a imagem é importante, quando se fala da utilização de imagem, eu pergunto: para quê construir uma imagem se o que deveria ser mais simples é sermos quem somos? Mesmo que seja difícil sermos nós mesmos, e isso até seja mais difícil do que criarmos uma imagem. É paradoxal. Há gente que tenta resistir a tudo isso. Não é simples, porque já é suficientemente complicado sabermos exatamente quem somos. Temos primeiro de saber quem somos com as pessoas que amamos, nos negócios, conhecermo-nos em todas as situações. A atitude é o animal que somos. Para mim, a atitude é a aura. Tudo o que não se vê, a energia que nos envolve o corpo e que todos temos — que circula à nossa volta, mas que não se vê. Há um pintor que admiro bastante: Lucian Freud, neto de Sigmund Freud, um grande pintor figurativo e que considero ser o único pintor que pinta a aura. Pinta o corpo, pinta nus. Olha-se para um quadro dele e vemos tudo aquilo que ele não pinta, o que não se vê a olho nu. Ele consegue criar personagens dotadas de uma aura que ultrapassa o visível.

Enquanto artista, a pintura é para si uma atividade relevante para se mostrar quem se é?
Toda a forma de expressão serve para mostrarmos quem somos. É vital essa necessidade de nos exprimirmos. Não sei se leram a obra Lettres à Un Jeune Poète, de Rainer Maria Rilke, em que um jovem poeta pergunta ao seu mestre o que é preciso fazer — e, resumidamente, ele responde «se tu não consegues viver, se não tiveres a possibilidade de te exprimir, então é porque és um artista». Um artista tem a necessidade de se exprimir, de uma forma ou de outra. A partir daí, a arte é subjetiva. Tenho necessidade de me exprimir artisticamente, mas também sinto a necessidade de ir ter com os outros, de descobrir a arte dos outros. Amo praticar a arte, mas também amo a arte dos outros. É o que me alimenta, o que dá sentido à minha existência. Vivo muito mais feliz e com mais paixão do que aqueles que vivem à custa do que os outros fazem, como alguém que assiste a um debate entre duas facções e que sente a sua existência assim — o espetador toma partido por um dos lados contra o outro e, ao cabo de uma hora, sente que viveu. Não aprendeu nada, mas existiu. Eu prefiro ter esse tipo de sensações visitando uma exposição ou discutindo determinados temas, até mesmo sonhando. Tenho necessidade de sentir a paixão, de sentir que existo.

Está em Portugal há já quase dois anos. Viver no nosso país dá-lhe alguma inspiração em especial? Quais são as suas fontes de inspiração?
Portugal dá-me uma fonte de inspiração especial. As viagens são sempre uma fonte de inspiração. Quando nos instalamos numa cidade diferente, ainda mais num país diferente, há sempre três aspetos marcantes. Vivi maioritariamente em Inglaterra durante a minha carreira; depois acabei o futebol e fui para Barcelona. Agora estou em Portugal, amanhã poderei estar não sei onde. Mas há sempre três fases. A primeira é a descoberta da língua; no início, não percebemos grande coisa e gosto muito quando ainda estamos nessa fase da incompreensão — é algo além da língua, aprendemos a ver as coisas de outra maneira. Tentamos compreender olhando nos olhos, ver os gestos, perceber a atitude. Depois verificamos que a realidade não é muito diferente daquilo que tínhamos percebido antes e torna-se menos interessante. Há essa ligação através da língua. Depois há a fase em que chegamos a um país e é tudo exótico. Essa sensação dura entre seis meses a um ano. Depois do exotismo, vem a realidade e temos de perceber se essa realidade nos faz chegar a algo de novo e mais profundo. Se sentimos algo de forte, ficamos; se achamos que não, está na altura de partimos outra vez. Mas isso, na minha perspetiva, e sei que sou um privilegiado, porque há quem não tenha escolha e eu tenho a sorte de a ter. Foi também por isso que escolhi fazer coisas que me permitissem viver e viajar. Jogar futebol e sonhar. As pessoas devem encontrar um lugar que as inspirem. Para mim, a atitude é a aura.

Aqui, o futebolista usa um Hautlence Destination 04.  © Paulo Pires

Aqui, o futebolista usa um Hautlence Destination 04. © Paulo Pires

Também se pode falar de aura mecânica na alta-relojoaria. Os relógios são esculturas mecânicas que também se inspiram em diversas artes. Qual a sua ligação com a relojoaria antes da Hautlence e como é que a associação pode ter mudado essa perceção?
Já gostava de relógios, mas entretanto surgiu a Hautlence e foi graças à Hautlence que descobri o que se fazia verdadeiramente na relojoaria. Percebi que antes era um apaixonado por relógios, mas que não sabia grande coisa sobre o assunto. A ligação à Hautlence fez-me desligar de tudo o que eu gostava anteriormente nos relógios, daquilo que eu procurava num relógio. Os relojoeiros são loucos geniais, que procuram constantemente maneiras diferentes de descrever e de escrever o tempo. São geniais, porque quando descobrem uma solução, vão logo à procura de outra. Continuam na sua busca permanente, sempre à procura de um modo especial de descrever o tempo. E depois, além da mecânica, há o design, a forma de colocar o conteúdo em cena. Quando comecei a trabalhar com a Hautlence, quis partir à descoberta de tudo o que estava ligado aos relógios. Fui visitar mesmo o local onde se fundem os metais das caixas e vi o que fazem os artesãos, desde o tipo que faz a montagem até ao que faz a regulação, passando por aquele que lima as peças. É o perfeito equilíbrio. Para mim, foi importante ter ido ver toda essa cadeia. Vemos gente que trabalha em peças que nem sequer estão à vista porque ficam completamente dentro do mecanismo e poderia dizer-se que não nos importamos porque não as vemos — mas elas estão lá. Vi todas as etapas de fabrico e vi gente completamente obcecada pelo tempo…

E o que é o tempo?
O tempo é a vida e a morte, a questão eterna. É o tempo que passa ou somos nós que passamos? Atravessamos a vida ou estamos simplesmente no meio das coisas e é o tempo que decide? Acho que a indústria relojoeira é interessante porque traz criatividade e meios que permitem a loucos geniais exprimirem-se, como acontece com a pintura. Interessa-me o modo como surgiu o tempo. Eu acho que a ideia do tempo foi criada com a economia. Quem decidiu a divisão do tempo, que um minuto era um minuto e que uma hora era uma hora? O que temos por certo é o facto de que o sol se levanta e que depois se põe…

A Hautlence tem por divisa o lema «Cross the Line». Como é que a vossa parceria surgiu?
Há uma linha, e depois há o que somos em estado animal e há o que está do outro lado. Incitamos aqueles que ainda não o fizeram a cruzar a linha. Para mim, «Cross the Line» é regressar ao estado animal — é um regresso ao passado, um voltar atrás, mas no sentido mais nobre e puro. E a evolução do homem é um pouco isso. Picasso afirmava que tinha precisado de 20 anos para se tornar adulto e de 60 anos para se tornar uma criança. E depois de termos vivido tudo o que temos a viver, aí recuperamos toda a espontaneidade; porque quando somos jovens somos ambiciosos e pretensiosos, passamos um pouco ao lado do que é importante na vida. A frase de Picasso significa que lutámos durante 60 anos para chegarmos ao estado mais puro. Há um movimento de pintura de que gosto muito. Pintores que, em estado adulto, procuram pintar com a espontaneidade que temos quando estamos na infância. No outro dia, fui à escola da minha filha, que tem três anos; vi algumas pinturas de crianças da classe dela e perguntei-me: quando é que conseguirei fazer isto? Porque perdemos a inocência. Por vezes, pinto com os olhos fechados. É o que há de mais belo. A sensação. Damos demasiada importância à vista. Temos de dar mais importância aos outros sentidos.

Ofereceria um Hautlence ao seu filho? A transmissão de um relógio de pai para filho é uma espécie de rito de passagem…
Não gosto de dar nada! Estou a brincar. Sim, seria uma maneira de tentar ser eterno. Tenho um relógio que descreve o tempo, estou velho, vou morrer e dou-o ao meu filho. Digo-lhe: vê como o relógio perdura. O tempo continua e eu também. Mesmo que eu deixe de existir, o relógio continua a funcionar e é um bocado de mim que também continua.

Hautlence

À esquerda: Hautlence Invictus Morphos (edição limitada a 250 exemplares); à direita: Hautlence Vortex Primary (edição limitada a 18 exemplares). © Hautlence

Enquanto artista, como se processou a criação dos dois exemplares da Hautlence que têm a sua assinatura? Para já, são conhecidos dois, o Morphos Invictus e o Vortex Primary.
Estamos a trabalhar em mais modelos, mas esses são os dois conhecidos. O Morphos Invictus representa uma borboleta, que vive somente durante 24 horas — e o conceito do relógio anda à volta da metamorfose da borboleta. Morphos é borboleta, a palavra metamorfose é muito aproximada. Representa a eternidade, o eterno retorno. A metamorfose de tudo, da vida de todos os dias, de cada ideia, da constante evolução. Quando alguma coisa acaba, é para se transformar noutra coisa. Gosto muito do azul e, a partir da ideia de metamorfose, escolhi o azul para desenvolvermos as asas da borboleta no mostrador. Quanto ao Vortex, certa vez encontrei num programa de televisão um escultor francês chamado Cesar, e ele tinha um relógio estriado, com umas barras. Gostei da parte estética, da ideia de se estar prisioneiro do tempo. Parti desse conceito e também das cores primárias, a partir das quais há cinco mil cores. A ideia de ser prisioneiro do tempo magnificada através de milhares de cores a partir das cores primárias. É belo imaginar os milhões de tons de cor que existem. Para mim, a pintura é a pintura por si, as cores. Não é obrigatório que represente o que quer que seja. A pintura é a cor, o gesto, o movimento.

A pintura é a sua forma de arte preferida? Porque não a escultura e a arquitetura?
Gosto muito da escultura. A escultura é o toque, algo de sensual. Devia ser obrigatório tocar nas esculturas — os originais deviam ter uma cópia ao lado que nós pudéssemos tocar. Os cegos desenvolvem outros sentidos, e, para eles, o toque é essencial para sentirem um objeto. E, claro, o relógio também é uma escultura.