Histórias, Opinião

CRÓNICA: O Tempo do Universo

prague astronomical clock

Em Praga, no centro da cidade, há um relógio que contabiliza o ritmo do universo há séculos. Em checo, chama-se Orloj a uma das principais atrações da cidade, a um dos símbolos do país.

Crónica originalmente publicada no número 59 da Espiral do Tempo (verão 2017)

 

Penso na primavera de 1410. O rio Moldava corre devagar. À mesma velocidade, os turistas atravessam a Ponte Carlos, continuam depois pela rua Karlova, dirigem-se para a Praça da Cidade Velha.

O sol de 1410 seria igual a este? Como luziria a sua incandescência, como abrandaria na copa das árvores que ocupavam o lugar daquelas que, hoje, abrigam casais deitados na relva dos parques? Será que o rio Moldava corria com o mesmo vagar? Existem as descrições desse tempo, podemos lê-las, falam do sol, da sombra, do rio, mas será que esses adjetivos significavam o mesmo que os adjetivos de agora?

Em 1410, inaugurou-se o relógio astronómico que está na Praça da Cidade Velha. Mais de seiscentas primaveras passaram por ele. Muito do que é hoje não existia nesse início. O mostrador do calendário e as esculturas góticas que envolvem o relógio foram acrescentadas em 1490. As figuras móveis dos apóstolos que, à hora certa, fazem uma dança circular diante de duas janelas que se abrem automaticamente, foram adicionadas no século XVII. Existia, claro, o próprio relógio, com o seu mostrador astronómico: o fundo representa o planeta Terra e o céu; os quatro elementos móveis principais representam o sol, a lua, um anel zodiacal interno e outro externo.

Enquanto estamos aqui, os turistas estão lá, diante da parede sul da Câmara Municipal da Cidade Velha, diante do relógio. Aguardam a hora certa. Alguns montaram o tripé, querem fotografar o relógio com o máximo de definição possível. Outros esticam o braço, viram a máquina ou o telefone na sua própria direção e fotografam-se com o relógio sobre o ombro. Há ainda outros que, à vez, fazem poses em frente ao relógio. Os que esperam para tomar o seu lugar, olham desinteressados para essa pose artificial, para esses sorrisos que se convocam e se desfazem. Quando chega a sua vez, fazem o mesmo que os anteriores.

Quem fotografa escolhe o instante que paralisa. O tempo passará apenas para quem está de fora, para quem olhar a fotografia. Talvez consiga ver algum detalhe diferente sempre que a analisar mas, no interior da fotografia, o tempo permanecerá parado. O sorriso que existiu continuará.
Quando chegar a hora certa, todas as máquinas de fotografar e de filmar vão estar apontadas para o relógio. Os apóstolos, circunspectos, rígidos, sem articulações, vão fazer a sua dança mecânica ao som de um sino pouco musical, monótono, que marcará no ar e nos ruídos da praça uma hora que os turistas transportarão para todos os seus fusos horários.

Em 1410, quem poderia imaginar esta multiplicação e desmultiplicação do tempo? A primavera, o sol, a sombra e o rio Moldava parecem indiferentes a tudo isso. Apesar de contemporâneos deste cruzamento, parecem desconhecê-lo com a mesma naturalidade que o terão feito em 1410. Imagino um relógio que representasse todos esses tempos, mas concluo que talvez essa máquina já exista.

À margem de dúvidas, fechado nas suas certezas, enquanto estamos aqui, o relógio astronómico está na Praça da Cidade Velha. Segue estrelas, conta horas, seguro de que o universo se acerta pelos seus ponteiros.