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«A meia hora da praxe»

Edt42 — Trinta minutos são suficientes para confecionar uma receita de dificuldade média, para ver o telejornal, para casar no registo civil. Trinta minutos são suficientes para quase tudo. Em trinta minutos, vou ali e já venho.

Crónica publicada no número 42 da Espiral do Tempo.

Quando os portugueses falam naquilo que os distingue dos outros povos, subestimam-se ou sobrestimam-se. Só raramente referem as mesmas características que os estrangeiros apontam quando comentam as suas experiências por cá. Entre estas características nacionais, uma das mais referidas pelos outros é a pontualidade.

A falta de pontualidade, entenda-se.

Entre os europeus do norte ou os asiáticos, por exemplo, sobram histórias acerca de encontros marcados com portugueses. Tratando-se de asiáticos, chegaram alguns minutos antes da hora marcada e, a seguir, entraram em pânico à medida que o tempo foi passando. Se não desistiram de esperar, a surpresa foi absoluta quando, cerca de meia hora depois, chegou o português sorridente, sem uma palavra acerca do atraso.

Meia hora é o tempo subentendido de espera. Não sei quem determinou esse número. Talvez esse seja o tamanho médio da paciência lusa, não há mais mensagens de telemóvel para atualizar depois disso. Ou talvez essa seja a medida da energia necessária para que os nossos compatriotas ganhem coragem, se levantem e iniciem a trajetória até ao lugar onde marcaram o compromisso.
Repare-se que não utilizei a primeira pessoa no plural, não me incluí. A razão é óbvia: nenhum português em nenhuma circunstância admite que se atrasa. Muito facilmente reconhece que esses atrasos existem, pode sentir que é vítima ocasional dessas esperas, mas não admitirá essa prática. E eu, claro, sou português.

De certo modo, faz sentido. Em Portugal, meia hora não é considerado atraso. Não foram poucas as vezes em que, estando no horário marcado para qualquer compromisso público, me pediram para esperar alguns minutos. Esses minutos servem para dar tempo às pessoas de irem chegando. Esse minutos, já se sabe, são meia hora.

Durante muitos anos, Fernando Mamede foi o recordista mundial dos dez quilómetros. Fernanda Ribeiro também foi a melhor corredora mundial dessa distância em vários anos. Na sua melhor prestação, Mamede fez pouco mais de 27 minutos. Fernanda Ribeiro fez cerca de 30 minutos. Como se nota, são marcas que equivalem mais ou menos à tradicional meia hora. Ou seja, durante esse tempo omisso, há portugueses que correm dez quilómetros inteiros.
Não sei se é uma teoria muito forçada. É possível que eu não seja o melhor intérprete de números e estatísticas. Ainda assim, tudo parece bater certo. Passo a explicar. Como os portugueses deixam sempre tudo para o último instante, a minha teoria para justificar este enorme sucesso nos dez quilómetros, a tal exata meia hora, tem a ver com o facto de, repentinamente, se aperceberem das horas que já são. Então, dizem a famosa frase: já estou atrasado. Pensam: já devia lá estar. E é nesse momento que batem o recorde mundial.

Refiro-me aos outros. Eu não, claro. Eu, como é evidente, chego sempre a horas. ET_simb

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