Histórias, Opinião

PONTO DE VISTA – Writer’s block de verão

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Diz-me a indispensável Wikipedia, para a qual contribuí recentemente com 10 euros (recomendo vivamente que façam o mesmo), que o chamado “writer´s block” é uma “condição principalmente associada à escrita, na qual um autor perde a sua capacidade de produzir um novo trabalho ou experimenta uma desaceleração criativa”.

Pois no momento em que, no meio de lado nenhum, e a umas boas dezenas de quilómetros de coisa alguma, me proponho escrever a crónica desta semana, é exatamente o que sinto. Será o efeito da morna brisa de verão conjugada com as águas cristalinas e frescas da convidativa piscina mesmo aqui ao lado? Ou será a influência da sombra amena da oliveira sob a qual protejo o ecrã do meu sempre fiel Mac…

Pensando bem, até poderá ter sido o artigo que escrevi recentemente sobre o Rolex Daytona “Paul Newman”, e que deverá ser publicado na próxima edição da Espiral do Tempo - a sexagésima edição de uma publicação a quem a cultura da relojoaria mecânica em Portugal deve muito e que foi fundada pelo saudoso Pedro Torres.

Quanto ao artigo sobre as variantes com mostrador exótico do cronógrafo da Rolex, posso dizer que me deu verdadeiramente água pela barba. É que as sete referências de quatro dígitos deste modelo, produzido entre 1963 e 1987, contam com pelo menos outras sete variantes de mostradores “Newman”, e incluem variações de detalhe que, como afirmou o meu amigo Silas Walton do siteA Collected Man”, fazem do colecionismo deste modelo, e da marca em geral, algo muito parecido com a filatelia.

Se associarmos esta característica ao facto de não existir nenhuma literatura especializada capaz de dar respostas concretas sobre o que é facto e sobre o que é ficção (refiro-me aos chamados ‘franken watches’, apenas parcialmente genuínos e mostradores possivelmente alterados), então o exercício de dar alguma base de referência credível a quem ambicione a compra de um destes modelos vintage, torna-se uma verdadeira dor de cabeça e uma tarefa de pesquisa capaz de esgotar o mais empedernido arquivista ou bibliotecário.

Nem a versão em miniatura da bíblia de Pucci Papaleo “Ultimate Rolex Daytona” (a versão normal com impressão em alta definição custa nada menos que 4000€ ) me valeu, já que a ampla seleção de modelos constante nesta obra exemplar escrita por Paolo Gobbi, apenas contempla versões sobre as quais não restam dúvidas quanto à sua absoluta originalidade.

A credibilidade de todas as outras variantes terá de ficar ao critério da opinião muitas vezes contraditória de colecionadores e estudiosos, e nem mesmo a literatura de dezenas de catálogos dos mais diversos leiloeiros especializados é capaz de fazer luz sobre a miríade de questões que surgem uma após a outra.

Aliás, esta é uma realidade transversal a um número significativo de marcas de relojoaria suíça, cuja produção apenas começou a ser devidamente catalogada a partir da década de 70. Como resultado deste caos arquivístico, é hoje bastante difícil garantir a absoluta originalidade de centenas de modelos que vão aparecendo no mercado, e sobre as quais muitas vezes não resta outra opção senão a de lhes atribuir a designação de exemplares “provavelmente únicos”.

Exemplos de fabricantes como os da Patek Philippe ou da Breguet, que mantêm desde a sua génese um arquivo exemplar do qual se extraem anualmente milhares de certificados de autenticidade, são apenas um sonho para outros fabricantes, atuais ou já extintos.

Colecionar relógios destas e de outras marcas torna-se assim um verdadeiro puzzle do qual vão aparecendo, de tempos a tempos novas peças, que nem sempre sabemos onde irão encaixar.

Mas onde ia eu, antes de me perder por estas idiossincrasias da indústria relojoeira suíça….? Ah, pois… já me recordo! Procurava inspiração para a minha crónica desta semana. Definitivamente, comigo e com o resto do país a banhos, não me atrevo a produzir o que quer que seja sob o risco de pensarem que passo a texto a primeira coisa que me vem à cabeça.

Convido-os, pois, a tentarem a vossa sorte com a minha próxima crónica. Poderá ser que nessa altura a ociosidade natural deste período estival já tenha deixado de se fazer sentir, e este insistente ‘writers block’ perdido todo o seu incómodo efeito.

Que maçada… vou dar um mergulho…