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Patek Philippe: uma celebração em grande

EdT49/ A Patek Philippe comemora, este ano, o seu 175.º aniversário, uma efeméride assinalada com diversas iniciativas e muitas surpresas. A Espiral do Tempo teve a honra de estar presente num evento exclusivo destinado à imprensa, na própria sede da marca, em Plan-les-Ouates, Genebra, e veio de lá rendida aos encantos de uma celebração em grande. Exageros à parte, a Patek Philippe superou largamente as nossas expetativas.

Reportagem originalmente publicada no número 49 da Espiral do Tempo (inverno 2014).

Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175, peça comemorativa dos 175 anos da Patek Philippe. ©Patek Philippe
Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175, peça comemorativa dos 175 anos da Patek Philippe. ©Patek Philippe

No dia 12 de novembro de 2014, o Expresso online publicava uma notícia com o seguinte título: «O relógio mais complicado do mundo custa uma obscenidade»*. A notícia referia-se ao relógio Henry Graves Supercomplication, da Patek Philippe, que, no dia anterior, tinha sido leiloado por 24 milhões de dólares (19,4 milhões de euros) pela Sotheby’s Genève. Este título talvez seja revelador de um certo mal-entendido face àquilo que representa o mundo da alta-relojoaria. Para muitas pessoas, são incompreensíveis os valores que alguns instrumentos do tempo atingem — seja em leilão ou não. E não é fácil explicar. Podemos esboçar uma tentativa de explicação assente na técnica, no artesanato ou nas horas de trabalho que estão por trás de muitas criações em alta-relojoaria. Mas há muito mais do que isso. Tal como no mundo das artes, das joias ou da indústria automóvel, o que está em causa é uma história, um legado, um mundo que não foi conquistado em meia dúzia de anos. E tal como no mundo das artes, das joias ou da indústria automóvel, há nomes e marcas de relógios que se tornam valores seguros por tudo aquilo que representam. O caso do Henry Graves Supercomplication é um exemplo perfeito neste sentido, principalmente num momento em que a Patek Philippe acaba de celebrar os seus 175 anos: um relógio de bolso único, manufaturado por encomenda e referido, na altura em que foi entregue ao seu dono, em 1933, como o mais complicado relógio de bolso alguma vez criado. O valor atingido em leilão por esta peça é mais um indicador do patamar ocupado pela Patek Philippe — uma marca que é sinónimo de verdadeiro investimento —, mas também um incentivo para os clientes que terão acesso à mais recente obra-prima da manufatura genebrina: o Grandmaster Chime Ref. 5157.

Parabéns, Patek Philippe

Philippe e Thierry Stern, com o Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175. ©Patek Philippe
Philippe e Thierry Stern, com o Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175. ©Patek Philippe

Em 2011, Thierry Stern disse à Espiral do Tempo que «não se deve abusar das comemorações»; isto porque lhe perguntámos se os 80 anos então passados sobre a aquisição da Patek Philippe pelos seus avós — Charles e Jean compraram a Patek Philippe em 1932 — seriam celebrados pela marca. Com efeito, para o atual presidente do colosso da relojoaria «tem de haver limites». E assim deixava bem clara a sua posição relativamente à tendência bem vincada que se vivia (e vive) na relojoaria para resgatar do passado um motivo ou um número redondo para celebrar.
Hoje, conseguimos compreender ainda melhor a perspetiva de Thierry. Afinal, naquela altura, não se estaria a pensar na celebração dos 80 anos da aquisição da Patek Philippe pela família Stern, porque outros valores mais altos estariam na calha: a aproximação dos 175 anos de vida da própria casa genebrina. Uma efeméride que se celebra este ano com a classe e a grandiosidade que caraterizam a marca.

A verdade é que, bem vistas as coisas, trata-se de um momento raro no domínio do setor. A Patek Philippe não lança foguetes com frequência, por isso, quando lança, é para festejar a sério. A última vez que a Patek Philippe resolveu celebrar alguma coisa com pompa e circunstância foi em 1989, com a evocação dos seus 150 anos, que teve como ponto alto o lançamento do Calibre 89, o mais complicado relógio de bolso alguma vez concebido. Mais tarde, outros marcos, como a inauguração da manufatura da marca em Plan-les-Ouates ou as boas-vindas ao terceiro milénio, deram também origem a peças de exceção. Agora, com a celebração dos 175 anos, as expetativas do público eram mais do que elevadas no que diz respeito ao instrumento do tempo que seria apresentado. Nos últimos tempos, a manufatura não poupou esforços em aguçar o apetite aos mais sedentos. O seu site oficial foi remodelado de modo a salientar a efeméride com elementos históricos e um teaser ou outro. Ao mesmo tempo, os boatos entre especialistas eram muitos. Alguns arriscavam que a peça que a Patek Philippe iria apresentar seria um relógio de bolso, outros afirmavam ser um relógio ‘super’ no domínio das complicações astronómicas, outros apostavam nas complicações acústicas… E era este ambiente de especulações, de apostas e de adivinhações que se vivia nos primeiros momentos do grande evento destinado a uma imprensa ansiosa que a Patek Philippe promoveu no passado dia 13 de outubro.

Um evento em grande

Pormenor do Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175. ©Patek Philippe
Pormenor do Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175. ©Patek Philippe

Foi perante uma plateia de cerca de 300 convidados, rodeados por enormes ecrãs por onde passava em factos a história da marca, que Philippe Stern, atual presidente honorário da Patek Philippe, deu o pontapé de saída para o grande momento. Um discurso apaixonado no qual fez referência ao seu meio século de Patek Philippe — Philippe Stern foi presidente da marca entre 1993 e 2009, mas começou a sua atividade enquanto terceira geração presente na gestão da empresa muito antes — e no qual fez questão de referir que tudo foi feito para garantir a independência da marca por, pelo menos, mais 25 anos. Lembramos que a Patek Philippe é, ao lado de gigantes como a Rolex, a Audemars Piguet ou a Chopard, das poucas companhias relojoeiras independentes num setor dominado pelos grandes grupos. Thierry Stern, filho de Philippe Stern e atual cabeça da marca, reforçou esta última afirmação com um «esperemos que por muito mais tempo» e avançou, com certa ironia, que na manufatura já se prepara a próxima celebração.

Pormenor do Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175. ©Patek Philippe
Pormenor do Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175. ©Patek Philippe

Dadas assim as boas-vindas, seguiu-se o momento mais aguardado da noite: a apresentação do relógio que ficará para a história da Patek Philippe como a ‘peça-chave’ dos 175 anos da marca. Nos grandiosos ecrãs, surgiu um vídeo de apresentação da peça em causa: «o mais complicado relógio de pulso da Patek Philippe, 20 complicações, 1366 componentes do movimento, relógio de pulso com caixa reversível de dupla face, 214 componentes de caixa, sete anos de desenvolvimento, dois anos de produção, cinco complicações acústicas: grande sonnerie, petite sonnerie, repetição de minutos, data patenteada com repetição, alarme patenteado com toque de tempo; três gongos, seis invenções patenteadas». Estava, assim, apresentado o extraordinário Grandmaster Chime Ref. 5175, e todos aqueles que apostavam nas complicações acústicas como a surpresa das celebrações puderam esboçar sorrisos vencedores.

Após o lançamento, os presentes foram convidados a conhecer melhor a recém-apresentada peça através de um tour com diversas experiências audiovisuais. Aliás, todo o evento foi marcado por uma surpreendente mise en scène, num misto de cenários grandiosos e de riqueza de som que tornavam toda a apresentação particularmente envolvente — um aparato que maravilhou o público e que projeta a marca para um lado inovador e moderno, muito ‘século XXI’. A este propósito, não poderíamos deixar de referir uma espécie de câmara escura, na qual um enorme ecrã de 180 graus levava os presentes numa viagem detalhada a cada complicação no interior do movimento do relógio. Só depois desta experiência no reino de Lilliput, tivemos oportunidade de conhecer ao vivo a grande estrela da noite — o Grandmaster Chime Ref. 5175 estava exposto numa vitrina e depois podia também ser apreciado nas mãos de um relojoeiro que ali estava a trabalhar na sua bancada.

Patek Philippe Ref. 7175R-001, relógio da coleção comemorativa dos 175 anos. ©Patek Philippe
Patek Philippe Ref. 7175R-001, relógio da coleção comemorativa dos 175 anos. ©Patek Philippe

De resto, as celebrações dos 175 anos da Patek Philippe não se ficaram apenas pela apresentação de um novo instrumento do tempo de peso. A marca lançou também duas coleções comemorativas: uma composta por relógios de exceção e outra por relógios métiers d’art — esta uma das mais reconhecidas vertentes da criação Patek Philippe. Além disso, foi ainda anunciada uma exposição imperdível de peças raras, criadas para celebrar os momentos históricos da casa suíça. Esta seleção estará exposta no Museu Patek Philippe de 14 de novembro de 2014 a 22 de abril de 2015.
No âmbito do evento, a Patek Philippe soube ainda lançar-se em grande na preparação de todo um ambiente de elegância e classe, muito ao estilo ‘Gatsby’ dos anos 20/30 americanos: de um espetáculo cool ao som de jazz, ao lançamento de publicações de luxo dedicadas às novas coleções, passando pelo próprio convite para o evento e pela estrutura criada como envolvente na zona de entrada da manufatura, as celebrações dos 175 anos da Patek Philippe ficam para a história da marca e para a história da relojoaria.

Grandmaster Chime Ref. 5175

Pormenor do Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175. ©Patek Philippe
Pormenor do Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175. ©Patek Philippe

De todas as complicações em relojoaria, as complicações acústicas talvez sejam as mais universais e as mais fáceis de compreender. É tudo uma questão de ouvido. Esta simplicidade contrasta, no entanto, com as dificuldades de conceção e de afinação. Um relógio com repetição de minutos, por exemplo, é sempre encarado como uma verdadeira obra da micromecânica e, no caso da Patek Philippe, as complicações acústicas são um mundo à parte. Não é por acaso que cada relógio sonnerie produzido na manufatura tem de passar sempre pelo ‘teste de ouvido’ do próprio presidente da marca. Só os relógios assim aprovados são destinados ao cliente.
O lançamento do Grandmaster Chime Ref. 5157 vem, no entanto, reforçar uma evidência que vai além da excecionalidade das complicações acústicas. É que nos tempos mais recentes, diversas marcas têm apostado em utilizar o som noutras funções que não as mais óbvias. Não se trata de indicar as horas, os quartos e os minutos, a pedido ou não; nem se trata de agendar o toque para uma determinada hora; trata-se da utilização do som em funções lúdicas, como no Margot da Christophe Claret, ou em funções como a indicação da data — neste caso, uma solução patenteada do Grandmaster Chime Ref. 5157. Nesta medida, o novo relógio inscreve-se numa indiscutível modernidade. Aliás, há neste relógio todo um conjunto de elementos que o transportam de imediato para o mundo atual.

Entre a tradição e a inovação

Em traços gerais, o Grandmaster Chime Ref. 5157 é um relógio de pulso com caixa reversível de dupla face em ouro rosa. De um lado, encontramos um mostrador dedicado ao tempo regular, do outro lado, um mostrador dedicado ao calendário. Ambos os mostradores, apresentam, no entanto, um conjunto respeitável de complicações — ao todo, são 20 as complicações que a peça alberga, nomeadamente cinco complicações acústicas, inclusive a patenteada data com repetição. Nas laterais da caixa, quatro botões têm gravado o nome da complicação acústica que ativam, para que ninguém se perca, e os mostradores brancos surpreendem pela excelente legibilidade. Outro aspeto que salta à vista é o trabalho decorativo que deixou algumas vozes menos satisfeitas. Até podemos afirmar que a gravação da caixa oferece um toque rococó que seria dispensável (uma caixa limpa seria perfeita), mas, por outro lado, esta opção pode ser encarada como uma demonstração de força dos métiers d’art tão em voga e tão caraterísticos da Patek Philippe. Eis como o Grandmaster Chime Ref. 5157 é, até nesta medida, perfeitamente atual.

Pormenor do Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175. ©Patek Philippe
Pormenor do Patek Philippe Grandmaster Chime Ref. 5175. ©Patek Philippe

Depois há todo um lado prático e funcional inerente a esta peça, apesar de ficar bem claro que este não é um relógio para ser usado, mas sim, qual obra de arte, para ser contemplado: o calendário perpétuo legível e com possibilidade de recuo no tempo sem recorrer a técnicos especializados; as indicações das horas e dos minutos nos dois mostradores; e soluções técnicas únicas. Em última análise, a modernidade desta peça está ainda ao nível do seu valor enquanto relógio, enquanto história e enquanto investimento. É que, se a Patek Philippe é recordista em leilões, quando se trata de peças exclusivas, o seu valor aumenta exponencialmente, como já vimos. Falamos de uma edição de apenas sete exemplares, o último dos quais destinado ao próprio museu da marca. Fica a nota de que os seis outros relógios que completam esta edição limitada foram já vendidos.

Pela ‘obscenidade’ de cerca de 2,5 milhões de francos suíços. Um verdadeiro tesouro.

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