Histórias

ENTREVISTA | Franck Muller: era uma vez

Franck Muller

Edição impressa | Franck Muller esteve de visita a Portugal para celebrar os 25 anos da marca que fundou e nós não poderíamos perder a oportunidade de conversar um pouco com ele. Mais uma vez. A verdade é que já por diversas vezes entrevistámos o mestre das complicações e, sempre que o fazemos, ficamos com a sensação de que aprendemos algo de novo. Bem disposto como é habitual, recebeu-nos de braços abertos, na Quinta da Bacalhôa, em Azeitão.

Entrevista publicada no número 61 da Espiral do Tempo (edição de inverno 2017)

A história de Francesco Muller parece um autêntico conto de fadas. Nascido na Suíça, em La Chaux-de-Fonds, em julho de 1958, filho de um pai comerciante suíço especializado no calçado e de uma mãe italiana, tem dificuldade em encontrar o seu lugar na escola. Na adolescência, experimenta todos os ofícios manuais: foi ladrilhador, marceneiro e eletricista. Acaba, no entanto, por encontrar o seu caminho ao integrar a escola relojoeira de Genebra, aos 15 anos.

A seguir, tudo se agilizou. Com diploma na mão, sai da escola em plena revolução do quartzo. A profissão de relojoeiro deixou de atrair quem quer que seja. Gradualmente, o seu talento no restauro dos relógios de bolso com complicações permite-lhe conquistar a confiança de grandes colecionadores. Em 1985, decide juntar-se aos relojoeiros Sven Andersen e Vincent Calabrese, cofundadores da Academia Relojoeira dos Criadores Independentes, apresentando peças únicas no Museu de Le Locle.

Antes de completar 30 anos de idade, surpreende os seus pares ao apresentar uma estreia mundial: um relógio de pulso com turbilhão (além do regulador). Esta complicação, com a simples assinatura «franck», é fruto de cerca de dois anos de trabalho. Marcou durante muito tempo as memórias e continua, hoje em dia, a ser considerada como o início da surpreendente vitalidade das complicações relojoeiras. Enquanto o muito respeitado relojoeiro Philippe Dufour declarava «o que é certo, é que a relojoaria não teria alcançado esta importância cultural sem Franck Muller», o seu compadre de Schauffhausen, Felix Baumgartner, afirmava, na Dubai Watch Week 2017, «não esqueçamos de que foi Franck Muller o primeiro a colocar um nome num mostrador».

Franck Muller

Imagens da infância de um jovem Franck Muller na companhia dos seus pais. © Franck Muller

Continuando a desenvolver peças únicas para grandes colecionadores, encontra, no final dos anos 1980, Vartan Sirmakes, na altura fornecedor de grandes joalheiros. Juntos, fundam, em novembro de 1991, a Technowatch, rebatizada Franck Muller Watchland em 1998.
Símbolo de uma relojoaria exuberante e autoconfiante, Franck Muller não hesita em exportar-se para Las Vegas e Hollywood. Relojoeiro sobredotado, gosta de viver intensamente. Torna-se íntimo das estrelas do mundo do espetáculo, dos grandes nomes da música e da moda, chegando a criar vários relógios para Gianni Versace. A sua dualidade entre a precisão e o rigor suíço e a sua alegria de viver italiana seduz imediatamente. O seu carisma, a sua generosidade e simplicidade fazem com que seja apreciado tanto pelos seus colaboradores, como pelos seus compradores e parceiros. Aliás, o afeto que sentia por Pedro Torres, fundador da Torres Distribuição, levou-o a interromper, sem qualquer hesitação, uma digressão no Japão para assistir ao funeral do seu amigo, em Lisboa, em novembro de 2008.

Francesco Muller, aquando da sua passagem por Lisboa para comemorar os 25 anos da marca com os agentes oficiais da marca, alguns convidados e o seu importador de longa data, aceitou ser entrevistado por nós.

Porque mudou o seu nome Francesco para Franck?
Tinha 13 anos quando vi o filme Aconteceu no Oeste (NdR: o filme estreou nos cinemas no verão de 1969). A magnífica Claudia Cardinale é a atriz principal do filme. Henry Fonda protagoniza com ela uma grande cena de amor. A personagem chamava-se Frank. Quando saí da sala de cinema, mudei de nome: de Francesco passei para Franck. Por conseguinte, chamo-me Franck Muller desde os 13 anos por causa do filme Aconteceu no Oeste.

Agora, algumas perguntas pessoais: cor preferida?
Não tenho preferência de cor. Gosto de todas as cores, do arco-íris. Não sou a preto e branco, sou a cores!

Uma música que o tenha marcado?
As músicas da minha juventude, o início do Rock’n Roll: Led Zeppelin, Deep Purple, Santana ou Pink Floyd. Cresci nos anos 60 com essas músicas. A música clássica chegou mais tarde na minha vida. Hoje em dia, oiço, sobretudo, ópera.

Um arquiteto?
Le Corbusier e Kenzo Tange.

Franck Muller

Franck Muller começou a criar máquinas do tempo com complicações e estreias de nível mundial como, em 1986, um relógio com turbilhão de oscilação livre. © Franck Muller

Uma cidade onde se sinta bem?
Existem várias: Roma, Florença, Veneza e Lisboa pelas suas cores.

Ainda sobre os 25 anos da sociedade Franck Muller, quais foram os momentos mais marcantes?
A nível pessoal, o nascimento dos meus filhos. É o que está em primeiro lugar.
A nível profissional, a criação da Watchland, em Genthod onde morava. Um dos muitos momentos marcantes foi o concerto de Elton John, ao ar livre, no Partenon, na Grécia. Estava a assistir ao concerto com os meus amigos e clientes gregos, e o Elton John dedicou-me uma canção a que chamou «Harmony». Ele sempre disse que eu era a harmonia personificada. Cantou apenas uma vez esta canção.

Franck Muller é, sobretudo, um relojoeiro que teve a audácia de transpor as fronteiras habituais da relojoaria clássica. De que forma a marca conseguiu seduzir o Elton John e outras celebridades do mundo do espetáculo?
Quando ingressei na escola, em Genebra, a relojoaria estava totalmente falida. A relojoaria mecânica tinha morrido. Algumas casas antigas produziam ainda relógios visualmente tradicionais, pese embora o know-how mecânico ser extraordinário. Tudo era apresentado de uma forma muito conservadora, principalmente em cruz, como os calendários, por exemplo. Até as complicações eram muito tradicionais. Consegui fazer com que a relojoaria voltasse à vida, com complicações inéditas.

Fale-nos do seu turbilhão regulador, do primeiro relógio de pulso no mundo equipado com um turbilhão.
No início dos anos 80, os colecionadores compravam relógios de bolso. Os mais apreciados eram os de turbilhão. Enquanto jovem relojoeiro, a minha ideia era mostrar do que eu era capaz, pelo que criei um turbilhão para um relógio de pulso. Era obviamente mais difícil do que para um relógio de bolso, três vezes maior. Além disso, não existia nada do género no mercado. Por conseguinte, tive essa ideia que representava um desafio para mim. E acrescentei um regulador separando as indicações das horas, dos minutos e dos segundos. Era um relógio de 30 mm, ou seja, muito pequeno e muito difícil de construir.

Seguiram-se numerosas complicações lúdicas como o Crazy Hours?
Antes do Crazy Hours, apresentei dezenas de modelos complicados: os segundos duplos retrógrados, o Vegas, os tempos rápidos e os tempos longos dando sempre a hora exata. No Crazy Hours, quebrámos os códigos do tempo. Por exemplo, quando vê o ponteiro a indicar as 3 horas, imagina que está no trabalho, ao passo que se o colocar de forma diferente no mostrador, a sua perceção muda. Entra na categoria dos relógios filosóficos.

Franck Muller

A foto de Franck Muller que foi capa do número 1 da Espiral do Tempo. Estávamos em 2001. No pulso o mestre usou um Franck Muller Long Island. @ Franck Muller. À direira: Franck Muller na festa de celebração dos 25 anos da marca, no passado mês de janeiro. © Espiral do Tempo

Prefere estar na oficina, estar em contacto com a clientela ou organizar a produção com os relojoeiros em Genthod?
São atividades diferentes. Estar na oficina é como estar numa igreja. Tudo para. Estamos em plena oração, na lógica do desempenho, do milagre da produção de peças mecânicas que consiste em dar vida à matéria. Em contrapartida, o encontro com as pessoas é um momento de partilha. Gosto de todos esses momentos, são todos igualmente importantes.

Voltemos à origem da forma do Cintrée Curvex. Inspirou-se na mulher de um dos seus colecionadores.
No início dos anos 80, só produzia peças únicas, nunca antes realizadas. Um dos meus clientes, um rico industrial italiano, tinha-me convidado para casa dele, em Breschia, para lhe entregar uma repetição de minutos, turbilhão com calendário perpétuo. Esta peça tinha-me dado muito trabalho: com um turbilhão invertido sob o mostrador, foi necessário deslocar o conjunto do sistema de repetição de minutos que, habitualmente, também se encontra sob o mostrador. Durante o jantar, a mulher dele lançou-me um desafio: «É conhecido por ser o mestre das complicações, mas não tem nenhum design reconhecível. Se me criar um relógio com um design exclusivo Franck Muller, encomendo-o, independentemente das complicações que quiser acrescentar». Embora tivesse um sentido da estética bastante desenvolvido, uma vez que já era colecionador de arte, desenhar um relógio constituiu para mim um novo desafio. Com o Cintrée Curvex, criei um relógio que tem apenas um ponto de referência. A sua forma assemelha-se a uma esfera, sendo o ponto mais alto o centro do relógio, o restante acompanha a forma esférica. Expus este relógio no Salão de Veneza, em 1986. Todos o queriam comprar, mas não podia vendê-lo porque se destinava à minha cliente. Durante muitos anos, pediram-me para voltar a fabricar o relógio, mais nunca aceitei. Só em 1991, quando me associei a Vartan Sirmakes, é que recorri a esta forma para criar uma coleção de relógios.

Franck Muller usando o Vanguard Skeleton 7 Days Power Reserve. @ Paulo Pires/Espiral do Tempo

Franck Muller usando o Vanguard Skeleton 7 Days Power Reserve. @ Paulo Pires/Espiral do Tempo

Como vive hoje em dia a marca com a pressão crescente exercida pelos grupos relojoeiros como a Richemont, Swatch ou LMVH sobre os retalhistas independentes?
A marca está muito bem. A pressão dos grupos sempre existiu, diria até que era mais forte no início da minha carreira uma vez que éramos praticamente desconhecidos. Verticalizámos a empresa na sua íntegra com a Watchland e outros locais de produção. Controlamos a produção de todas as componentes da relojoaria. Não dependemos de um único fornecedor. Não temos quaisquer dívidas e somos detentores de um enorme tesouro que nos permitirá aguentar durante vários anos. A nossa clientela é fiel. Embora, obviamente, à semelhança de todas as marcas, dependemos dos ciclos económicos e somos afetados pela economia mundial ou regional.

Esta independência é desejável a longo prazo?
É desejável e indispensável para podermos resistir.

O que pensa dos relógios conectados, dos smartwatches?
Não é um debate novo. Falou-se do assunto com outros grupos industriais há mais de 15 anos. A meu ver, existe um mercado enorme para este tipo de relógios porque vivemos num mundo cada vez mais digital. No entanto, num mundo em que o acesso às horas é possível no telemóvel, no computador, será mesmo necessário gastar mais uns euros para saber que horas são? Enquanto um relógio conectado é, antes de mais nada, um instrumento, um relógio mecânico é um objeto de arte. É um luxo, um prazer e também uma forma de mostrar o saber, o conhecimento que uma pessoa tem do artesanato. Revela também a personalidade do seu proprietário. Imagino, até, que dentro de 50 anos, haverá colecionadores de relógios conectados, tal como hoje existem colecionadores dos primeiros brinquedos robots, dos primeiros telefones e computadores.

 

Franck Muller

Em 2001, Franck Muller foi o rosto na capa do número 1 da Espiral do Tempo. E na altura usou no pulso um Long Island Automatic. Curiosamente, para esta entrevista, publicada no  número 61 da revista, o ‘mestre das complicações’ usu outro modelo da mesma linha: um Long Island Calendário Perpétuo. © Paulo Pires/ Espiral do Tempo

Na sua opinião, de que forma é visto o relógio mecânico pelas gerações mais jovens?
A primeira coisa que os pais oferecem aos filhos quando fazem 20 anos é um bom relógio, na medida das suas possibilidades. O tiquetaque tranquiliza e remete para recordações. É algo de vivo e não um simples objeto. Um relógio é muito mais do que um relógio.

Será que o comércio on-line representa uma oportunidade para a marca Franck Muller?
Para mim, há aquilo que compramos e o momento da compra. Ambos estão interligados. É necessário que haja uma harmonia entre o objeto desejado e a recordação do momento da sua compra. O ato de compra pressupõe um aconselhamento, algo que não existe na Internet. Claro, as pessoas um pouco mais racionais vão procurar o melhor preço na Internet, o que pode justificar-se em determinados casos. Um colecionador de belos relógios, em contrapartida, está ligado a uma rede mundial de colecionadores onde se opera uma partilha. Comprar na Internet é comprar sem emoção.

O que o leva a voltar tantas vezes a Portugal?
Em Portugal sinto-me em casa. Sou suíço, mas também italiano. Tenho profundas raízes em Itália. Aqui, como noutros países do sul, ama-se a vida, as cores. Gosta-se de comer bem, de beber um copo com amigos e, sobretudo, de dar tempo ao tempo, o que acontece com menos frequência nos países do norte. Sinto-me muito bem em Portugal, tenho aqui muitos amigos, muitos vínculos. Viva Portugal!