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Meteorologia

EdT51 — Às vezes, o presente é uma estação do ano. Está frio? É tempo dele. Está demasiado calor? O tempo anda maluco. Antes, as estações eram mais definidas. Sabíamos com o que contar. Às vezes, o tempo enche-se de silêncio e protegemo-nos com uma estranha forma de não dizer nada.

Crónica publicada na edição impressa da Espiral do Tempo 51.

Agora que começou o bom tempo, havemos de esquecer como foram os dias em que apenas chovia. As noites e o som da chuva depois das janelas serão uma lembrança que não será trazida por nada. Quando ainda era muito de manhã, a cabeça ainda cheia de sono e o corpo distante, existiam os nossos passos exteriores a nós e existia o frio a atravessar os cachecóis, as luvas. Agora, podemos guardar os cachecóis e as luvas. Ficarão na gaveta mais escondida do armário. Terão de passar muitos meses até que voltemos a precisar deles e a pensar neles. Passaremos meses sem dizer a palavra «cachecol», sem dizer a palavra «luvas». A partir de agora, quando saírmos de casa cedo, a luz será limpa sobre as casas e as ruas. No momento em que acordarmos, a claridade da primavera já entrará pela janela do quarto e nós acordaremos dentro da claridade e dentro da primavera. A cada dia, anoitecerá um pouco mais tarde e nós, depois de cada dia, esqueceremos como era quando anoitecia mais cedo.

Quando não sabíamos o que fazer ao silêncio. Sorríamos durante um instante em que esperávamos que o outro dissesse alguma coisa. Não tínhamos motivo para sorrir ou não sorrir. O silêncio tornava-se insuportável. Era então que falávamos do tempo. Nos primeiros dias do outono, os dias deixavam de ter a cor escura do mel, e acordávamos num dia em que as nuvens eram a cor cinzenta do céu a cobrir tudo, ruas e rostos. Começava o frio e nós, contra o silêncio, falávamos do frio sem nos lembrarmos de hoje. Não nos lembrávamos de hoje no ano passado. Não nos lembrávamos de hoje em todos os anos que passaram.

Hoje, começou o bom tempo e nós, silêncio, falamos do bom tempo. Amanhã, se houver um instante de silêncio, voltaremos a esse assunto. Poderá estar este céu ou, entretanto, poderão ter chegado nuvens. O tom de voz que escolhermos dependerá disso.

As nuvens são agora um esforço de memória de imaginação. Nestas palavras, sei que ontem existiam e sou capaz de prevê-las. Sem estas palavras escritas, no embaraço do silêncio, não me lembro da chuva ou do frio e, mais tarde, se tu e eu estivermos juntos e houver um instante de silêncio, como tantas pessoas, como todas as pessoas, falaremos do tempo. Agora que os dias começam a ficar maiores, podemos dispor desta claridade fresca. Depois, noutro tempo, poderemos falar sobre o vento, sobre a chuva. E estaremos sozinhos no momento em que levantarmos os olhos para tentar imaginar formas nas nuvens: nuvens nuvens nuvens. Chegará o outono. Esqueceremos hoje. Chegará o frio. Não nos lembraremos de estar aqui porque, nessa hora, tudo será o frio, todas as cores serão aquelas. E, quando existir um instante de silêncio, não olharemos um para o outro, sorriremos sem razão e falaremos do tempo. ET_simb

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