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Os sonhos do meu filho

Tenho aprendido bastante com os meus filhos. O mais novo ensinou-me a apreciar a segurança de um ponteiro, a robustez de um mecanismo, o peso de um objeto na palma da mão ou no pulso, rente à pele.

Foi o meu filho mais novo que me ensinou o gosto pelos relógios. Ensinou-me o sentido desse gosto ou, pelo menos, alguns dos seus significados possíveis. Às vezes, quando me aproximo do que está a ver na Internet, chama-me a atenção para detalhes que eu nunca distinguiria se ele não os apontasse com o dedo. Noutras ocasiões, em viagens de carro, explica-me marcas e caraterísticas. Num e noutro caso, refere também os preços que, com frequência, nos são inacessíveis. Se há um momento de silêncio a seguir, é porque ficamos a imaginar outras vidas, a considerar se alguma vez nos caberá vivê-las.

O meu filho mais novo está nas últimas semanas dos seus 14 anos. Chegará aos 15 daqui a um mês e meio. Logo a seguir, se continuarmos à velocidade vertiginosa a que os anos têm passado ultimamente, parece-me que pouco faltará para os 16, 17 etc. Neste momento, no entanto, tem ainda 14.

Sempre tive gosto por vários objetos, entendo o prazer da posse, a profusa complexidade nas relações que se podem estabelecer com objetos, o prazer da observação minuciosa de objetos. Mas foi preciso que o meu filho mais novo me ensinasse o gosto pelos relógios.

Fazendo agora um rápido balanço biográfico, encontro na memória três relógios que tiveram especial importância para mim:

— Infância: o meu primeiro relógio. Recebi-o como presente de aniversário quando fiz 12 anos. Tinha passado para o sétimo ano, ia mudar para uma escola na sede do concelho e, lá, precisaria de relógio e responsabilidade. Deixava para trás o tempo sem relógio e a infância mais profunda.

— Passagem à idade adulta: o último relógio de bolso do meu pai. Com o vidro riscado, gasto por trás, a minha mãe deu-mo numa época em que todos os objetos do meu pai eram preciosos, não podiam ser substituídos. Recebi esse relógio como se condensasse características fundamentais do meu pai que, a partir daquele momento, passavam a ser minhas.

— Idade adulta: o meu relógio de corrida. Os seus números digitais, as informações do seu GPS são um sinal de desafios que lanço a mim próprio, que dependem da minha vontade, do meu esforço e da minha organização.

É comum que os pais se convençam de que apresentaram o tempo aos filhos, mas é muito claro que os filhos também fizeram os pais descobrir o tempo. Escrevo «tempo» como poderia escrever «vida», em extensão e em fundura, em longevidade e em intensidade, mais e melhor.

Às vezes, enquanto ouço as lições do meu filho mais novo sobre relógios, penso na diferença da velocidade a que passa o tempo para ele e para mim. Avalio a sua experiência através da minha. E desejo muito que ele possa encontrar maneira de adquirir alguns desses relógios, que possa conquistá-los e desfrutar de cada um dos detalhes que tanto o entusiasmam. Tento ajudá-lo a distinguir essa imagem no futuro. Os seus maiores sonhos são os meus maiores sonhos.

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