fbpx
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Nasceu

EdT57 — Impressiona a fragilidade com que atravessamos os dias e, ao mesmo tempo, a força com que atravessamos os dias. É também assim que atravessamos os meses, as estações e os anos. Nascer é o início do tempo.

Crónica originalmente publicada no número 57 da Espiral do Tempo (inverno 2016)

1. A força da sua mão é comovente. Agarra-se ao meu indicador. O desenho fino dos seus dedos e da sua mão inteira é apenas suficiente para cobrir metade do meu indicador. Talvez como veludo, a palma da sua mão é morna e suave.

Lentamente, acorda. Começa a mexer os braços. Leva as mãos à cara. Passa os punhos redondos, magros, pequenos pelo nariz, pelos lábios, pelas faces, pelos olhos fechados. Faz a expressão de uma pessoa grande que não tem vontade de acordar, mas que tem de acordar e que culpa o tempo, os outros ou o destino por ter de acordar.

Levanto-o da cama de ferro onde a enfermeira o trouxe. Sustenho o seu corpo sobre as minhas duas mãos abertas. As suas costas pousadas sobre as palmas das minhas mãos. E os meus dedos seguram-lhe a nuca, o peso da cabeça. E sinto os seus cabelos, talvez como veludo, a fazerem-me festas nos dedos. E existe um instante especial: ele abre os olhos, passa esse instante e volta a fechá-los.

Depois, em tentativas, abre e fecha os olhos, passam instantes, passam outros instantes, e abre e fecha os olhos até deixá-los apenas abertos. Digo-lhe palavras e ele olha muito sério para a minha voz.

Olhamo-nos. Uso um toque delicado para sentir a ponta dos seus lábios, os seus futuros beijos pousam na ponta do meu dedo. Aproximo-o do meu peito.


2.
Hoje. A partir de hoje, começa aquilo que podemos prever apenas vagamente. Acreditamos que conhecemos uma estrutura e adivinhamos-lhe variações. Se ficamos calados, sabemos que sabemos muito pouco, ou nada. Imaginamos que este dia, hoje, será recordado ano após ano. Quando lhe perguntarem a que horas nasceu, quando ele pensar em si próprio, de onde vem. De hoje a vinte anos, de hoje a trinta anos. Terá jantares com amigos em restaurantes, a conta será dividida no fim. Depois, neste mesmo dia do ano, será um velho com netos à volta. Só se faz oitenta anos uma vez na vida, dirão. Receberá aftershaves e frascos de água-de-colónia, gravatas e alfinetes de gravata. De hoje a cem anos, todos esperamos que seja assim, terá uma festa de aniversário imensa, espécie de casamento, com afilhados de todos os tamanhos, com os filhos dos afilhados, com os netos dos afilhados mais velhos.

Este dia será uma abstração que ele transportará na memória. Não porque o recorde, claro, mas porque nunca poderá esquecer as nossas descrições desde dia. Quererá saber o que estavam a fazer neste dia todas as pessoas que conhecerá.

E chegará o tempo em que fará contas. Com alguém a seu lado, dirá: tinhas três anos. E essa pessoa, que não distinguiu o dia de hoje, que não o compreendeu como um dia diferente dos outros, juntará todas as recordações de quando tinha três anos. Possivelmente, confundirá lembranças de outras idades e acreditará que aconteceram neste dia, nestes dias. Ou também poderá dizer: faltavam dez anos para nasceres. E essa pessoa, outra pessoa, também a seu lado, que nascerá daqui a dez anos, imaginará este dia com a mesma precisão com que imaginamos 1914.

Mas isso será depois. Hoje, 3.550 gramas. Hoje, aqui. Estamos aqui. E ele está aqui, acabou de chegar. Um futuro começa. ET_simb

Save

Save

Outras leituras