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Espreitar para dentro da bota

EdT51 — «Nem que deixe a pele nisto» é uma frase do António sobre a sua forma de escrever. No caso dele, toda a vida. Há muitos anos, para evitar contrariedades (ou para as inventar), virei do avesso uma opinião portuguesa sobre o trabalho e o resto. Nessa altura, disse a alguém:
− A minha relação com António Lobo Antunes é estritamente de amizade. Nunca me verão meter na sua vida profissional.

Crónica publicada na edição  da Espiral do Tempo 51.

Isto acabou furado por várias razões, uma delas foi ter sido convidado pelo jornal Público para escrever sobre a digressão de 2008 do escritor pelos Estados Unidos da América, na qual também acompanhei a minha mulher e sua editora (Tereza Coelho, morta em 2009). Foi na Biblioteca Pública de Nova Iorque, uma das mais belas e valiosas do mundo, que ouvi engasgar-se de silêncio a culta plateia quando António contou, naquela voz de madeira e violoncelo, que era jovem médico quando um enfermeiro lhe levou da sala, enrolado num lençol, um menino morto de leucemia e que Deus não tem o direito de pôr crianças de cinco anos a suplicarem por morfina. O pezinho esquerdo soltou-se no corredor, abanou no ar e António decidiu:
− Vou escrever para aquele pé.
Não é por, é para o pé.

Nessa altura, ajudei a Tereza a ultimar uma agenda anual que dava aos leitores uma frase de Lobo Antunes por dia, e algumas dessas frases acabaram-se-me incrustadas no crânio, parte de dentro. Outras vieram depois. Pepitas peneiradas nas dezenas de romances (vai agora pelos 30) e nos livros de crónicas do mais importante escritor português vivo e um dos autores mais traduzidos, amados e premiados do mundo. Também mas disse ou li em entrevistas, ou em provas de revisão rascunhadas que tenho ali nas prateleiras. Em conversas de café e sofá, em passeios a pé a falar do mundo, da guerra de África, da maldade e a bondade, dos escritores que admira desde os antigos e a maneira de recordar e dizer poesia, verso por verso, palavra por palavra. Não tenho (nem alguém terá) memória verbal como a da galáxia elefantina, mas do António posso desenfiar algumas frases de cabeça, um colar solto aos pulos na pedra:

«Espreitar para dentro de uma bota porque às vezes há coisas.
Custa muito pedirmos uma mentira e darem-nos a verdade.
Passar a mão por cima de um móvel e encontrar restos de coisas esquecidas, lâmpadas fundidas, pó, insectos.
Não me sinto eu que esquisito.
Tão estranhas as mulheres, ausentam-se permanecendo, permanecem partindo.
Onde uma mulher teve um amor feliz é a sua terra natal.
Quem é Deus que não está. Saiu de viagem, está a dormir a sesta, tem uma visita do Papa.
Sorri, ou pelo menos puxa os cantos da boca para cima: se mantiveres os olhos secos vão pensar que é um sorriso.
O destino dos pobres é perderem bocados.
Um sótão cheio de tralha inútil a minha cabeça.
Tenho uma memória terrível, lembro-me de tudo.
A vida é uma pilha de pratos a caírem no chão.
Que faria eu se estivesse no meu lugar?
Quem não tem família não se habitua aos outros.
Encaro a realidade mas muito pouco.
Não falo muito de amor porque sufoco.
Aquilo que escrevo pode ler-se no escuro.
… isto é a vida, não um romance…»

Agora sou eu a falar outra vez. A decisão de não misturar coisas foi ultrapassada com ruído quando a atriz Maria Rueff disse a António Lobo Antunes que gostaria de fazer um espetáculo sobre as mulheres dos seus livros e crónicas, o António respondeu-lhe para ela fazer o que quisesse, a Maria pediu-me para a ajudar, o António achou bem e o encenador do Teatro Meridional Miguel Seabra oficializou-me o convite para a dramaturgia e adaptação. Foi assim que surgiu a peça António e Maria (que estreou no Centro Cultural de Belém, em maio e, depois de digressão pelo País, voltará no outono de 2015 ao espaço do Teatro Meridional, em Lisboa). Um monólogo múltiplo de mulheres ‘antunianas’ — para usar uma definição válida para a literatura das próximas décadas, séculos — no mistério da sua densidade, complexidade e… simplicidade. António, como diz em cena a Maria, pondo-se na voz dele, gosta de pessoas modestas. Já que estou também a falar de mim, admito que foi a primeira vez que escrevi com tesoura. Precisei de subir as montanhas e recortar dos cumes do António um texto novo de vozes mutantes, unidas na magnífica e inesperada (para quem só conhecia a ‘palhaça’, como diz a Rueff) interpretação. Um, vamos lá, doméstico sublime em palco. Onde se prova uma ideia que a Tereza defendeu na fotobiografia que editou do escritor: a sua ‘polifonia’ é, afinal, uma única voz múltipla. Habitada, vivida, morta e às vezes ressuscitada pelo autor e homem Lobo Antunes.

«Antero, não morras agora que estão a olhar para nós. Imagina que bonito Antero, um antigo chefe de secção de nariz nos tremoços.»

O humor das crónicas, que o António diz, sem justiça para António, não passar de «água pelos joelhos». Depois, o mergulho no oceano, gastar a garrafa, descomprimir para não morrer de embolia, mergulhar outra vez, mergulhar melhor.

Bom, mais duas de António Lobo Antunes para acabar uma crónica que há anos dedico aos melhores escritores da Terra (se os houver noutros mundos, melhor):

«Há ocasiões em que nos devíamos picar com uma varinha, não é?
Alguma coisa há-de acontecer até amanhã de manhã.» ET_simb

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