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Quotidiano

EdT56 — Para medir e planear o tempo, precisamos de medir e planear as necessidades, as obrigações e os desejos. O resultado é a nossa vida, esquematizada num gráfico circular.

Crónica originalmente publicada na edição de outono de 2016 da Espiral do Tempo

A maneira como passamos os dias é a maneira como passamos a vida. Será que passamos o tempo da maneira que queremos?

Normalmente, num gráfico circular, o dia de um indivíduo paradigmático divide-se em três fatias: 1) sono; 2) trabalho; 3) lazer.

O sono é o elemento mais garantido. Nem as pessoas extraordinárias do mundo lhe podem escapar. Líderes de países, ídolos de multidões, atletas de alta competição: todos têm de dormir. Os seres humanos são uma máquina que acumula energia e que, depois, aos poucos, consoante a atividade que desenvolve, a vai gastando. Somos como um telefone que precisa de ser recarregado.

Precisamos de dormir, mas o que ganhamos com isso? O prazer de dormir é um investimento. Não desfrutamos dele exatamente enquanto estamos a dormir, apenas mais tarde, quando acordamos. Se estamos na cama, despertamos brevemente, sentimos o prazer de estar na cama e voltamos a adormecer, não é desfrutar adormecidos, é desfrutar esse instante na cama. Por definição, dormir é inconsciência. Dormir é passar cerca de oito horas, uns mais e outros menos, de olhos fechados, imóveis, como um objeto, como uma planta, desligados. Aquilo que ganhamos com esse tempo de inconsciência apenas pode ser sentido na consciência. Ao longo do dia seguinte, revigorados, estaremos disponíveis para desfrutar do tempo.

O trabalho é um elemento muito mais inconstante. Não existe um único trabalho e uma forma única de nos relacionarmos com ele. Nesta perspetiva, o trabalho é as funções exercidas multiplicadas pelo indivíduo que as exerce. Assim, em rigor, há tantos trabalhos quanto o produto de todas as funções multiplicadas por todos os indivíduos. Há conclusões genéricas que se podem retirar acerca de um indivíduo, considerando a profissão que exerce, mas essas conclusões são poucas e imperfeitas. Todos os ferreiros são diferentes e todos têm uma relação diferente com a profissão.

Quase sempre o trabalho é um compromisso, uma obrigação, mas pode ser percecionado de formas antagónicas. Nos dois extremos, estão justamente o sono e o lazer.

Quando não envolve qualquer espécie de entusiasmo, quando vendemos a existência a troco de um salário, como zombies que picam o ponto e cumprem horários; o trabalho é uma espécie de sono, de inconsciência. Quando existe prazer, quando nos divertimos, quando faríamos aquela atividade mesmo que recebêssemos a lotaria, o trabalho é uma espécie de lazer. Entre estes dois polos, existe um mundo inteiro de possibilidades. O mais provável é que os casos concretos sejam uma mistura destas duas facetas, uma sarapintada pela outra, uma listada pela outra.
Sobra o lazer, a suposta liberdade. Esse é o tempo que temos para dedicar às vontades só nossas.

Mas será que é assim? Quanto desse tempo é realmente lazer e não apenas tarefas e compromissos?

Regresso ao início: passamos o tempo da maneira que queremos? A maneira como passamos os dias é a maneira como passamos a vida. ET_simb

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