fbpx
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Este escritor nada seco

EdT56 — Desculpem começar com uma anedota pessoal, mas, há dois anos, na recensão que fez a um romance meu, um crítico literário chamou a atenção do público para a nítida influência de Raul Brandão na minha obra. Com isto, o crítico, que muito respeito no seu trabalho académico e  nos jornais, chamou-me também a atenção para o facto de nunca eu ter lido Raul Brandão na vida. Era tempo de o descobrir, nunca é tarde para tapar buracos na nossa ignorância.

Crónica originalmente publicada na edição impressa da Espiral do Tempo 56.

Raul Brandão é hoje um desses autores pouco lidos, mas com leitores fiéis e que continuam a gerar novas leituras. Por exemplo, As Ilhas Desconhecidas, conjunto de importantes reportagens feitas nos Açores, em 1926, serviu de base ao documentário com o mesmo nome, de Vicente Jorge Silva (2008); o compositor Alexandre Delgado compôs a opereta O Doido e a Morte (1994) e Manoel de Oliveira pegou na peça O Gebo e a Sombra e com ela filmou a sua última  longa metragem, em 2012.

Filho de pescadores da Foz do Douro (1867), Brandão fez carreira no Exército até se concentrar no jornalismo e na literatura. É um autor às vezes complexo e metafísico, mergulhando em simbolismos e decandentismos. Outras vezes, um homem extraordinariamente perto do seu povo e das origens materiais, psicológicas e morais da pobreza, da maldade e da exploração. Brandão sabe ainda ser claro como o sol, límpido como a chuva, descrevendo com realismo os movimentos trágicos e belos do trabalho e da natureza. Enfim, nada como lermos um pouco e, para isso, vou tentar dar-vos um apanhado de obras que mostram os seus estilos e método. Por exemplo, n’Os Pescadores (1923), o narrador descreve o dia em que viu dois irmãos pescadores mortos. A mãe, viúva, tinha tentado tudo para que o mais novo não seguisse a vida do mar, mas o mais velho convenceu-a de que protegeria o irmão:
«Apareceram no cabedelo, unidos um ao outro. O mais velho erguia nos braços o mais pequeno, tentando salvá-lo. Fui vê-los. Os caranguejos tinham-lhes roído os olhos e as bocas. Metiam medo — mas havia naquele grupo de horror uma ternura tão profunda e indestrutível que nem a morte conseguira separá-los… Ainda tenho diante de mim o moço agarrado aos braços rígidos do irmão, que o levantava para o alto, sempre para o alto, num derradeiro e desesperado esforço».

A página mais famosa desta obra é, porventura, a conversa com o faroleiro maldisposto das ilhas Berlengas. O narrador quer que o homem fale da beleza do sítio:
«Toquei-o. O homem sacode os ombros, levanta-se, atira o pano fora, encara-me de frente, com os bigodes assanhados entre as rugas e um olho azul de faiança cheio de cólera:
— Que beleza o quê? Que beleza?… Isto?! — E ri-se. — O vento e o mar! Sempre o vento e o mar! O vento, que no Inverno não me deixa chegar à porta, e o mar todo o dia, toda a noite a bramir! O mar desesperado, o vento desesperado… eu não sou um faroleiro — sou um náufrago. Que beleza, hem?… Nem posso dormir! Nem dormir! Toda a noite o vento uiva, toda a noite o mar ecoa, ameaçando submergir esta ilha do diabo!
Julguei-me autorizado a interrompê-lo:
— Mas no Verão é esplêndido…
— Nem olho. Só me resta uma esperança — fugir. Se não me mudam endoideço. O amigo sabe quantos endoideceram já? Três!…»

O faroleiro acaba a queixar-se ao narrador de que nem sequer «a pneumónica» chegou à ilha. Terão talvez reparado que eu falo em narrador e não em Raul Brandão. Porque foi com surpresa minha que, há coisa de um ano, o jornalista e historiador António Valdemar me contou, divertido, que esta famosa conversa do faroleiro tinha origem extremamente literária. Brandão foi às Berlengas, salvo erro acompanhado por Jaime Cortesão, que depois lhe lembrou:
— Mas tu não falaste com faroleiro nenhum!
— Mas se tivesse falado, era isto o que ele teria dito!

Como diria o outro, «se non è vero, é ben trovato». E se a realidade é menos interessante do que a lenda, imprima-se a lenda. Raul Brandão punha em tudo o que escrevia uma forte opinião. Interpretava a História pelo seu próprio filtro. Era também um homem obcecado com a injustiça do mundo e o absurdo da vida. Por exemplo, em O Gebo e a Sombra, um velho contabilista muito pobre acabará por ir para a prisão para proteger a família dos crimes do seu próprio filho. Neste Gebo (que significa corcunda, ou homem muito mal vestido), há uma voz da consciência que o rói por dentro. Gebo fala com a nora:
«E então — ouves isto? — nesses minutos horríveis, digo a mim mesmo aquelas palavras que ela me repete tantas vezes: — A honra tem-te servido de muito! Fizeste a tua desgraça e arrastaste-as contigo à desgraça. — Será assim, filha? Terei eu sido egoísta? Os outros estão ricos e eu estou pobre, por causa dos meus escrúpulos? Se soubesses o que isto me custa! O que isto me tem custado de gritos sem ninguém ouvir! Aqui entre nós, nunca o contei a ninguém, nem talvez a mim mesmo. Não chores… Às vezes sinto-me tão pobre e tão triste! Vem-me um negrume, é mais que tristeza, é talvez a morte… um homem deve ser honrado acima de tudo, o seu dever é ser justo e honrado ou é enriquecer?»

O tema da honra e da riqueza é utilizado de forma épica no livro El-Rey Junot, sobre as invasões francesas (por brincadeira, tive este livro na mesa da sala onde vi com amigos a final do Euro 2016, em Paris, e deu sorte). Um livro que lembra a entrada feroz e desordenada das tropas na Beira Baixa e o saque do património português como pertença do Imperador Francês e do seu general que trazia a ideia de ser coroado rei de Portugal.

Napoleão, apresentado em Portugal como «príncipe da Paz», revelou-se um salteador, genocida, homem sem escrúpulos, causador de enormes morticínios nos países invadidos e nas suas próprias tropas, ganancioso, amante do luxo. Para Brandão, Napoleão foi um «matemático do crime e da catástrofe».

Relembra os massacres do Norte e do Alentejo, a crueldade de Loison, o general sem um braço que deixou para sempre no português a expressão «foi para o maneta». O nosso povo parece ter esquecido, por suavização anedótica, que a sua expressão mais comum era «já fuzilé!». Loison, para servir de exemplo, mandava «picar a baioneta» multidões de velhos, mulheres e crianças nas povoações insurretas. «Por onde passam estas hordas napoleónicas, passa o Inferno.»
Brandão dedica também espaço aos «traidores» (nobreza e clero, quase todos) que alinharam pela França depois da fuga para o Brasil da corte de D. Maria Pia e o Príncipe Regente (futuro D. João VI) transferindo a capital para o Rio de Janeiro.

Finalmente, a obra mais conhecida, densa como espesso nevoeiro, simbólica e metafísica, é Húmus, publicada em 1917, ano da Grande Guerra. Numas partes, massacres e super-homens que arrancam os olhos a multidões de pobres. Noutras partes, humor:
«A vida é fictícia, as palavras perderam a realidade. E no entanto esta vida fictícia é a única que podemos suportar. Estamos aqui como um peixe num aquário. E sentindo que há outra vida ao nosso lado, vamos até à cova sem dar por ela. E não só esta vida monstruosa e grotesca é a única que podemos viver, como é a única que defendemos com desespero — Pois sim… pois sim… Estamos aqui a representar. Estamos todos aqui ao lado da morte e do espanto a jogar a bisca-de-três.»

Para terminar, um autopoema escrito do alto (Brandão media mais de 1,80 metros):

Este tipo esgalgado e seco,
já ruço,
que dorme nas eiras
ou sonha acordado nos caminhos,
sou eu.
Sou eu que gesticulo
e falo alto sozinho,
envolto na nuvem
que me envolve e impregna
Que força me guia
e impele até à morte?

Já conheço um pouco melhor o mestre Raul Brandão, que morreu em 1930, aos 63 anos. E espero que quem o tenha lido nesta página também. ET_simb

Save

Outras leituras