Histórias

HISTÓRIAS – Viajantes do Tempo

Viajantes no tempo

A relojoaria sempre esteve na vanguarda da exploração — tanto no acompanhamento de expedições que desbravaram novas fronteiras como no desbravamento de novas soluções técnicas na arte de medir o tempo. Mas houve muitos protagonistas históricos e fundadores de marcas relojoeiras que foram ainda mais além, assumindo eles próprios o papel de pioneiros, colonos e povoadores.

A revolução dos transportes e da comunicação transformou o mercado de luxo num conceito global ao mesmo tempo que promoveu marcas exclusivas ao estatuto de ícones populares: hoje em dia, há logótipos que são imediatamente reconhecíveis em qualquer parte do mundo — mesmo que representem produtos aspiracionais ao alcance de uma escassa minoria.

No caso da alta-relojoaria, a Internet tem disseminado a sua fama e prestígio a uma velocidade vertiginosa — ajudando novas marcas e empresas a estabelecer rapidamente uma reputação quase lendária, enquanto os conglomerados do luxo são autênticos grupos tentaculares de vocação multinacional com departamentos em todos os continentes e praticamente todos os países. Como se pode depreender, nem sempre foi assim e nos primórdios da relojoaria foi necessário conquistar novos públicos e mercados praticamente a pulso; muitos dos fundadores das grandes marcas que se tornaram pilares da indústria relojoeira tiveram de ser autênticos pioneiros na mais lata acepção da palavra: desenvolveram produtos, inovaram tecnicamente, criaram empresas e depois lançaram-se à estrada para apresentar as suas invenções, participar em exibições universais, convencer representantes e formar sucursais.

Isso também acontece no presente, sobretudo com os relojoeiros independentes que utilizam argumentos pessoais para fazer frente à voraz máquina comercial e publicitária dos colossos da relojoaria. Max Büsser, Vianney Halter, Kari Voutilainen, Tim e Bart Grönefeld, Morten Linde e Jorn Werdelin, Stepan Sarpaneva, Svend Andersen e tantos outros elementos da Academia Relojoeira de Criadores Independentes (AHCI) precisam mesmo de fazer pela vida e pelas marcas que quase invariavelmente ostentam o seu próprio nome, transformando-se em nómadas com viagens constantes e jantares com colecionadores por esse mundo fora. Não é muito diferente do que fizeram os seus ancestrais nos séculos XVIII, XIX e XX — mas, nessa altura, as condições eram muito mais duras, o processo era muito mais lento, os resultados eram muito mais aleatórios. Era o tempo dos heróis, que tinham de lidar pessoalmente com os caprichos de reis ou ricos, com a precariedade dos meios de transportes, com costumes tão diferentes que originaram incidentes diplomáticos, com todos os perigos inerentes a outras eras e tão difíceis de compreender à luz da sociedade contemporânea. O maior ou menor espírito de aventura de cada um deles e a abrangência geográfica das suas expedições teve influência direta no sucesso comercial e hoje em dia ainda há resquícios dessa exploração relojoeira em séculos passados, com algumas marcas a manterem um peso histórico em determinados países que é muito superior comparativamente com outros mercados.

Patek Philippe (Antoni Norbert Patek e Adrien Philippe), Jaeger-LeCoultre (Edmond Jaeger e Antoine LeCoultre), Vacheron Constantin (Jean-Marc Vacheron e François Constantin), Audemars Piguet (Jules Louis Audemars e Edward Auguste Piguet) ou Girard-Perregaux (Constant Girard e Marie Perregaux) são marcas bem conhecidas cujo nome assenta maioritariamente na junção de apelidos de relojoeiros que, cada qual e como tantos outros, deram novos mundos ao mundo da relojoaria, muitos deles com histórias de vida que desafiam a imaginação.

Mundo de aventuras

O maior pioneiro, porque considerado o maior vulto da história da relojoaria com todas as suas invenções, foi Abraham-Louis Breguet — cuja fama o transportou para as principais cortes europeias depois de os seus próprios ancestrais terem sido escorraçados de França para a Suíça pelo simples facto religioso de serem protestantes. Breguet regressaria a Paris e esteve mesmo envolvido na Revolução Francesa, disfarçando o revolucionário Jean-Paul Marat de velha mulher para escapar à turbe; a sua cliente Maria Antonieta, como se sabe, perdeu a cabeça. Já Antoni Patek foi um herói de guerra que sobreviveu a custo a uma viagem aos Estados Unidos que incluiu roubo!

Se houve muitos relojoeiros suíços que partiram à conquista de novas fronteiras para os seus produtos, vários fundadores de algumas das mais conhecidas marcas suíças vieram de fora. Antoni Patek era polaco. A International Watch Company foi fundada por um americano, Florentine Ariosto Jones, que viajou dos Estados Unidos para, em 1968, estabelecer a própria companhia em solo helvético; encontrou tanta resistência às suas intenções de estabelecer uma fábrica segundo premissas industriais (porque os locais queriam continuar a trabalhar em casa) que teve de ir para um canto da Suíça com a Alemanha (Schaffhausen). Hans Wilsdorf era alemão e fundou a Rolex em Inglaterra antes da passagem para Genebra, em 1919, e a criação de relógios que conquistaram o pico do Evereste e a profundeza das Marianas. Ferdinand Adolph Lange não foi para a Suíça, mas saiu de Dresden para reavivar, a uma hora de caminho, uma abandonada cidade de mineiros (que hoje em dia é o berço da alta-relojoaria alemã) com a fundação da A. Lange & Söhne e o fornecimento de cronómetros para o lendário barco de exploração Gauss — F. A. Lange foi não só um populador, mas também um explorador através das suas criações relojoeiras.

Quando nos recordamos que um pioneiro da aviação como Alberto Santos-Dumont deu nome a uma das míticas linhas relojoeiras da Cartier e constatamos a vida nómada de Jack Heuer para conquistar o mercado americano, é fácil entender que a relojoaria e os seus protagonistas estiveram intrinsecamente ligados ao desenvolvimento do mundo moderno: foram viajantes do tempo para conseguirem dominar o seu tempo. ET_simb

Crónica originalmente publicada no número 51 da Espiral do Tempo