História

PONTO de VISTA: a sedução do papel

destque

Para quem acompanha o dia a dia da relojoaria mecânica e dos meios de comunicação nacionais e internacionais que a divulgam, o anúncio já esperado do lançamento da primeira edição em papel dos nossos colegas norte americanos da Hodinkee é, indiscutivelmente, a notícia do momento.

Segundo os editores do site, que conta com investidores como John Mayer, Ashton Kutcher e a Google Ventures, “o duplo objetivo da revista Hodinkee é o de oferecer aos seus leitores algo novo e ao mesmo tempo ganhar novos adeptos para o estilo de vida Hodinkee”.

A estratégia adotada refletiu-se no lançamento de uma edição limitada da revista com capa negra, e cujos 500 exemplares esgotaram num ápice. A versão não limitada da revista, neste caso com capa cinza, mantém-se à disposição de quem a queira adquirir. Os canais de comercialização passam, por agora, exclusivamente pela loja online do site, mas a Hodinkee irá disponibilizar a revista a parceiros como a Soho House e a cadeia de hotéis Intercontinental.

Segundo Stephen Pulvirent, um dos editores do site, “enquanto que as publicações em papel estão a perder fôlego no mercado, a Hodinkee continua a acreditar que produtos premium em papel são hoje mais relevantes do que nunca”.

Um discurso que se adequa claramente à posição que a Hodinkee ocupa hoje no mercado e que parece esquecer os anos em que constantemente promoveu a superioridade do online em relação ao papel. Um discurso que parece esquecer que muito antes deste site ser o que é, já publicações como a Espiral do Tempo traçavam um percurso inovador ao proporem um suporte em papel de grande relevância para os apreciadores da bela relojoaria e o setor da relojoaria mecânica em geral.

A diferença será o percurso inverso percorrido, onde o online é o ponto de partida que dá origem ao print e que se apoia sobre o trabalho que este último desenvolveu ao longo de décadas. Uma estratégia que apoia a publicação em papel numa base de dados de leitores fieis, e cuja génese está solidamente assente no digital onde o hábito e a confiança de adquirir produtos online é já um dado adquirido.

Consequentemente, é a métrica de ferramentas como o Google Analytics que dão as respostas necessárias quando se trata de saber preferências, tendências ou qual o número de exemplares a encomendar à gráfica para cada edição.

O facto é que, sem as edições em papel, o mundo estaria hoje preso a uma esfera digital que continua a apresentar dissonâncias e desvantagens, apesar do esforço de algumas empresas tecnológicas em demonstrar o contrário. É que a enorme acessibilidade dos meios de comunicação digitais gera, hoje, as mais variadas distrações que muitos leitores consideram intrusivas e mesmo irritantes, raiando em alguns casos uma verdadeira invasão da privacidade de cada um.

Há quem afirme que um texto em papel é mais persuasivo do que qualquer conteúdo digital. Existem mesmo estudos neurológicos que indicam que o cérebro humano processa os meios de comunicação físicos de forma mais eficaz do que os digitais, e é capaz de cativar o leitor durante um período de tempo mais dilatado. A prova, é que a resposta emocional do leitor, verificada nestes estudos, parece ser substancialmente maior no papel do que no digital.

A tendência atual, tal como demostra a excelente iniciativa da Hodinkee, parece, pois, apontar para uma fusão perfeita entre o online e o offline, anulando as vantagens e desvantagens de ambos os meios.

No entanto, uma outra questão parece começar a não suscitar qualquer dúvidas. O produto premium na era digital é, e será, o papel. Um campeonato onde a Espiral do Tempo já anda há uns bons anos e onde se tem distinguido como primus inter pares.

A grande vantagem e impacto da iniciativa da Hodinkee, como meio de comunicação especializado global, é, igualmente, o de recordar às cabeças iluminadas dos departamentos de comunicação das mais diversas marcas de alta-relojoaria que o print é indiscutivelmente o suporte de preferência quando a qualidade é o argumento principal. Afinal, o mesmo critério com que os nossos amigos Suíços produzem os seus relógios.

Há aqui efetivamente algo que faz profundamente sentido…