Opinião

PONTO de VISTA – GPHG 2017: o rescaldo

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Após termos revelado aqui a lista dos vencedores da 17ª edição do Grand Prix d’Horlogerie de Genève, aqui ficam algumas impressões e notas finais decorrentes da cerimónia e do que se comentou nos bastidores.

Em Genebra

Foi mais uma fantástica noite no Théâtre du Léman, a segunda cerimónia do Grand Prix d’Horlogerie de Genève realizada no local até que o Grand Théâtre termine os trabalhos de restauro; o facto de ser um enorme espaço subterrâneo retira alguma espetacularidade à entrada dos protagonistas no acesso desde o nível da rua e a zona do tradicional cocktail também é mais exígua, mas trata-se de uma digna sala de espetáculo que proporcionou novamente um belo palco para os chamados Óscares da Relojoaria.

A entrada para o 'subterrâneo' Théâtre du Leman © GPHG

A entrada para o ‘subterrâneo’ Théâtre du Leman, menos glamorosa do que a do Grand Théâtre © GPHG

A cerimónia voltou a ser espetacular, de grande impacto visual e de engrandecimento da indústria relojoeira… mesmo que muitas marcas (e grupos) relevantes não tivessem querido associar o seu nome ao evento através da participação na eleição. E esse facto foi abordado em vários discursos ao longo da noite.

Théâtre du Léman

Perspetiva do Théâtre du Léman © GPHG

Primeiramente, convém celebrar os participantes – e, num evento fortemente promovido pela cidade de Genebra, foram sobretudo marcas associadas a Fleurier no Val de Travers e uma marca italiana a sagrarem-se grandes vencedoras da noite. A Chopard tem a sua sede em Genebra, mas é a partir da sua manufatura L.U.C em Fleurier que elabora as suas principais criações relojoeiras e no total arrecadou dois galardões, incluindo o máximo; a Parmigiani Fleurier de Michel Parmigiani faz jus ao nome e está obviamente instalada na localidade; e o mestre Kari Voutilainen tem também um atelier na zona. Quanto à referida marca italiana, trata-se da Bvlgari; claro que pertence a um grande conglomerado de luxo internacional (a LVMH) e a sua parte relojoeira está fortemente enraizada na Suíça (noblesse oblige), mas é um histórico nome romano do universo da joalharia que está a dar cada vez mais cartas no mundo dos relógios.

Karl-Friedrich Scheufele © GPHG

Um ano depois, Karl-Friedrich Scheufele voltou a arrecadar o Grand Prix © GPHG

Um ano depois de ter recebido o galardão máximo da 16ª edição do Grand Prix d’Horlogerie de Genève pela obra-prima inaugural da sua marca Ferdinand Berthoud (nova marca mas ligada a um histórico nome da relojoaria), Karl-Friedrich Scheufele voltou a receber o troféu Aiguille d’Or (ou seja, ‘Ponteiro de Ouro’) pelo Chopard L.U.C Full Strike, de inovadora tecnologia acústica e promovido desde a categoria ‘Mecânica de Excepção’ (ganha pela genebrina Vacheron Constantin com o Celestia Astronomical Grand Complication 3600) até ao estatuto de melhor dos melhores. O outro prémio conseguido pela Chopard foi recebido pela outra face da marca, Caroline Scheufele, a irmã de Karl-Friedrich e co-presidente, graças ao Lotus Blanc na categoria de ‘Joalharia’. No seu discurso final de consagração, o habitualmente sempre fleumático Karl-Friedrich enviou uma mensagem para todos os outros que escolheram não estar presentes: “Talvez tenham medo de perder”.

Karl-Friedrich e Caroline Scheufele @ GPHG

Dupla de sucesso duplamente galardoada via Chopard: Karl-Friedrich e Caroline Scheufele @ GPHG

Jean-Christophe Babin, o enérgico CEO da Bvlgari que durante tanto tempo liderou a TAG Heuer, também colocou o dedo nessa ferida num dos seus dois discursos celebratórios – ganhou a categoria de ‘Relógio de Homem’ com o impressionante Octo Finissimo Automatic e depois a de ‘Turbilhão e Escape’ com o Octo Finissimo Tourbillon Skeleton, dois modelos que provam outras tantas coisas: que, perante a tendência geral para os relógios redondos, os relógios de forma sobressaem pelo seu carisma diferenciado; e que a Bvlgari roubou à Piaget o domínio e os recordes no setor dos relógios ultra-planos. “Venham participar”, apelou ele às outras marcas, tendo também dado uma achega à clara tendência neo-retro que vem marcando a relojoaria nos últimos tempos: “parem de abraçar ícones do passado e criem mas é novos ícones”. Tau!

Jean-Christophe Babin @ GPHG

Jean-Christophe Babin: sempre sem papas na língua @ GPHG

A Parmigiani Fleurier do mestre Michel Parmigiani impôs-se na categoria de ‘Fusos Horários’ com o Toric Hemisphères Rétrograde de mecânica desenvolvida pelo atelier de complicações Agenhor de Jean-Marc Wiederrecht e surpreendeu com o triunfo do Tonda Chronor Anniversaire na categoria ‘Cronógrafo’ – um belo cronógrafo rattrapante comemorativo que, no entanto, não se julgava capaz de bater os dois modelos dotados do movimento cronográfico AgenGraphe do mesmo Jean-Marc Wiederrecht: o Fabergé Visionnaire Chronograph Ceramic e o Singer Reimagined Track 1.

Michel Parmigiani @ GPHG

Michel Parmigiani somou dois troféus @ GPHG

Ora, logo que pus a vista em cima do Singer Reimagined Track 1, apresentado há escassos meses, fiz questão de enviar uma mensagem ao mestre Jean-Marc Wiederrecht dizendo-lhe que iria seguramente ser o Cronógrafo do Ano pela sua base técnica (o Agengraphe é mesmo um calibre inovador de bela arquitetura e rotor colocado entre o movimento e o mostrador que coloca precisamente o foco nas funções cronográficas) e estética… ganhou outras votações, incluindo aquela em que participámos na Polónia, mas não a do Grand Prix d’Horlogerie de Genève. Perante a incompreensão generalizada da crítica e algum sentimento de injustiça que ficou a pairar, pode haver uma justificaçãoo muito válida: o Fabergé e o Singer Reimagined, com o mesmo movimento AgenGraphe de base, dividiram muitos votos entre si e abriram caminho para a eleiçãoo do Tonda Chronor Anniversaire… de qualquer das formas, Jean-Marc Wiederrecht também ‘ganhou’ na categoria ‘Alta Complicação Mecânica para Senhora’ com o Lady Arpels Papillon Automate da Van Cleef & Arpels.

O Singer Reimagined Track 1 era o favorito à categoria de Cronógrafo © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

O Singer Reimagined Track 1 era o favorito à categoria de Cronógrafo © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Ao contrário de várias outras eleições de final do ano promovidas sobretudo por publicações da imprensa relojoeira, o Grand Prix d’Horlogerie de Genève tem as suas categorias vinculadas à própria iniciativa das marcas em se inscrever para ir a concurso, havendo muitas que optam por não participar. Ou seja, há muitos modelos que seriam dignos de ganhar qualquer uma das categorias, mas que simplesmente não foram levados a concurso pelas respetivas marcas. E um evento com tal pompa e circunstância merecia uma adesão total, mas já se sabe que a concorrência entre os grandes grupos de luxo e entre orgulhosas marcas é sempre complicada. Espera-se que o futuro seja mais abrangente nesse aspeto, mas entretanto quem vai beneficiando são as marcas de nicho e independentes de alta-relojoaria – que conseguem destacar-se no lote dos pré-selecionados e dos vencedores.

Grupos e independentes

Konstantin Chaykin e Kari Voutilainen, membros da Academia dos Criadores e relojoeiros Independentes, em concurso com poderosas marcas na categoria ‘Métiers d’Art’ © GPHG

Independentemente de ser de nicho ou independente, mesmo que a participação fosse total seria difícil impedir o sucesso do mestre Kari Voutilainen no departamento das artes decorativas. A sua marca Voutilainen somou mais um triunfo na categoria ‘Métiers d’Art’ com o Aki-No-Kure, de hipnótico mostrador decorado com a adaptação de técnicas ancestrais japonesas – sem esquecer todo o trabalho decorativo do movimento manufaturado. Tenho sido um grande admirador do trabalho do mestre finlandês baseado na Suíça (lá está, na zona de Fleurier…) e estava sentado ao lado dele e da sua mulher durante a cerimónia. Pressenti que fosse ganhar e tinha a câmara do iPhone apontada para ele antes do anúncio… o meu colega Ian Skellern, co-fundador do site Quill & Pad, capturou depois o momento em que Kari Voutilainen descia a escadaria rumo ao palco numa fotografia que muito me orgulha: lá estou eu atrás, o único de pé, a aplaudi-lo!

Kari Voutilainen e o aplauso da Espiral do Tempo @ GPHG

Kari Voutilainen e o aplauso da Espiral do Tempo @ GPHG

Outro aspeto que também me marcou no âmbito desta edição do Grand Prix d’Horlogerie de Genève foi a inclusão do carismático tenista francês Gael Monfils no elenco do júri, tendo entregue o troféu da categoria ‘Relógio Desportivo’ ao Ulysse Nardin Marine Regatta. Anualmente a organização convida sempre uma personalidade famosa noutras áreas que seja também um grande aficionado da relojoaria e Gael Monfils, que até reside em Genebra, foi o escolhido em 2017. Como jornalista de ténis e relógios, eu não poderia ter ficado mais contente com a sua presença e obviamente entrevistei-o no final do certame, depois de já ter falado anteriormente com ele sobre relojoaria em diversos torneios do circuito…

O tenista francês Gael Monfils entre membros do júri e representantes das marcas vencedoras © GPHG

O tenista francês Gael Monfils entre membros do júri e representantes das marcas vencedoras © GPHG

Gael Monfils chegou a ser embaixador da extraordinária marca de alta-relojoaria contemporânea De Bethune, fez recentemente uma masterclass na TAG Heuer e apareceu no Théâtre du Léman com um Voutilainen no pulso – é absolutamente notável que um desportista de nomeada escolha um tal exemplar de classe relojoeira, sendo mais habitual a opção por modelos espalhafatosos. Claro que apresentei Gael a Kari, tirando-lhes depois uma fotografia.

Kari Voutilainen e Gael Monfils © GPHG

Personalidades tão distintas unidas pela relojoaria: Kari Voutilainen e Gael Monfils © GPHG

Outra vertente que muito me agradou na edição deste ano foi a entrega do ‘Prémio Especial do Júri’ a duas grandes senhoras da relojoaria mais especializadas na arte da miniaturização e esmaltagem: Susanne Rohr e a sua ‘descendente’ Anita Porchet, responsáveis por algumas das mais fabulosas criações do género nas últimas décadas – da Patek Philippe à Chanel. A entrega do prémio a ambas, pelas mãos do presidente do júri e leiloeiro extraordinaire Aurel Bacs, foi emocionante.

Susanne Rohr e Anita Porchet @ GPHG

Lendas vivas da miniaturização e esmaltagem: Susanne Rohr e Anita Porchet @ GPHG

E, após a cerimónia propriamente dita e na condição de ex-membro do júri, participei no exclusivo jantar reservado a uns ‘lucky few’ – com a sorte de ficar precisamente entre Anita Porchet e Fiona Kruger, a relojoeira de origem escocesa famosa pela sua linha Skull e a quem apresentei há dois anos a também escocesa Judy Murray (a carismática mãe do conhecido campeão de ténis Andy Murray), que passou a ser embaixadora da marca. Mas a melhor conversa tida durante o repasto foi com Christophe Chevalier, da Tudor, que reafirmou a noção de que uma segunda vitória consecutiva na categoria ‘Petite Aiguille’ (que premeia os modelos de preço acesssível) graças ao Black Bay Chronograph vem justificar o desejo de o fundador Hans Wilsdorf criar uma marca complementar à Rolex que fosse (quase) tão boa mas de preço inferior. A fotografia seguinte mostra uma perspetiva do jantar, numa imagem da organização em que, curiosamente, estou de pé a falar com o presidente da Zenith, Julien Tornare, sobre… ténis. A Zenith ganhou o ‘Prémio de Inovação’ graças ao revolucionário Defy Lab apresentado em setembro (também estivemos lá).

A cena de gala pós-cerimónia © GPHG

A cena de gala pós-cerimónia © GPHG

E assim caiu o pano sobre a edição deste ano do Grand Prix d’Horlogerie de Genève – para o ano há mais!