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O escritor que abriu a boca

EdT52 — Às vezes, gosto de ler memórias sem respeitar a ordem das páginas. Abre-se o livro ao calhas. Se a memória, ou autobiografia, tem uma ordem cronológica, perde-a. Se não tem ordem cronológica (capricho habitual entre escritores), ganha uma nova, ainda mais inesperada.

Crónica originalmente publicada no número 52 da Espiral do Tempo.

Tirei da estante a primeira edição inglesa de Beim Haüten der Zwiebel, neste caso Peeling the Onion, e em português Descascando a Cebola. Tem uma capa dura com um desenho do próprio Günter Grass, uma admirável cebola aberta que mostra as suas camadas, num luz-e-sombra terroso, sanguíneo. Calhou na página 36:
«É como me vejo no espelho retrovisor. A imagem não pode ser apagada: não é giz num quadro negro, é permanente. E apesar de, com o tempo, algumas apagadelas terem surgido, as canções ainda lá estão: ‘Em frente, em frente! As trombetas estão a troar a sua fanfarra! Em frente, em frente! A juventude não conhece o perigo!’ Dizer ‘seduziram-nos’ não desculpa os jovens que as cantaram e, portanto, não me desculpam. Não, nós deixámo-nos, eu deixei-me, ser seduzido.»

Quase em cheio na maior polémica literária e política de 2007, e que nunca irá terminar, quando o Nobel alemão (atribuído em 1999) admitiu ao mundo o seu passado nazi. Ou melhor, o seu enamoramento adolescente pela suástica e por Adolf Hitler, dos 14 anos de idade até à incorporação e recruta aos 17, o ferimento em combate antes de ser preso e levado para um campo americano de prisioneiros. O mais extraordinário foi não ter sido obrigado, como os outros alemães, a ingressar na tropa normal, nos batalhões da Wehrmacht, mas ter feito parte de um dos corpos mais sinistros, mortíferos e racistas de toda a história da Europa: as Waffen SS. Depois disso, deu-se a constante autoamnésia do passado de Günter para a construção de um Grass como consciência moral da Alemanha, e da esquerda alemã, um artista em luta contra os alemães que nunca quiseram admitir a culpa pela II Guerra e pelo Holocausto. Na verdade, falava também de si, mas ninguém o sabia até ele resolver descascar a cebola da sua vida.

É um caso muito, muito complexo. Mas a força de Grass, foi — ainda é — a de ser um grande, grande escritor. Ele é o homem que escreve sobre a maneira de usar a vida para fazer uma obra:
«Acreditar: quer dizer acreditar nas nossas mentiras. E posso dizer que estou grato por ter aprendido esta lição muito cedo.»

É também o polemista que admite:
«Eu não me voluntariei exatamente, fui recrutado, o que foi idiotice à mesma. Eu queria ir para os submarinos e depois acabei nas Waffen SS.»

É o pacifista que, surpreendido com a resposta ácida ou magoada de tantos leitores, com a crítica de políticos, governos e países, se viu a repetir (nem todos acreditaram, naturalmente):
«Fiz parte das Waffen SS mas nunca me envolvi em nenhum crime.»
«Eu não me voluntariei para as Waffen SS, mas fui, como o foram milhares do meu grupo, conscrito. Eu não sabia, nessa altura, aos 17 anos de idade, que se tratava de uma unidade criminosa. Pensava que era uma unidade de elite.»

Já depois de ganhar o mais importante prémio literário do mundo, o escritor explicou o que o movia desde o início. Queria entender-se a si próprio e, como isso, a Alemanha. «Como foi possível que um país esclarecido como a Alemanha se tivesse atirado para o nazismo? Essa questão tem-me ocupado desde O Tambor de Lata, o meu primeiro livro. A história também mostra que nunca podemos saber como é que a vida de uma pessoa vai evoluir; não há garantia de que uma pessoa irá fazer o que está certo e evitar o que não está certo.»

É também ao O Tambor de Lata que eu regresso. Na verdade, só o li há poucas semanas, numa excelente tradução de Helena Topa (ed. Dom Quixote, 2009). É a história de Oskar, um menino que resolve nunca crescer, e que se transforma voluntariamente em anão (fica com o tamanho de três anos para sempre). Assim começa: «Confesso, estou internado num asilo de alienados» e, depois, conta-nos a sua vida em Danzig (‘cidade livre’, a atual Gdansk na Polónia, onde Günter Grass nasceu em 1927), sempre a tocar o tambor de lata branco e vermelho, exasperando todos e levando a família a uma sucessão de catástrofes, com a invasão nazi pelo meio.

Na verdade, a minha memória já conhecia o livro, por assim dizer, na versão cinematográfica de Volker Schlöndorff, que em 1979 ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes (partilhada com Apocalypse Now, de Coppola) e, a seguir, o óscar de Hollywood para melhor filme estrangeiro. É estranho como a memória da minha juventude ainda revive, ao ler o livro, os tormentos e as volúpias estranhas do filme: as cenas de sexo clandestino entre a mãe de Oskar e o tio, o momento em que Oskar usou o seu inacreditável poder vocal para destruir à distância os vidros da estação de caminhos de ferro e uma coleção de sapos e salamandras em frasco, com os bichos a caírem do formol como pedaços de borracha; a morte da mãe de Oskar, enlouquecida depois de ter visto uma cabeça de cavalo servir de isco/ninho de enguias-do-mar. O marido quer obrigá-la a comer um petisco dessas enguias e nos dias a seguir ela começa a engolir quilos de arenques, a beber litros de óleos de conservas, até morrer como uma desgraçada. Lembro também o momento em que Oskar implica o tio no assalto dos polacos aos correios polacos, fazendo com que os nazis da cidade o fuzilem.

Dizem as biografias de Günter Grass que um seu tio morreu fuzilado nesse assalto histórico. Aqui termino as comparações. No entanto, é impossível não ler um excerto de O Tambor de Lata, êxito mundial em 1960 e uma das grandes obras literárias de sempre, sem sentir a consciência roída do escritor na voz burlesca do narrador-anão:

«Mas, como toda a gente, nos dias em que um sentimento de culpa incómodo, impossível de expulsar do quarto, me empurra para as almofadas da minha cama de asilo, escudo-me na minha ignorância, algo que se tornou moda naquele tempo e que ainda hoje assenta a muitos como um chapeuzinho elegante.» (pág. 289).

Günter Grass, que morreu este ano em Lübeck, gostava de metáforas animais no seus livros: O Pregado, A Passo de Caranguejo, A Ratazana, O Gato e o Rato etc.

Um dia, disse: «A tarefa de um cidadão é manter a sua boca aberta.» ET_simb

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