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Em terras das cobras pintadas

EdT56 — O primeiro geoparque português cumpre este ano o 10.º aniversário. O território das ‘cobras pintadas’ inaugurou uma promissora vaga de promoção e proteção do património geológico.

Crónica originalmente publicada na edição 56 da Espiral do Tempo (outono de 2016).

Imagem de abertura: As cruzianas são o ícone do Parque Icnológico de Penha Garcia, integrado no Naturtejo, o primeiro geoparque português. Representam sulcos deixados por trilobites há centenas de milhões de anos enquanto vagueavam pelos mares em busca de alimento. © Pedro Martins

«Vai ver as ‘cobras pintadas’?», pergunta uma senhora, mal o visitante chega a Penha Garcia, mostrando a atitude gozona de quem assiste ao mesmo fenómeno há cerca de três décadas. Na década de 80 do século XX, um estranho inglês chegou aqui e começou a recolher das encostas e dos solos pedaços de rocha entrelaçada. Os turistas multiplicaram-se desde então, e, durante muitos anos, pareciam saber mais sobre este território austero do que a própria população. Numa região onde em tempos se exploraram filões de ouro, estes vultos suspeitos, de mochila à costas, martelo de geólogo na mão e interesse inusitado pelas paredes, davam que falar — na verdade, Penha Garcia tinha, e tem, um filão muito especial. A sua explicação e valorização está no coração de um projeto que cumpre este ano a primeira década.

À superfície, Penha Garcia é uma freguesia com uma história parecida com a de muitas outras da raia portuguesa. Assumiu um papel histórico na defesa da única fronteira terrestre do território durante os dois primeiros séculos da nação. De atalaia, num cume que parece só acessível para águias e abutres, o seu castelo medieval quartzítico data do segundo reinado português. No interior da Igreja Matriz, uma pequena imagem de Nossa Senhora do Leite remete-nos para o final do século XV. Como muitas outras freguesias do interior, a curva demográfica da freguesia no último século e meio é perturbadora — o número de habitantes contemporâneos corresponde sensivelmente ao do censo de 1864, como se o tempo não passasse por este território inserido no concelho de Idanha-a-Nova.

Parque Icnológico de Penha Garcia
Parque Icnológico de Penha Garcia, para dar uma perceção do conjunto do afloramento. © Gonçalo Pereira

De certa maneira, a premissa é verdadeira. O tempo é muito relativo em Penha Garcia.

À passagem do núcleo principal do Parque Icnológico local (o único em território português), um feixe de laser dispara discretamente. Invisível, passa despercebido aos visitantes, que atiram o pescoço para trás e concentram-se nas paredes quase verticais onde sobrevivem vestígios de um mar antigo, mas trata-se de um moderno dispositivo de contagem de visitantes na Rota dos Fósseis integrado numa estratégia mais ampla de investigação sobre o papel dos geoparques em Portugal e a missão que a sociedade lhes incumbiu.

Catorze mil visitantes passaram em 2015 por este local, berço do primeiro geoparque português, e fizeram-no especificamente para tentar compreender um relógio muito especial e moroso — o relógio da evolução. Em geologia, nada é imediato, e a decomposição da evolução de uma paisagem complexa pode ser desencorajadora. Em Penha Garcia, porém, essa lição encontra-se gravada com clareza na rocha há 600 milhões de anos. Aqui ficaram marcas de uma gigantesca colisão continental que deformou e levantou, em várias fases, o território atual português. Por aqui, nadaram também trilobites, um grupo de artrópodes marinhos já extintos — sabemo-lo porque as ‘cobras pintadas’ que se entrelaçam nesta região correspondem aos rastos (as cruzianas) por elas deixadas nos fundos de baixa profundidade enquanto vagueavam em busca de alimento.

No século XIX, quando Nery Delgado, oficial do exército e geólogo por afinidade, se interessou por este fenómeno, o conhecimento geológico era muito escasso e controverso. À falta de melhor termo, Delgado chamou bilobites às cruzianas e interpretou-as como pedaços de algas destruídos pela rebentação e fossilizados posteriormente, longe do contexto original. Hoje, sabemos que são sulcos horizontais, com padrões intrincados de estrias, correspondentes ao movimento de cada animal, escavando incessantemente o fundo argiloso.

O inglês Roland Goldring foi o primeiro a compreender a importância científica do local e a investigar profundamente as cruzianas. Fê-lo pacientemente, na década de 80 do século XX, publicando as suas descobertas exatamente um século depois do artigo original de Nery Delgado. Em 2003, porém, esse conhecimento cingia-se à academia científica e a um punhado de especialistas, mas um workshop realizado na região teve o condão de «juntar à mesma mesa pessoas que dispunham de um conhecimento parcial sobre cada dimensão do problema», conta Carlos Neto de Carvalho, coordenador científico do geoparque Naturtejo. «Havia especialistas de geologia, havia peritos em estratégias de conservação do património geológico, havia decisores autárquicos com vontade de agregar municípios em torno de um conceito turístico que funcionasse e havia uma cientista espanhola que já conhecia um dos primeiros geoparques europeus e falou dessa experiência. Saímos da reunião com o propósito claro de experimentar a criação de um geoparque neste território.»

Frecha da Misarela, geoparque de Arouca
Popularizada pelo genérico de uma novela recente, a Frecha da Misarela é uma das formações cativantes mais espantosas do geoparque de Arouca, constituído em 2009. ©Luís Quinta

Um geoparque não é uma área protegida, nem uma zona vedada. Não é igualmente um parque temático, nem se destina a conservar uma única jazida. Não pode ser igualmente um território com interesse exclusivo para o conhecimento científico. Tem de reunir um conjunto de formações geológicas (os geossítios) inquestionavelmente relevantes, visitáveis e de interpretação acessível.

Para o projeto da Naturtejo arrancar, foi preciso juntar ao Parque Icnológico de Penha Garcia um conjunto significativo de outros locais das proximidades que correspondessem a este caderno de encargos. A tarefa foi facilitada pela história da região, o tal relógio de baixa velocidade que aqui avança com meticulosidade.

Carlos Neto de Carvalho costuma fazer um exercício com os visitantes muito parecido com o que pôs em prática no workshop que levou à fundação do primeiro geoparque português. Aponta para o inselberg granítico da aldeia de Monsanto, aquela ilha de pedra que se ergue como a vela de um barco, 263 metros acima do nível do solo, nas imediações de Penha Garcia. Pede que o visitante seja capaz de condensar nele todos os 3.800 milhões de anos correspondentes à existência de formas de vida neste planeta. Explica depois que, apesar de a região conter provas de um longo período temporal da história geológica, correspondente a cerca de seiscentos milhões de anos, esse período corresponde na escala do inselberg a apenas 11 metros. Quanto à evolução do homem, essa, corresponderia a 30 dececionantes centímetros, ou uma fração do pequeno marco geodésico implantado no ponto mais alto. Por outras palavras, a geologia funciona numa escala inacessível, que teremos sempre dificuldade de materializar.

O geoparque Naturtejo agregou seis municípios beirões (entretanto alargados a sete, com a inclusão de Penamacor) em 2006. Incluiu alguns dos ícones mais famosos da Gardunha e as espantosas Portas de Ródão, Monumento Natural desde 2009. O sucesso mediático desta nova figura de proteção, que a UNESCO se apressou a abraçar através do apadrinhamento da Rede Global de Geoparques, entusiasmou outros promotores.

fajãs da ilha de São Jorge
As fajãs da ilha de São Jorge são uma das formações mais típicas da paisagem vulcânica dos Açores, resultando da solidificação de escoadas vulcânicas em contacto com a água fria do mar. O geoparque dos Açores foi formalizado em 2013. © Paulo Henrique Silva

Em 2008, o município de Arouca avançou para a formalização do seu próprio geoparque, testemunhando a concentração de vários fenómenos geológicos num território compacto – as trilobites que ali emergem nas formações de xisto; as pedras parideiras, que expelem — contras todas as expetativas — núcleos de quartzo e feldspato da pedra-mãe; e a belíssima serra da Freita, onde a encantadora Frecha da Misarela nos lembra o inquestionável poder escultórico da água em qualquer paisagem.

Anos depois, em 2013, o arquipélago dos Açores avançou para um novo geoparque, cuja identidade, naturalmente, evoca o vulcanismo das ilhas em toda a sua geodiversidade — dos algares às caldeiras, dos cones às fontes hidrotermais. Um ano depois, Macedo de Cavaleiros fechou o lote, com a proposta ousada de um geoparque de âmbito municipal, cujo Maciço de Morais desafia o visitante a ver nele o ‘umbigo do mundo’, como os geólogos carinhosamente o tratam. Na calha, há agora propostas para a constituição de geoparques na serra da Estrela, em Porto Santo, em Grândola e em Barrancos, provando que uma boa ideia pode ser contagiosa e que os modelos de desenvolvimento turístico baseados em património geológico podem funcionar.

De cada vez que o feixe de laser de Penha Garcia conta mais um visitante na Rota dos Fósseis, a freguesia reescreve o guião de uma história de decadência que já lhe estava destinada. Os artrópodes que deixaram os sulcos na paisagem extinguiram-se há muito, mas o rasto da sua presença alimenta a chama de um desfecho diferente para as populações da região. Afinal, a história não acaba aqui! ET_simb

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