Histórias

PERFIL | Jean-Marc Wiederrecht: alma poética

Jean-Marc Wiederrecht

Edição impressa | À semelhança de temporadas anteriores, Jean-Marc Wiederrecht voltou a ser um dos grandes protagonistas do ano relojoeiro que terminou — com algumas das geniais criações saídas do seu atelier Agenhor a equiparem modelos aclamados pela crítica e premiados por esse mundo fora. Durante demasiado tempo na sombra de poderosas marcas, o discreto mestre genebrino tem-se mostrado paulatinamente mais à vontade com as luzes da ribalta. Na sequência de uma entrevista realizada na Dubai Watch Week, aqui fica a nossa homenagem a um homem bom, de alma poética e muito amigo de Portugal.

Artigo originalmente publicada no número 61 da Espiral do Tempo

Depois de vários óscares da relojoaria (troféus no Grand Prix d’Horlogerie de Genève), Jean-Marc Wiederrecht recebeu também um Nobel da relojoaria (o relevante Prix Gaia) em 2017. É bom constatar que, de há uma década para cá, a indústria relojoeira tem sabido reconhecer gradualmente um homem de boa índole que, durante demasiado tempo, viu o seu trabalho ser engolido pela pujança mediática de grandes marcas que açambarcavam os louros das suas criações mecânicas. E que criações: o seu cunho pode encontrar-se desde as especialidades retrógradas da Franck Muller até às complicações poéticas da Van Cleef & Arpels, passando pela MB&F e sem esquecer aquele que foi, para muitos, o melhor calibre desvelado este ano: o revolucionário movimento cronográfico AgenGraphe, que equipou dois finalistas na categoria ‘Cronógrafo’ no Grand Prix d’Horlogerie – o Fabergé Visionnaire Chronograph e o Singer Reimagined Track 1. Ironicamente, o facto de dividirem votos entre si fez com que o Parmigiani Tondor Chrono acabasse por arrecadar o galardão perante a estupefação geral…

Jean-Marc Wiederrecht, Rob Dickinson, especialista em restauro de automóveis Porsche e Marco Borraccino, designer e CEO da Singer Reimagined ® Singer Reimagined

Jean-Marc Wiederrecht, Rob Dickinson, especialista em restauro de automóveis Porsche e Marco Borraccino, designer e CEO da Singer Reimagined ® Singer Reimagined

Mas o Singer Reimagined Track 1, idealizado por Marco Borraccino (designer e CEO da nova marca Singer Reimagined, inspirada na companhia Singer de modificação de modelos Porsche dos anos 70), foi mesmo considerado pela maioria dos analistas como o melhor cronógrafo de 2017 — a começar pela eleição do Relógio do Ano na Polónia, na qual recebeu o Prémio de Inovação e o Grande Prémio absoluto. Recebeu também o prémio de Relógio Clássico, atribuído ao Slim d’Hermès Heure Impatiente, com a sua adorável complicação acústica desenvolvida também por Jean-Marc Wiederrecht e que soa após o countdown de uma hora até ao rendez-vous marcado.

O representante da Espiral do Tempo com Jean-Marc Wiederrecht e Marco Borraccino na atribuição dos prémios de Inovação e Relógio do Ano em Varsóvia @Ch24.pl/ Marcin Klaban

O representante da Espiral do Tempo com Jean-Marc Wiederrecht e Marco Borraccino na atribuição dos prémios de Inovação e Relógio do Ano ao Singer Reimagined Track 1, em Varsóvia @Ch24.pl/ Marcin Klaban

Estivemos com o mestre nessa iniciativa em Varsóvia, vivemos a cerimónia do Grand Prix d’Horlogerie de Genève a seu lado (ganhou indiretamente o prémio na categoria ‘Fusos Horários’, graças ao Parmigiani Toric Hemisphères Retrograde assente num módulo desenvol- vido pela sua equipa), visitámos as instalações da Agenhor nas imediações de Genebra e entrevistámo-lo na Dubai Watch Week, onde foi membro destacado em vários painéis de debate.

Na Dubai Watch Week, durante a sessão fotográfica que complementou a entrevista © Espiral do Tempo/ Miguel Seabra

Na Dubai Watch Week, durante a sessão fotográfica que complementou a entrevista © Espiral do Tempo/ Miguel Seabra

A sua reputação não para de crescer desde que, em 2007, recebeu o agora desaparecido galardão de ‘Construtor’ no Grand Prix d’Horlogerie de Genève. Desde então, a média de óscares da relojoaria que recebe é quase de um por edição. No ano em que celebrou meio século de ligação aos relógios (tem atualmente 68 anos; tinha 18 quando entrou para a escola de relojoaria), tínhamos de lhe dar o devido destaque…

O calibre do ano

Sim, o tão aclamado movimento AgenGraphe falhou o esperado troféu no Grand Prix d’Horlogerie de Genève, mas é um calibre extraordinário que, além da peculiaridade de dar o centro do mostrador às funções cronográficas (contagem das horas, dos minutos e dos segundos a partir de um eixo central; as horas e os minutos são revelados na periferia), apresenta, igualmente, uma fascinante estética livremente apreciada através do fundo transparente, já que o rotor é colocado entre o movimento e o mostrador, para não cobrir a beleza da sua arquitetura.

o Singer reimagined track 1 chronograph está equipado com o movimento agenGraphe, o mesmo que equipa o Visionnaire chronograph da Fabergé aqui na versão em negro e amarelo, criada para o leilão only watch 2017.

O Singer Reimagined Track 1 Chronograph está equipado com o movimento AgenGraphe, o mesmo que equipa o Visionnaire Chronograph da Fabergé.

Desde o advento do Datograph, apresentado pela Lange & Söhne, em 1999, que não se sentia tamanho entusiasmo por um movimento cronográfico. Para já, equipa o Singer Reimagined Track 1 e o Fabergé Visionnaire Chronographe da Fabergé — ambos dotados de um preço abaixo dos 40 mil euros, sendo consensual que o calibre AgenGraphe lhes dá um valor ‘técnico’ superior ao do da etiqueta.

Jean-Marc W 03

Relógios que contam histórias

Tal como sucedeu com o Track 1 da Singer Reimagined, alguns dos mais surpreendentes relógios dos últimos anos foram lançados por marcas que não são propriamente aqueles colossos da relojoaria habituados a dominar os mercados. O facto de os departamentos relojoeiros de marcas de luxo como a Hermès, a Van Cleef & Arpels ou a Fabergé terem ganhado notoriedade e credibilidade com exercícios filosóficos na arte de mostrar o tempo deve-se muito à ‘arma secreta’ que têm ao seu dispor e que é, precisamente, Jean-Marc Wiederrecht. Em troca, o mestre dá-lhes grande mérito por o desafiarem a fazer algo de diferente.

Jean-Marc Wiederrecht foi um dos preletores de destaque nos fórums da Dubai Watch Week © Espiral do Tempo/ Miguel Seabra

Jean-Marc Wiederrecht foi um dos preletores de destaque nos fórums da Dubai Watch Week © Espiral do Tempo/ Miguel Seabra

«Temos a sorte de compreender os nossos clientes e de termos uma forte ligação de mútua confiança com eles», refere. «Fazermos algo que só nos dá prazer apenas a nós não serve de nada. Trabalhar com companhias como a Van Cleef & Arpels, a Hermès e a Fabergé deu-me a oportunidade de explorar novos caminhos para expressar o tempo. É um trabalho bonito, difícil e estimulante — exigindo-me toda a experiência que fui adquirindo na alta-relojoaria e puxando toda a minha criatividade de modo a corresponder ao desafio proporcionado por esses projetos.»

A Van Cleef & Arpels chegou mesmo ao ponto de registar a expressão «Poetic Complications», que tão bem caracteriza a categoria onde insere os seus modelos particularmente líricos. Relógios que contam histórias, que apresentam uma tecnologia útil, mas que, sobretudo, seduzem emocionalmente e capturam o imaginário das pessoas. Como o Quantième des Saisons, com o seu mostrador esmaltado com as quatro estações, que efetua uma rotação por ano e que inaugurou a série de complicações poéticas; o Féerie, com as asas e a varinha mágica da fada a dar as horas; o Pont des Amoureux, com dois namorados a atravessar a Ponte dos Suspiros até ao beijo da meia-noite, cada qual contribuindo para indicar o tempo; sem esquecer o Heure d’Ici & Heure d’Ailleurs, com o seu sistema de múltiplos fusos horários.

Jean-Marc W relógios

A Hermès foi igualmente bem-sucedida no Grand Prix d’Horlogerie de Genève através de peças motorizadas por Jean-Marc Wiederrecht — graças ao elegante Hermès Slim d’Hermès Quantième Perpetuel e ao Hermès Le Temps Suspendu, cujos ponteiros vão estacionar num ponto do mostrador para depois retomar o seu trajeto normal.

Mais recentemente, também a Fabergé tem dado cartas — sob a batuta da sua diretora, Aurélie Picaud, que encontrou em Jean-Marc Wiederrecht o parceiro ideal para o novo projeto relojoeiro da marca historicamente mais conhecida pelos seus preciosos ‘ovos’ joalheiros. O Fabergé Lady Compliquée Peacock foi logo premiado em 2015, com a horas a serem fornecidas pela cauda de um pavão que se abre, cada pena com a sua roda, como num carreto de bicicleta. O Lady Levity coloca em evidência a lua e o Fabergé Visionnaire DTZ de segundo fuso horário digital ao centro arrebatou o troféu do Grand Prix d’Horlogerie em 2016.

Tudo em família

Mas a Agenhor — designação surgida da contração de Atelier Genevois d’Horlogerie — não produz somente módulos ou calibres de complicações inovadoras que fornece a terceiros. Também desenvolve aspetos precisos dentro de um mecanismo tradicional, como o sistema de regulação AgenPIT ou o processo patenteado que impede os ponteiros de caírem lassos para um acerto mais firme e preciso das horas. Com tanto know-how, só falta a Jean- Marc Wiederrecht fundar a sua própria grife e relojoeira — como tantos outros colegas seus. «Pensei nisso, mas é melhor concentrar-me no que estamos a fazer bem. Hoje em dia para lançar uma marca é necessário uma tremenda máquina.»

Impressionante pormenor do calibre cronográfico automático Agengraphe: o rotor fica entre o movimento e o mostrador para não afetar a visualização da beleza arquitetural a partir do fundo transparente © Espiral do Tempo/ Miguel Seabra

Impressionante pormenor do calibre cronográfico automático Agengraphe: o rotor fica entre o movimento e o mostrador para não afetar a visualização da beleza arquitetural a partir do fundo transparente © Espiral do Tempo/ Miguel Seabra

E a máquina da Agenhor está bem oleada, mas mantém- se familiar e feliz: num total de 25 elementos, a mulher, Catherine Wiederrecht, gere os negócios, e os filhos (Laurent e Nicolas) também são valores acrescentados, com voz na gestão logística e no desenvolvimento do produto. «Eu recebi os prémios, mas é toda a equipa que os ganha», sublinha o sempre modesto Jean-Marc, muito contente com o espaçoso quartel-geral instalado em Meyrin, nas imediações de Genebra. «É bom termos um edifício com enormes janelas, rodeado de vegetação e pequenos lagos com peixes numa zona tão industrial como esta», diz. «Dá-nos mais vontade e à-vontade para trabalhar».

As instalações da Agenhor em Meyrin, nos arredores de Genebra © Espiral do Tempo/ Miguel Seabra

As instalações da Agenhor em Meyrin, nos arredores de Genebra © Espiral do Tempo/ Miguel Seabra

Vamos ver o que o futuro próximo nos reserva. Porque, nos últimos três anos, Jean-Marc Wiederrecht trouxe a sua equipa a Portugal para fazer o rescaldo da temporada relojoeira e recarregar baterias em duas ocasiões — uma em Lisboa e outra no Porto. Como amante da cultura e gastronomia portuguesas, não lhe faltarão temas de inspiração para novas complicações poéticas.

Visite o site oficial da Agenhor para mais informações.