fbpx
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Mais ou menos como Sísifo

EdT54 — Talvez dependam de nós os pesos que temos de carregar. É mais fácil escrever esta frase do que acreditar nela, aceitá-la em todos os momentos e viver segundo aquilo que implica.

Crónica originalmente publicada na edição 54 da Espiral do Tempo.

No início, o tempo diante de nós parece um enorme bloco de granito. Os gestos são impossíveis no seu interior. É um tempo compacto, pesa toneladas. Se algum camião transportasse esse tempo, abrandaria nas subidas até ir quase a passo, o motor a esforçar-se, seguido por dezenas de carros à espera para ultrapassá-lo.

Aquilo que temos para fazer está depois desse tempo granítico, ou talvez esteja no seu centro. Em qualquer dos casos, temos de atravessá-lo, essa é a única possibilidade. Raspamos a rocha com as unhas, cada avanço é doloroso e ínfimo. Deixamos de acreditar, mas somos obrigados a acreditar.

Possuímos algum tempo, conseguimos distribuí-lo no calendário, faremos lindos planos, sublinhados com marcadores fluorescentes que comprámos de propósito, mas o tempo que temos à nossa frente, concreto, à distância da nossa ação, é sempre opaco, não somos capazes de distinguir seja o que for através dele.

É esse mesmo bloco de granito que cai sobre os nossos ombros a cada paragem. Se fechamos os olhos, só para descansar durante um segundo, esse bloco de granito pousa-nos sobre a cabeça até acreditarmos que não somos capazes de voltar a levantá-la. Se deixamos as mãos sobre a mesa, esse bloco de granito instala-se sobre as palmas ou as costas das mãos. Pesa sempre toneladas.

Os programas mais ridículos da televisão podem ser essa rocha. As pesquisas mais inusitadas no Google podem ser essa rocha. Os folhetos de publicidade que deixam na caixa do correio podem ser essa rocha.

Acordamos cedo, talvez, mas a manhã passou tão depressa debaixo desse peso. Para onde foi esse dia? Para onde foram todas essas horas de granito? À noite, já é demasiado tarde para nos ocuparmos daquilo que temos para fazer. Para onde foi a segunda-feira? Para onde foi a semana?

Os planos que fizemos no calendário, sublinhados pelos tais marcadores, não se cumpriram. Consideramos novas etapas, muito mais apertadas desta vez, há menos tempo, sublinhamo-las com os marcadores e acreditamos que, com algum sacrifício, com um empenho humano, razoável, ainda conseguimos atingir os nossos objetivos, aquilo que temos para fazer.

Mas agora o bloco de granito é do tamanho de uma montanha: é uma montanha inteira de granito maciço. Agonizamos debaixo desse peso, rastejamos ao longo de milímetros e sabemos que nos falta um caminho de quilómetros. Dormimos mal tapados no sofá da sala, comemos mal, tudo nos incomoda.

Então, ao fim de sete dias, Génesis ou Apocalipse, espreguiçamo-nos como se despertássemos de um sono de séculos. Esse gesto despedaça o bloco de granito que, entretanto, nos envolveu e, sobrevivendo, fazemos aquilo que temos para fazer. Bem ou mal, fazemos aquilo que temos para fazer. E não precisamos de dormir, de comer, de telefonar a ninguém. Só paramos no fim. Sofremos como se nos tivessem esfolado, mas conseguimos terminar o que tínhamos para fazer.

Renascemos nessa vitória. Por um instante, acreditamos que, da próxima vez, havemos de reconhecer o bloco de granito e havemos de destruí-lo logo no início. Mas não. Viveremos esta história mil vezes. ET_simb

Outras leituras