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O jovem mestre da Rússia

EdT53 — Dostoiévski resumiu: «Todos nós saímos debaixo d’O Capote de Gogol». Referia-se ao grupo de escritores russos do século XIX que revolucionaram a arte do romance e do conto com um fortíssimo realismo moral e psicológico. Isto é, o próprio Dostoiévski, Tolstói, Turgueniev, Tchékhov, etc. Na verdade, a frase manteve-se viva no século XX e continua a servir para aquilo que de bom se escreve neste século XXI.

Crónica originalmente publicada na edição 53 da Espiral do Tempo.

A tragédia do miserável funcionário Akaky Akakievich, que, com enorme esforço e privação, consegue mandar fazer um rico capote e, com esse capote, ser convidado para uma festa importante, para logo à saída lho roubarem, transformando-o num espetro que assalta pessoas nas ruas de S. Petersburgo, continua imbatível em vários sentidos: humor, drama, surpresa, qualidade de escrita. Vladimir Nabokov, que não ficará famoso pela generosidade a admitir talentos, disse sobre Nicolau Gogol: «Quando, como no seu imortal O Capote, Gogol se deixou ir passear alegremente à beira do seu abismo privado, transformou-se no maior artista que a Rússia até hoje produziu.»

Chega de pedir emprestadas as impressões a outros. O meu problema é que em Gogol é tudo tão bom que não sei bem por onde começar. Tentarei uma lista pessoal de orgulhos (o talento de Gogol provoca orgulho alheio, nunca enerva…). Mas, antes disso, repito uma evidência lembrada por sucessivos académicos e pela memória popular: desde o instante da publicação, as suas personagens mostram-se tão vivas, tão psicologicamente profundas (ou tão ligeiras), tão representativas daquilo que elas próprias são, tão hilariantes, que entram diretamente no folclore e na linguagem comum. Quem diz publicação diz estreia, como na peça O Inspector (traduzida por Nina Guerra e Filipe Guerra, ed. Assírio & Alvim), que mesmo lida nos põe a rir alto, quase 200 anos depois. Sabemos que, na estreia, em 1836, não foi só o público, incluindo o imperador, em delírio: os atores desmanchavam-se nas falas porque olhavam os espetadores e reviam-nos nas suas personagens de palco…

Este poder de Nicolau Gogol (ou Nikolai Gógol) ficará para sempre. Por exemplo, dizer Nosdriov na Rússia é lembrar um formidável embusteiro. Chamar a alguém Pliuskine é acusá-lo de avareza senil e exasperante, de ser um sovina com um apetite de lobo, que «quanto mais devora menos se sacia.» Estas figuras pertencem ao último trabalho do escritor, o romance — chamou-lhe ‘poema’ — Almas Mortas, livro épico-cómico que se transformou em escândalo geral e em confusão para o próprio autor. Sendo Gogol um conservador, deu excelentes argumentos aos democratas contra os absolutistas, o que o deixou consternado e muito frágil psicologicamente. Nicolau viveria a última década da curta vida (morreu aos 41 anos) atormentado pelos resultados contraditórios da sua arte de génio: onde uns viram um panfleto nacionalista e eslavófilo, outros descobriram a primeira grande denúncia pré-socialista da sociedade de classes e do sistema da servidão. Gogol tentaria escrever uma segunda parte de Almas Mortas que explicasse e completasse a primeira, mas falhou e acabou por morrer numa crise aguda de delírio místico e religioso, queimando o que pôde. As páginas que sobraram, no entanto, são consideradas de qualidade menor, remendos realistas e explicativos do destino fantástico e delirante das personagens. Tenho, por sinal, uma edição inglesa que inclui esse segundo texto, e uma tradução nacional — aliás, em excelente português —, que prescindiu dele (Editorial Estampa, tradução de José António Machado). No romance, um vigarista de nome Chichikov chega a uma cidade para comprar, a vários proprietários rurais, os nomes de servos camponeses já falecidos, mas que ainda figuram como vivos nos recenseamentos. A estupefação é grande, mas vai conseguindo, uma vez que se propõe pagar os impostos anuais desses mortos. O objetivo escondido é, mais tarde, pedir um empréstimo com a garantia da hipoteca de 400 almas dos falsos vivos que comprou em saldo. E depois fugir. «O que podem valer essas almas?», explica ele a uma velha vendedora desconfiada. «Absolutamente nada, estão mortas e bem mortas, são apenas pó.»

Esta crueza cómica e poética está presente em toda a obra de Gogol, nascido a 20 de março de 1809, em Poltava, território da atual Ucrânia (russos e ucranianos disputam ainda a sua nacionalidade). Em O Nariz, acompanhamos a aventura de um apêndice nasal que salta intacto e sem explicação da cara de um funcionário, Kovalev, e aparece no meio da fatia de pão matinal do seu barbeiro bêbedo, Ivan Yakovlevich. Kovalev pegou no espelho porque «queria olhar para a borbulha que tinha rebentado no seu nariz no serão anterior, mas, para seu grande espanto, viu que em vez de um nariz tinha um espaço completamente liso!»

O princípio do conto, com o barbeiro a tentar livrar-se do nariz como se tivesse cometido um assassínio, de que, aliás, não se lembra de nada, é das passagens mais angustiantes e divertidas da literatura. E o resto do conto, com Kovalev à procura do apêndice, por polícias e burocracias, até descobrir o seu nariz transformado em oficial superior do Império, fardado e com carruagem, é uma forte imagem dos caminhos absurdos da ascensão social.

Tenho ainda de falar de Diário de um Louco, onde um homem, na primeira pessoa, começa a descodificar a linguagem dos cães e se julga transformado em rei de Espanha, num caminho aflitivo de angústia e violência dos serviços psiquiátricos. A grande invenção de Gogol neste conto é a transformação do tempo, muito antes dos surrealistas: meses que têm mais de 50 dias e nomes inventados (mês de julhosto etc.), datados depois do ano 2000.

Por último, um dos primeiros livros de Gogol, da sua fase de nacionalismo romântico (o pai de Nicolau era cossaco). Taras Bulba, uma história ucraniana de guerra contra turcos e polacos em que acabamos, sem perceber como, e contra a nossa vontade, tal é o poder épico das palavras, a justificar um pai que mata o seu filho (traiu por amor). Uma vez falei disto com uma russa, que declamava a grande frase de cor: «Eu te dei a vida, eu ta vou tirar!»

Gogol, caros leitores, tem muitos caminhos. A propósito, é também o homem das melhores imagens: «atalhos serpejavam nos campos em todas as direções, como caranguejos cativos a saírem dum saco.» (in Almas Mortas). ET_simb

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