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Eugénio Tavares d’Almeida: ao ritmo de um sonho

No ano em que o Museu do Relógio celebra o seu 25.º aniversário, fomos ao Convento do Mosteirinho, em Serpa, descobrir o que é que este lugar de peregrinação para aficionados de relojoaria e curiosos tem para nos mostrar. Eugénio Tavares d’Almeida recebeu-nos de braços abertos, fez-nos uma visita guiada e desvelou-nos as novidades do universo mecânico fundado pelo seu pai, António Tavares d’Almeida.

Por Cesarina Sousa e Miguel Seabra

O tiquetaque, quase hipnotizante, dos inúmeros relógios diz-nos que estamos numa cápsula de caraterísticas únicas que nos faz viajar no tempo. Mas, para o atual diretor e proprietário, este constante som de fundo representa um mar de histórias e faz de tal modo parte da sua vida que consegue abstrair-se, a ponto de não ouvi-lo. O Museu do Relógio nasceu de um sonho romântico tornado realidade. Hoje, pulsa ao ritmo de uma verdadeira paixão, em Serpa e em Évora.

O Museu do Relógio em Serpa está localizado no Convento do Mosteirinho. © Paulo Pires / Espiral do Tempo
O Museu do Relógio em Serpa está localizado no Convento do Mosteirinho. © Paulo Pires / Espiral do Tempo

O ano de 2020 tem sido peculiar para toda a gente. Mas antes de ser especial de uma maneira inesperada, seria sempre um ano de celebração para o Museu do Relógio…
2020 já estava calendarizado como sendo um ano épico, tendo em conta a celebração dos seus 25 anos com programas e iniciativas de diversa ordem. Gostaríamos de eternizar as bodas de prata perante os amigos do Museu e todas as instituições parceiras. Tínhamos tudo previamente definido para que em abril ou maio começássemos as nossas iniciativas, até ao fim do ano. Lamentavelmente, com a pandemia tivemos de adiar todas as iniciativas e tentar realizá-las no segundo semestre.
Mas não deixámos também de agarrar a oportunidade de termos tido os dois polos de Serpa e Évora encerrados ao público durante algumas semanas para fazer adaptações, nomeadamente com a criação de mais uma sala em Serpa — um antigo escritório da família Tavares d’Almeida, proprietária do Museu. Não era visitável, e no seu teto tinha um brasão parcialmente destruído; após três anos de procura por especialistas em heráldica, conseguimos encontrar a história original e a razão de ser do brasão dos Bocarro de Beja – que, em 1620, terá sido o principal ‘mecenas’ para a construção do Convento do Mosteirinho, que é o nome deste espaço que alberga o Museu. Depois, procurámos um artista plástico que tivesse capacidade para restaurar o brasão. Conseguimos encontrar o Mikaelo, artista de origem ucraniana formado na Universidade de Belas-Artes de São Petersburgo que veio para Portugal fazer uns trabalhos há cerca de 10 ou 12 anos, e apaixonou-se pelo país. Tentámos, assim, adaptar essa sala e o restauro à estrutura do Museu, pelo que, por baixo desse brasão com 400 anos, optámos por expor o ‘Santo Graal’ do Museu, que é um relógio de Edward East, também com cerca de 400 anos, e concentrámos quase toda a coleção de relógios de bolso no novo espaço.

Eugénio Tavares d'Almeida © Paulo Pires / Espiral do Tempo
Eugénio Tavares d’Almeida © Paulo Pires / Espiral do Tempo

O Eugénio cresceu com o Museu do Relógio. Nestes 25 anos, quais as etapas que destacaria no desenvolvimento e na expansão do Museu?Lembro-me perfeitamente do dia em que meu pai teve a ideia do Museu. Era uma pessoa muito agarrada à família e, apesar de ser um empresário muito proativo, falava sempre connosco; recordo-me de a minha mãe responder: «vais trazer estranhos cá para casa?» De facto, a coleção existia, mas não era visitável. Era só para amigos e para quando ele era convidado para ir a eventos, a exposições internacionais e nacionais, a concursos de relógios, a feiras de antiguidades; entretanto, tomou essa iniciativa de oferecer a Serpa e ao Alentejo mais um cartão cultural, um cartão-de-visita. Recordo também o momento mais triste do Museu até hoje, além do falecimento do seu fundador: quando o meu pai declarou a falência do Museu. Dava muito mais prejuízos e custos do que receitas, não estava projetado num local de muita procura turística e não tínhamos know-how nem parcerias certas. Lembro-me de o meu pai, com dor, ter fechado as portas cerca de ano e meio depois de abrir, entre 1996 e 1997. Por não termos visitantes suficientes nem apoios ou reconhecimentos de autarquias ou do governo, nem de empresas para solidificar a imagem institucional.

O espólio do Museu do Relógio contempla mais de 2300 peças todas mecânicas, datadas desde 1630 até os dias de hoje. © Paulo Pires / Espiral do Tempo
O espólio do Museu do Relógio contempla mais de 2300 peças todas mecânicas, datadas desde 1630 até os dias de hoje. © Paulo Pires / Espiral do Tempo

E como é que deu a volta à situação?
O meu pai não era pessoa de desistir ou baixar os braços e o Museu esteve fechado somente três ou quatro meses. Tentou encontrar soluções e encontrámos um mecenas do Grupo Montepio que nos ajudava em alguma despesa mensal, daí o Montepio ser nosso parceiro há mais de 20 anos. Já nos inícios dos anos 2000, o meu pai chegou à conclusão de que o Museu tinha de trabalhar para a sua sustentabilidade e fomos visitar museus idênticos pelo mundo para perceber como é que trabalhavam. Como o meu pai não era muito a favor (e eu também não) da subsidiodependência, tínhamos de criar as nossas próprias fontes de receitas para garantir a sustentabilidade. Na altura, tínhamos apenas um mestre relojoeiro para manter a coleção em estado imaculado e os visitantes pediam-nos o contacto de relojoeiros para reparar e restaurar os seus relógios. Passámos para seis mestres relojoeiros só a fazer reparações e restauros, e cerca de 50% a 60% das despesas do Museu passaram a ser suportadas pela receita da oficina. Da mesma forma, tentámos dinamizar a loja onde os visitantes podem comprar desde um simples merchandising do íman e caneca, até às temáticas de colecionadores como livros, estojos, pulseiras e até mesmo relógios. Inicialmente não existia porque o meu pai nunca quis dar um ar comercial ao Museu. Foi por necessidade.

E em que museus se inspiraram nas vossas viagens?
Essencialmente museus privados e coleções particulares, e não apenas museus de relojoaria. Fomos muito bem recebidos no Museu de Le Locle, na Suíça; a então diretora ajudou-nos a tomar algumas decisões em relação ao que podíamos ver/fazer para definir algumas estratégias. E também fomos muito bem recebidos no Museu de La Chaux-de-Fonds, que é fenomenal. Claro que a receita que nos davam não era lamentavelmente aplicável em Portugal. Nós aqui não conseguimos que um importador nos ofereça sequer um estojo para ter dentro do Museu para pôr um relógio. São frequências diferentes. As marcas conseguem pôr lá os relógios e ainda injetam capital para o museu expor as suas peças como sendo peças de história da relojoaria. Não temos esse conceito anglo-saxónico do gesto nobre de ajudar a cultura. Muitas vezes, recebemos doações de boas peças de estrangeiros para estar no Museu e, no entanto, os portugueses e os espanhóis normalmente só nos oferecem relógios velhos ou ferrugentos, porque o que é bom tem de estar no cofre ou no sótão guardado para ninguém usar. Por isso, tivemos de ser dinâmicos, criar parcerias para apresentar o Museu com um cartão-de-visita turística ou cultural aos hotéis, às agências de viagens e aos operadores turísticos, que são quem nos traz um grande volume de visitantes.

Uma das estrelas do Museu: o grande sonnerie de Edward East, um relógio de há 400 anos. © Paulo Pires / Espiral do Tempo
Uma das estrelas do Museu: o grande sonnerie de Edward East, um relógio de há 400 anos. © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Que outros momentos poderia destacar nos 25 anos do Museu?
Um, a abertura do polo de Évora. Durante vários anos, tinha sido um sonho do meu pai abrir um segundo museu da sua coleção. Tentámos negociações e tivemos convites de várias cidades, como Cascais, Funchal, Porto e Vila Nova de Gaia, a Fábrica da Pólvora, em Oeiras; mas, quando peguei no projeto, achei que só faria sentido abrir outro polo no Alentejo para que a imagem institucional mantivesse a ligação alentejana. Conseguimos os parceiros certos e, depois, tivemos de abrir o Museu em tempo-recorde; sabendo do pouco tempo de vida do meu pai, senti que era minha obrigação abrir o Museu o mais rapidamente possível. E, lamentavelmente, a última vez que ele apareceu em público foi para abrir o novo Museu, em dezembro de 2011. A morte do meu pai deixou-nos um sentido de responsabilidade maior relativamente a eternizar o sonho dele. A celebração dos 20 anos do Museu também foi épica, com a presença de mais de 100 amigos, de pessoas que sofrem da patologia dos relógios, de grandes colecionadores ou de simplesmente amantes de relojoaria. Fizemos simpósios sobre colecionismo, sobre o tempo do ponto de vista filosófico, da astronomia. Acabámos com uma grande degustação de produtos e um jantar de gala com um leilão de solidariedade em que o valor angariado reverteu para algumas instituições da região e no dia seguinte fizemos um passeio por algumas herdades aqui do Alentejo. No final do ano, terminámos essa celebração em Lisboa com a apresentação do relógio Inverso, seguida de um jantar invertido na Casa do Alentejo: partimos do café e terminámos nas entradas. Contámos com cerca de 100 pessoas. Momentos marcantes. Nos próximos 25 anos, queremos fazer mais e melhor…

Que números é que o Museu apresenta atualmente no que diz respeito ao total de peças, entre expostas e não expostas, e como é que se faz a gestão do acervo entre Serpa e Évora?
O meu pai abriu o Museu ao público em 1995 com, sensivelmente, 700 relógios de caráter totalmente diferenciador. Não havia um fio condutor na coleção a não ser o facto de ser composta por relógios mecânicos, o museu começou como uma coleção romântica — como qualquer colecionador de canecas ou de canetas ou de relógios. O meu pai era o único filho homem e herdou três relógios de bolso. Teria cerca de 22 anos. E sentiu a obrigação de restaurar os relógios por serem do avô. Quando mandou restaurar os relógios, começou a pesquisar – e sem Google. Na altura, para sabermos a história de um relógio, tínhamos de fazer centenas de quilómetros, saber quem é que tinha os livros, quem é que tinha a biblioteca, onde é que estava o dito colecionador de quem batíamos à porta para depois ficarmos no sofá a falar com ele. E, em conversa com os relojoeiros, veio a descobrir que existiam em Portugal milhares de relógios de bolso que ninguém queria. Estávamos nos anos 70, e era o boom dos relógios automáticos. Na altura, as pessoas já estavam saturadas dos relógios de corda manual, quanto mais dos relógios de bolso. As relojoarias tinham milhares de relógios para vender que recebiam de permutas, de trocas. O meu pai chegou a comprar muitos relógios de bolso a peso! Seguidamente, com o boom do relógio automático, as pessoas querem fazer upgrades e as relojoarias ficam cheias de Cauny, de Omega de corda manual, e então ele começa à procura dos relógios de pulso que ninguém queria. Nos anos 80, dá-se a popularização dos relógios de pilha e é então que o meu pai consegue enriquecer mais a coleção. As pessoas levam o relógio mecânico do pai ou do avô às relojoarias porque querem um relógio moderno de pilha.

Atmos da Jaeger-LeCoultre. © Paulo Pires / Espiral do Tempo
Atmos da Jaeger-LeCoultre. © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Para as pessoas desse tempo, o relógio de pulso era um objeto funcional e o relógio de quartzo era muito mais preciso…
E começou-se a deixar de adquirir relógios de marcas de relógios e começam a comprar marcas, e aí começamos a ver a loucura de relógios com marcas de camisas, de pneus, de perfumes… começam a comprar relógios que lhes dão algum sentido de moda. O mundo fica repleto de relógios mecânicos nas relojoarias. Eu cresci nos anos 90, e lembro-me de que qualquer passeio ou visita ou férias era ir às relojoarias com o meu pai. Hoje, o Museu tem outra forma de fazer a aquisição, sem ignorar as suas origens, mas com a quantidade é possível segmentar e criar essas tipologias. Temos 2700 relógios em exposição, fracionados entre os dois museus, o que significa que todos os relógios estão revistos, restaurados e a trabalhar. Estão devidamente inventariados, mas temos ainda perto de 600 relógios em arquivo. Muitos por restaurar e outros repetidos. Procuramos fazer alguma rotação entre Serpa e Évora, para que o visitante que vai duas vezes por ano ou três vezes por ano ao Museu não veja sempre as mesmas peças.

O que faz os visitantes regressar ao Museu?
Há os que não gostam tanto de relógios, mas que voltam ao Museu com outros amigos ou diferentes pessoas da família, porque gostaram da empatia, da forma de mostrar a coleção e do enriquecimento cultural. Depois, temos os que sofrem da patologia. Colecionadores e apaixonados que, quando acabam a visita ao Museu e se voltarem cinco minutos depoi, vão ver relógios que não viram antes, porque à primeira volta nunca se vê tudo e depois acabam por voltar mais tarde. Para estimular isso, procuramos fazer exposições temporárias e temáticas para fugir um bocadinho ao padrão da coleção permanente. Fizemos uma muito interessante com a CP, dedicada aos relógios ferroviários, em que a CP cedeu todos os relógios que tinha no seu arquivo de relógios de estação, de caminhos de ferro e mais uns tantos de bolso. Fazemos várias exposições por várias cidades do país. Em Serpa, certa vez lançámos um desafio a um conjunto de pintores para pintarem o tempo e vieram para aqui fazer telas sobre o que é que era o tempo para eles. Temos tentado aproveitar para fugir um pouco ao padrão só do relógio, lembrando que os museus também têm um caráter social e educativo. Temos feito também exposições um bocadinho out of the box para chamar outros mercados.

O espólio do Museu do Relógio contempla mais de 2300 peças todas mecânicas, datadas desde 1630 até os dias de hoje. © Paulo Pires / Espiral do Tempo
O espólio do Museu do Relógio contempla mais de 2300 peças todas mecânicas, datadas desde 1630 até os dias de hoje. © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Que tipo de visitantes é que o Museu tende a receber?
Grande parte dos nossos visitantes são espontâneos. É importante lembrar que, antes de ser Museu do Relógio, é um museu. E quem vem ver os museus são, normalmente, pessoas que gostam de cultura e que gostam de história. Arriscaria dizer que mais de 80% são pessoas que não valorizam relógios, no sentido lato do colecionismo ou de terem a coragem de comprar um bom relógio por milhares de euros. Mas também já conheci umas dezenas largas de visitantes que entraram sem gostar de relógios e hoje são grandes colecionadores. E vários assumem que foi depois da visita ao Museu que começaram a perceber o que é a paixão por relógios. Não se trata apenas de gostar de relógios e de marcas, trata-se de gostar mesmo da essência do que é o colecionismo, do que é um relógio. Esse é o papel também dos museus: estimular as pessoas a eternizar as peças das outras gerações. Quem tem o relógio do pai, do avô, do tio e que depois da visita ao Museu partiu para a ideia de reparar, restaurar para dar ao neto, ao filho. Dá-nos prazer ver visitantes que dizem não ser colecionadores de relógios, mas que afinal estão na fase embrionária — são ajuntadores de relógios, compram tudo o que lhes aparece — e regressarem meia dúzia de anos depois já com padrões de colecionismo. Tentamos transmitir aos visitantes que para uma coleção não é preciso ter muitos nem juntar muitos relógios. É preciso um padrão, e esse padrão tem de ser definido por nós. Há quem colecione relógios só da Segunda Guerra Mundial, outros que só compram relógios napoleónicos.

E qual é o seu padrão pessoal?
O meu pai só comprava relógios de aço, mostrador preto e tinham de ter calendário. Dizia que era por causa dos cheques: como passava muitos cheques, tinha de ter calendário. Relógios de ouro, turbilhões e complicações ele só comprava a pensar no Museu. Não os usava. Mas nunca comprou o seu relógio de sonho porque só veio a sair dois anos depois de ele falecer. O seu sonho era ter um Royal Oak com grande data, porque os Royal Oak tinham o problema, e ainda hoje alguns têm, da data muito pequenina. Ninguém consegue ver. A Audemars Piguet só lançou um Grande Data entre 2013 e 2014. Tenho vários relógios com grande data, mas porque o meu pai gostava desse género e eu fiquei igual. Não tenho um padrão, mas, se um dia tivesse de fechar o Museu e ficasse com um único relógio, seria o Lange 1 da A. Lange & Söhne.

Longines de ouro com corrente, estojo e fatura de compra em 1907. © Paulo Pires / Espiral do Tempo
Longines de ouro com corrente, estojo e fatura de compra em 1907. © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Se tivesse de destacar alguns relógios do Museu, quais seriam?
O Edward East, sem dúvida. Um grande sonnerie de há 400 anos é uma peça muito interessante. Edward East foi o relojoeiro da Casa Real Inglesa, entre os anos 1640 e 1680. Vivia literalmente no Palácio de Buckingham, e só fazia relógios para a corte inglesa e para alguns nobres de então. Segundo registos do passado, só foram feitos dois exemplares destes para o mundo e só há conhecimento do paradeiro deste; o outro pode estar numa qualquer coleção particular ou pode até já nem existir. Foi adquirido pelo meu pai há cerca de entre 15 a 20 anos a um grande colecionador de Macau português e antes tinha sido adquirido num grande leilão. Veio para Portugal na altura das invasões napoleónicas. Todo ele é feito em bronze e toda a máquina é decorada com flores. Mecanicamente, este relógio já estava muito evoluído, porque já era um grande sonnerie, já nos dava as horas e os quartos de horas por som. E função de despertador. Era um relógio de centro de mesa, no centro de uma sala que era para tocar o som, dá um toque elevadíssimo. Poderia também destacar o Atmos da Jaeger-Le-Coultre; os visitantes que visitam o Museu e que nada percebem de relojoaria ficam boquiabertos com a história da potencial autonomia até aos seiscentos anos e pelo facto de não ser necessário dar-lhe corda. Por fim, por uma questão também de romantismo, destacaria um Longines de ouro com corrente, estojo e fatura de compra, em 1907, e que foi adquirido por uma pessoa de Serpa que foi a Setúbal para comprar uma joia para a mulher em celebração dos seus 25 anos de casamento. Mais de 110 anos depois, continua no seio da mesma família.

Quanto aos modelos de pulso, quais destacaria? Já mencionou o Lange 1. Como é que foi adquirido?
O meu pai marcou uma viagem ao Porto para irmos comprá-lo ao Sr. António Machado. Tínhamos o hábito de deixar o carro em Lisboa e ir no Alfa Pendular para o Porto. Para uma criança do Alentejo, era algo extraordinário. Mas como o Alfa Pendular era à tarde, fomos almoçar às Amoreiras. Lembro-me de ver nas televisões das lojas imagens de uns prédios e de uns aviões que me levaram a questionar que filme seria aquele. Chegámos ao Porto, e o Sr. Machado foi-nos buscar à estação. Fomos jantar e quando chegámos ao hotel, à noite, vimos nas notícias que tinha acontecido o atentado de 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque. Por tal, eu nunca esquecerei o dia em que aquele relógio foi comprado. Também destacaria o Dubey & Schaldenbrand Index Mobile, um cronógrafo do final dos anos 40 com uma mola em cima no mostrador para a função rattrapante.

Tissot "Escrava" (1935) desenhado por Pablo Picasso. © Paulo Pires / Espiral do Tempo
Tissot “Escrava” (1935) desenhado por Pablo Picasso. © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Dá para perceber se o público mais jovem que entra no Museu fica fascinado?
Sim, mas não é fácil manter a concentração das crianças. Tenho sentido nos últimos anos um desinteresse muito grande por parte da faixa entre os 15 e os 25 anos; nessa fase, ainda não se identificam com o mundo dos relógios. E caso já exista essa identificação, é porque o pai já a tinha assegurado. O que tenho vindo a sentir aqui neste Museu é o decréscimo da idade média dos colecionadores. Há 20 anos, o colecionador tinha mais de 50 anos de idade, porque tinha a ver com a questão económica e um estilo de vida já mais estabilizado. Hoje, já começo a ver pessoas com um poder económico maior a comprarem mais cedo, mesmo que tenham um poder económico limitado, a quererem comprar pelo menos um ou dois relógios por ano, e já com padrões aos 30/35 anos. Tenho sentido um decréscimo de idades no gosto pelo vintage, o que é muito bom, porque faz eternizar estas peças que tendem a ser muito flutuantes. Hoje, estão na moda e amanhã não sabemos.

Modas no que diz respeito à procura de marcas específicas?
Felizmente, começou a haver maior procura por marcas desconhecidas. Há quatro ou cinco anos era impensável encontrar pessoas que quisessem comprar um tool watch ou adquirir um Nivada ou um Yema. Não havia comprador. Os únicos relógios vintage que se compravam eram das marcas solidificadas: Omega, Breitling, Rolex, entre outras. As outras não tinham procura. As pessoas restauravam porque era do pai, do avô ou tinham porque estava barato e compraram.

À dta: coleção de chaves para dar corda aos relógios. © Paulo Pires / Espiral do Tempo
À dta: coleção de chaves para dar corda aos relógios. © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Hoje em dia já começam a aparecer pessoas que querem coisas diferentes…
Fico feliz. Mas faz-me muita confusão o colecionismo de estar na fila, a valorização do que são os defeitos; um relógio com defeitos passa a ter uma conotação positiva? É o mesmo que ter o meu Rolls-Royce com os estofos todos estragados. Mostradores estragados, lunetas trocadas por erros nas fábricas. As pessoas valorizam os defeitos em determinadas marcas, mas os mesmos noutras marcas já não valem nada. Há quem ande com um mostrador todo partido ou no qual mal se conseguem ver as horas só por causa da marca. Aí está-se a valorizar a marca, porque se o relógio dissesse ‘Zé da Silva’ não andavam com ele. Portanto, isso é o colecionismo de ir na fila. E quando essas marcas têm uma cotação acima da média é porque a fila é grande. Nós temos duas formas de chegar ao sucesso e o colecionismo é igual: ou fomos na fila esperando pela nossa vez ou vamos por caminhos mais difíceis. Há uns 10/15 anos, sentia que quem comprava relógios vintage era quem não tinha poder económico para comprar os novos, sem dúvida. Hoje já sinto o inverso.

Há etapas pensadas para o futuro do Museu do Relógio?
Além de uma planificação a médio e longo prazo, é um sonho meu conseguir concentrar no Museu, além dos restauros mecânicos, das madeiras e dos esmaltes, também o restauro de mostradores. A única oficina com essa capacidade em Portugal fechou há pouco tempo e não existe mais nenhuma com essa habilidade. Se isso se tornasse possível, estaríamos a eternizar a arte do restauro e ao mesmo tempo estaríamos no sítio certo, um sítio neutro: as pessoas passavam a saber que se quisessem restaurar o mostrador, vinham ao Museu do Relógio.

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