Opinião

PONTO de VISTA | Os nossos desejos relojoeiros para 2018

Desejos 2018

No preciso momento da Passagem de Ano, é hábito comermos 12 passas de uva a que simbolicamente associamos 12 desejos para o novo ano. Em vésperas do primeiro grande evento de apresentação das novidades e numa altura em que já conhecemos alguns modelos e tendências de 2018, desvelamos os nossos desejos relojoeiros  – 12 pensamentos que gostaríamos de ver concretizados nos próximos tempos. Um ou dois não vêm de agora, mas nós somos persistentes e… muito sonhadores.

Na mais recente edição da Espiral do Tempo (que está atualmente nas bancas) apresentámos uma retrospetiva do ano relojoeiro que agora chega ao fim: abordámos as principais tendências, revimos eventos, recordámos momentos e comentámos as novidades que fizeram de 2017 uma temporada relojoeira particularmente bem recheada.

Agora, com 2018 à porta, há coisas que já se sabem que vão acontecer – até porque as marcas levantam o véu das novidades cada vez mais cedo, sempre em busca de ganhar espaço mediático à concorrência -, mas há outras que não. E nós não pretendemos propriamente consultar cartas ou bolas de cristal para adivinhar o que nos espera. 

Por isso, e como estamos na melhor época do ano para o fazer, vamos dar-nos ao luxo de revelar os nossos 12 desejos relojoeiros para o ano que está para vir:

1 | Que as marcas mainstream tenham a coragem de fugir à tirania comercial dos relógios redondos e apostem mais em relógios de forma. Mesmo que o formato circular seja mais ‘vendável’, não é necessário ‘matar’ todos os outros tipos de caixa só porque as vendas são mais baixas (em 2017, a IWC acabou com o caráter vincadamente geométrico das linhas Ingenieur e da Vinci para as tornar arredondadas); afinal de contas, esses modelos chamados ‘de forma’ (tonneau, retangulares, quadrados) dão mais ecletismo a qualquer catálogo e deveria ser perfeitamente admissível que uma determinada linha numa coleção apele a um público mais alternativo. Particularizando o desejo, fazemos votos para que a Lange & Söhne recupere o seu belo modelo retangular Cabaret do final dos anos 90.

2 | Continuamos a aguardar ansiosamente por novos modelos femininos com complicações que vão além das fases da Lua. Claro que nos últimos anos temos vindo a assistir a uma grande evolução nesse sentido e até arriscamos que esta não terá de ser a regra. Mas verdade verdadinha, o que queríamos mesmo era ver mais modelos mecânicos (ou não) de senhora demarcados do conceito de relógio elegante, ou seja, gostaríamos de ver relógios femininos de assumida vocação desportiva: de maiores dimensões, com combinação arrojada de materiais, com cronógrafo, por exemplo, mas claramente femininos. Ok, há sempre os relógios de homem nos quais as mulheres pegam… mas achamos este um desafio interessante.

3 | Desejamos, sinceramente, que se comece a assumir os smartwatches como smartwatches que são. Sabemos que o relógio em si e o smartwatch são conceitos absolutamente distintos que ultrapassam em larga medida a função de leitura das horas. Se os smartwatches vingarem, nada contra. E continuarão a vingar, certamente. Mas a relojoaria mecânica tem tudo para continuar o seu caminho de exclusividade num mundo que ainda privilegia peças de exceção, com história e com muito trabalho humano. Não falamos em exclusão, mas em convivência saudável. 

4 | Um desejo mais concreto que parte também da redação e que já vem de há um tempo: seria fantástico o lançamento de um modelo mais desportivo da A. Lange & Söhne. Num momento em que a marca atravessa um dos seus mais fantásticos momentos no domínio da criação de complicações relojoeiras, seria interessante descobrir como a manufatura saxónica idealizaria um relógio eminentemente desportivo para além dos seus já famosos cronógrafos clássicos. F.P.Journe disse um dia que nunca faria relógios desportivos e a sua mudança de perspetiva levou ao lançamento da coleção Octa Sport. Podemos sonhar, certo?

| São sempre bem recebidos relógios de caráter inovador, de estéticas industriais com design arrojado e futurista. Costumam ser os relojoeiros independentes a arriscar mais nesse aspeto. E esperamos que tal continue a acontecer. Não há nada como o equilíbrio entre o clássico e esperado/ inovador, arrojado e surpreendente. Aqui, adoramos relógios que parecem de outro planeta. Venham eles!

6 | No seguimento dos relógios de outro planeta e também no seguimento de abordarmos o inusitado na A. Lange & Söhne, seria aliciante ver o que resultaria da parceria entre a MB&F e a marca germânica. Não inventámos isto assim de repente, como é óbvio, mas ficámos com o bichinho atrás da orelha depois da reposta que Max Busser deu no seu instagram a um comentário que brincava com essa hipótese perante uma fotografia sua ao lado de Wilhelm Schmid, CEO da Lange, durante o SalonQP. O mentor do laboratório de ideias sugere um interessante nome para a hipotética criação: DatoAstroGraph! Ainda estamos naquela parte em que podemos sonhar muito, sim?

7 | O facto de apreciarmos relógios de outro planeta não significa que não tenhamos também um fraquinho por modelos de trabalho puro e artesanal. Felizmente, os métiers d’art regressam de tempos a tempos e ultrapassam cada vez mais o domínio da decoração do mostrador. Gostaríamos que essa tendência se mantivesse (mas sem exageros: recentes apelos de head hunters para artesãos capazes de promover a ‘industrialização dos métiers d’art‘ causaram indignação) e que fosse além da tendência, que perdurasse e que continuasse a conviver com todo o espírito de inovação mais do que comprovado dos tempos mais recentes. Relógios extraordinariamente belos enquanto verdadeiras obras artísticas.

8 | Que haja redenção, de marcas históricas (a desaparecida Universal Genève; as adormecidas Vulcain e Eterna) e de um calibre específico (o alarme mecânico). Entre as muitas complicações mecânicas e suas variantes, o alarme mecânico continua a ser a menos disseminada; com o advento dos smartphones, parece mesmo estar condenada porque, após terem sido escassas as marcas capazes de dominar a sua miniaturização a partir dos primeiros modelos de pulso na década de 50 (a Jaeger-LeCoultre, a Vulcain e ainda ETA com os seus calibres A. Schild foram as grandes exceções), recentemente ninguém anda a querer gastar milhões no desenvolvimento de calibres com alarme mecânico (que têm de ser integrados, já que qualquer sistema modular é ineficaz). Porque não dão significativas mais-valias sobre os custos de produção, como sucede no caso dos onerosos modelos dotados de repetições minutos e de sonneries…

9 | Seguimos as palavras de Jean-Christophe Babin na cerimónia de entrega dos prémios do Grand Prix d’Horlogerie de Genève: a tendência para rebuscar nos baús  e de lá nascerem ideias para relógios novos agrada-nos, mas não nos importávamos que abrandasse um pouco. Claro que o gosto por relógios vintage anda aí em força e o lançamento de modelos inspirados em clássicos de outrora responde muito a essa tendência, porém andamos com muita vontade de ver como anda a imaginação das marcas face a relógios que nascem da inspiração do momento e não da inspiração de outros tempos.

10| Por falar em Grand Prix d’Horlogerie de Genève, seria muito bom que todas as grandes marcas se submetessem a concurso sem recear a competição nem amuar com os resultados. Perante o aperfeiçoamento do conceito e a grandiosidade da gala já denominada ‘Oscares da Relojoaria’, seria bonito uma adesão total.

11 | Num ano em que não se realiza qualquer edição da Dubai Watch Week, considerada pela crítica como o melhor certame relojoeiro da atualidade, seria excelente ver o SalonQP recuperar a pujança que mostrou até há dois anos e inverter a tendência decrescente que tem sido notória desde então. Isto numa altura em que já não há qualquer exibição do género em Paris (desde 2015) e em que se deveria pensar seriamente em organizar uma exposição em Portugal.

12 | Por fim, e mesmo que este texto esteja a ser lido via internet, fazemos votos para que a edição impressa da Espiral do Tempo mantenha e até incremente o sucesso que tem tido nos últimos tempos, numa era em que jornais e revistas tanto têm sofrido face à crescente adesão aos formatos digitais. Acompanhem-nos nesta missão de celebrar a bela relojoaria através de uma publicação de qualidade!

Boas Entradas!