História, Relógios destaque

ENTREVISTA EXCLUSIVA – Wilhelm Schmid: petrolhead

Wilhelm Schmid destaque

EdT59/ Diz-se que a vida é uma viagem.
E que viagem incrível foi a que Clärenore Stinnes viveu! Aos 26 anos, esta jovem alemã tornou-se na primeira mulher a dar a volta ao mundo de automóvel – que ela própria conduziu. Foram precisos cerca de dois anos, mais precisamente 760 dias, para atravessar 23 países com o seu Adler Standard 6 equipado com um motor de seis cilindros em linha. 46.758 quilómetros depois da sua partida, chegou a Berlim em segurança no dia 24 de junho de… 1929. E parece-me que, voltando à sua infância, ninguém da sua família terá previsto isto. Tal como nada faria prever que o filho de um comerciante germânico de automóveis, formado para ser mecânico toda a sua vida, se tornaria, um dia, no líder de uma das mais reconhecidas marcas de alta-relojoaria. Senhoras e senhores, um grande aplauso para Herr Wilhelm Schmid, atual chief executive officer da A. Lange & Söhne!

Perguntas: Hubert de Haro

Entrevista originalmente publicada no número 59 da Espiral do Tempo

Poucas pessoas sabem que um dos seus nicknames é ‘petrolhead’. Fale-nos um pouco da sua paixão por carros…
Sou filho de um comerciante de carros. Houve uma altura na minha vida em que os carros eram importantes. Sou também mecânico de profissão. A minha primeira carreira foi como mecânico de carros. Depois, regressei à universidade. Sou facilmente levado por carros e tudo o que tenha a ver com esse mundo. A minha mulher sempre me disse que eu estava a gastar todo o meu dinheiro em relógios: sempre tive carros e relógios. Aos 17 anos, comprei o meu primeiro carro, que ainda tenho, e o meu primeiro relógio, que, infelizmente, foi roubado.

A Espiral do Tempo viajou até Villa d’Este, nas margens do Lago Como, em Itália, no âmbito do Concorso d’Eleganza Villa d’Este, a convite da A.Lange & Söhne. © Espiral do Tempo

A Espiral do Tempo viajou até Villa d’Este, nas margens do Lago Como, em Itália, no âmbito do Concorso d’Eleganza Villa d’Este, a convite da A.Lange & Söhne. © Espiral do Tempo

Trata-se de uma paixão específica por carros clássicos, semelhantes aos que podemos encontrar aqui, no Concorso d’Eleganza Villa d’Este?
Eu sei o que me atrai e sei também o que parece agradável, mas não me atrai. Normalmente, se tiver de escolher entre um carro mais leve de dois lugares e um carro mais pesado e poderoso, irei optar pelo carro de dois lugares num rácio entre pouco peso e potência razoável.

Quais as suas expetativas em relação a este sexto ano de parceria entre a A. Lange & Söhne (ALS) e o Concorso d’Eleganza?
Penso que as pessoas já não questionam a nossa presença. Apercebemo-nos de que 60% das pessoas que vêm aqui com os seus carros regressam todos os anos. Com o tempo, vamos conhecendo-os: há muito em comum entre colecionadores de carros e colecionadores de relógios. Por isso, acredito que é uma parceria que encaixa na perfeição com a nossa marca. Além disso, todos estes carros são concebidos à mão, todos eram muito inovadores no seu tempo, à frente no design, na linguagem e nas técnicas. Na sua grande maioria, são carros de marcas com uma grande história. Se pusermos de parte os carros e incluirmos a ALS, é exatamente aquilo que somos. Nós concebemos sempre elementos extra: um turbilhão que pode parar para ajustar o tempo, um contador de minutos num cronógrafo que salta de forma precisa, um calendário perpétuo que muda todas as respetivas funções às 24 horas. Todas estas pequenas coisas são quase equivalentes a um motor de 12 cilindros.

A Espiral do Tempo viajou até Villa d’Este, nas margens do Lago Como, em Itália, no âmbito do Concorso d’Eleganza Villa d’Este, a convite da A.Lange & Söhne. © Espiral do Tempo

A Espiral do Tempo viajou até Villa d’Este, nas margens do Lago Como, em Itália, no âmbito do Concorso d’Eleganza Villa d’Este, a convite da A.Lange & Söhne. © Espiral do Tempo

O Maserati A6G/2000 de 1956 da coleção Ballion impressionou pela pátina que a sua carroçaria adquiriu ao longo dos anos. Estamos apenas a um passo de distância da tendência crescente dos relógios vintage. Sente-se inspirado pelos relógios vintage?
Nós temos uma história interrompida: relógios de bolso, comunismo e relógios de pulso. Todos sabemos que os primeiros relógios [de pulso] ALS têm vindo a sair-se muito bem em leilões. Por exemplo, o Zeitwerk Handwerkskunst foi leiloado por duas vezes ao preço de retalho em apenas quatro anos – o que significa uma valorização de 25% por ano. Se eu tivesse a oportunidade de adquirir um Lange 1 de 1994 [ano da primeira coleção de relógios de pulso da ALS], bastaria darem-me um preço, porque estou preparado para pagar por ele, tendo em conta que é um relógio tão raro. Acredito que, em dez anos, muitos dos relógios desta nova era se irão destacar.

E em relação aos relógios vintage típicos?
Sou muito claro: um relógio tem de trabalhar. E aqui tenho limites. Se me apresentarem um relógio antigo, oxidado e que já não funciona, não compreendo a mensagem. Se é um relógio antigo em que se percebe alguma corrosão no mostrador e nos ponteiros, mas o movimento está perfeito e lubrificado, não tenho qualquer problema com isso. 

Zeitwerk Handwerkskunst (Ref. 140.048), Lange 1 (Ref. 101.001), Datograph (Ref. 403.035) © A. Lange & Söhne

Zeitwerk Handwerkskunst (Ref. 140.048), Lange 1 (Ref. 101.001) e Datograph (Ref. 403.035) © A. Lange & Söhne

Considera que há espaço nesta competição para um Trabant da Alemanha de Leste?
(Risos) Não me parece… talvez seja falta de imaginação, mas não. No entanto, há uma marca do comunismo (Rússia): um Tatra que tem aqui o seu legítimo lugar. É um carro muito estranho, um modelo das primeiras linhas de produção, com o motor atrás. Nada convencional. E, já agora, havia em Dresden um famoso fabricante de carroçarias, a Gläser-Karosserie, que fez carros ingleses e da Porsche, mas isto foi antes da Segunda Guerra Mundial, não depois.

Neste contexto histórico da reunificação, lançar uma marca germânica de alta-relojoaria parece mesmo ideia de génio. Seria atualmente a favor da ALS enquanto marca de relojoaria 100% alemã?
Isso não iria funcionar, porque as braceletes seriam feitas a partir de pele de aligátor, os rubis seriam da Suíça… Eu acho que há uma mal-entendido em relação à palavra «manufatura». As pessoas associam manufatura à perfeição. Mas, na verdade, tal não significa necessariamente que tudo tenha de ser feito por nós. Se começarmos a produzir vidro, serão precisos séculos para ganhar a experiência com que podemos hoje contar dos melhores fornecedores do mercado. O nosso foco é o movimento e o design de A a Z. Se pudermos contar com um fabricante de caixas perfeitas para nós, ficamos muito satisfeitos. Nunca mentimos em relação a este aspeto: focamo-nos no movimento e não nos mostradores, nos ponteiros, nas caixas ou nas braceletes. As pessoas devem saber o que é que produzimos e o que é que não produzimos. A nossa equipa de engenheiros contacta diretamente com os nossos fornecedores para garantir a qualidade do que compramos. Pense nisto: nós produzimos entre 5.000 e 6.000 relógios por ano. Se fôssemos comprar as máquinas e contratar as pessoas para produzir caixas internamente, demoraríamos cerca de duas semanas. O que iriam eles fazer nas outras 50 semanas do ano?

Pormenor do Datograph UP/down © A. Lange & Söhne

Pormenor do Datograph UP/down © A. Lange & Söhne

Algumas prestigiadas casas de relojoaria suíça desenvolveram o seu próprio certificado de qualidade. Seria adequado para a ALS surfar na forte imagem mundial da «Deutsch Technology»?
Já temos isso: chama-se A. Lange & Söhne. Todos sabem o que defendemos. Não preciso de fontes externas ou uma explicação de fora para aquilo que nós fazemos. Nunca compreendi o sistema de que precisamos de alguém de fora para certificar o nosso trabalho. Uma marca é uma promessa para os nossos clientes, nada mais, nada menos. E o momento da verdade surge quando eles compram o nosso produto; e, então, temos de viver com a nossa promessa. Nenhum certificado nem fontes externas nos irão ajudar perante demasiadas promessas e atrasos.

Numa entrevista ao nosso colega Carlos Alonso, o próprio Wilhelm Schmid disse que não hesitaria em cortar a produção da ALS para garantir a exclusividade aos vossos clientes.
Sim. Felizmente não estamos nessa situação, porque posso desviar recursos. Mas acredito que hoje há demasiados relógios neste mundo. A maioria desses relógios não são relevantes, distintos o suficiente. Não quero seguir esse caminho. Temos de ser exclusivos, e a exclusividade não advém do excesso do fornecimento, mas antes do subfornecimento. Se esta é a estratégia a longo prazo, é melhor trabalhar nela, mesmo que doa.

Datograph UP/Down (Ref. 405.035), 1815 Chronograph (Ref. 414.028) © A. Lange & Söhne

Datograph UP/Down (Ref. 405.035) e 1815 Chronograph (Ref. 414.028) © A. Lange & Söhne

Existem número mágicos de produção estabelecidos para os próximos anos, sabendo que necessariamente terão de acompanhar a economia? Deve ser bastante complicado…
E é muito complicado. Quando vemos as nuvens a aproximarem-se, é necessário agir rapidamente. Não estou a dizer que, nos dias bons, não devamos colher. Estou apenas a dizer que devemos estar preparados quando vemos as nuvens a chegar.

Irá manter a produção em 2017?
Temos mais relógios complicados em produção este ano, em relação ao ano passado. Por isso, ficaria muito satisfeito se conseguisse manter os números de 2016, mas é um grande desafio. Não tem nada a ver com o mercado, mas com a capacidade de produção que está por trás das nossas novidades.

Wilhelm Schmid, CEO da A. Lange & Söhne. © A. Lange & Söhne

Wilhelm Schmid, CEO da A. Lange & Söhne. © A. Lange & Söhne

Como reage ao crescente de vendas no digital de algumas marcas do Grupo Richemont, nomeadamente na plataforma do grupo Net-à-Porter e Mr. Porter?
Vou responder como responderia um pescador. Se quer pescar, é preciso saber qual é o peixe que quer, depois preparar o isco certo e compreender onde está o peixe. Se não fizer nada disto, então não irá pescar nenhum peixe. Mas se o nosso peixe quer comprar relógios on-line (!), então não poderemos dizer que não, porque simplesmente não estamos a pescar no local onde o peixe está. Fizeram-me esta mesma questão há sete anos, quando iniciei funções. Continuo a responder que preferiria seguir [o digital] tarde demais do que muito cedo.

Vamos imaginar que os acionistas da Richemont o abordam e lhe propõem 100 milhões de euros extra para investir. Quais seriam as suas prioridades?
Acho que nós temos tudo aquilo de que precisamos para fazer desta uma marca de sucesso. Sou um grande fã de usar escassos recursos, porque, de forma inesperada, estimula a força e energia desses mesmos recursos. Se me dessem 100 milhões, tenho a certeza de que não faria as coisas de modo muito diferente daquele que estamos a fazer.

Da esquerda para a direita: Walter Lange, bisneto do fundador da marca (Ferdinand Adolph Lange), Angela Merkel, chanceler alemã, Stanislaw Tillich, primeiro-ministro do estado germânico da Saxónia, e Wilhelm Schmid, CEO da A. Lange & Söhne. © A. Lange & Söhne

Da esquerda para a direita: Walter Lange, bisneto do fundador da marca (Ferdinand Adolph Lange), Angela Merkel, chanceler alemã, Stanislaw Tillich, primeiro-ministro do estado germânico da Saxónia, e Wilhelm Schmid, CEO da A. Lange & Söhne. © A. Lange & Söhne

Há sete anos que lidera a A.Lange & Söhne. Qual a melhor memória que guarda?
Na verdade, guardo muitas memórias. Mas nunca esquecerei o dia em que Johann Rupert, Bernard Fornas e Angela Merkel inauguraram a nova Manufatura. O dia 26 de agosto de 2015 ficará para sempre na minha memória. Não faz ideia do quão stressante e recompensador foi. Depois, há outros momentos, como o lançamento do primeiro Datograph Up & Down, porque foi o primeiro relógio no qual realmente participei. Tornou-se mesmo no meu relógio pessoal.