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Fangio, um sinónimo de velocidade

Mais um regresso aos arquivos que fazem parte das duas décadas de edição da Espiral do Tempo. Hoje revisitamos o fascinante Museu de Fangio, numa reportagem que foi publicada no número 42 da nossa revista. Estávamos em 2013 e tinham passado 50 anos desde o lançamento do Heuer Carrera, inspirado na lendária Carrera Panamericana. A Espiral do Tempo foi até à Argentina conhecer o fabuloso legado de Juan-Manuel Fangio e perceber aas razões pelas quais o piloto e a prova se mantêm como fonte inesgotável de fascínio e inspiração.


Reportagem publicada no número 42 da Espiral do Tempo (primavera de 2013).


Monaco GP 1957
Monaco GP 1957 | © Jean-François Galeron

A linha negra traçada pela reta asfaltada perde-se no horizonte depois de rasgar a meio a interminável paisagem da planície. A 140, o ruído do motor é abafado pelo do vento que entra por uma janela entreaberta numa tentativa de baixar os mais de 30ºC do verão do hemisfério sul. Estamos em fevereiro, e para trás deixámos uma Lisboa invernosa que, apesar dos 9600 km de distância, é incapaz de nos incutir o tradicional sentimento de saudade perante o sol e o azul forte do céu do novo mundo. A estrada de Buenos Aires para Balcarce estende-se ao longo de 400 km, num trajeto orientado a sudeste, onde uma ou outra curva ocasional fazem deslocar a paisagem verde cuja escala desmesurada nos apanha desprevenidos. Três horas de viagem, sem sequer sair da província de Buenos Aires, atestam bem a dimensão de um país extraordinário que tem tudo para ser feliz. 

Fangio
Juan Manuel Fangio | © TAG Heuer

Em 1950, o piso desta mesma estrada era em tudo semelhante a uma outra, 7500 km mais a norte, que viria a ser o palco de uma das mais famosas provas automobilísticas da história. A Carrera Panamericana era provavelmente a mais perigosa das corridas do seu tempo. Organizada entre 1950 e 1954, contava com diversas etapas que se desenrolavam em dias consecutivos e fora lançada com a ideia de promover o troço Mexicano recém concluído da autoestrada Panamericana que ligava a América do Norte à América Central. Ao todo, inscreveram-se 132 carros para a primeira corrida com predominância para os grandes carros americanos da época. Alguns dos pilotos notáveis do seu tempo a participar na primeira Carrera Panamericana incluíam os pilotos de Formula 1 italianos Piero Taruffi e Felice Bonetto num par de Alfa Romeo 6C25 coupé, e o francês Jean Trévoux num Delahaye tipo 1.75.

TAG Heuer Carrera Calibre 1887 Jack Heuer Edition
TAG Heuer Carrera Calibre 1887 Jack Heuer Edition | Ref: CAR 2C11.FC6327 | © TAG Heuer

«Ele era muito especial, tanto no carro como fora dele, na forma como tomava conta do nosso desporto. Tinha carisma e nunca abusava dessa qualidade.»

Jackie Stuart

A chegada a Balcarce faz-nos regressar deste passado glorioso das primeiras corridas de automóveis da América do Sul e é antecipada por uma ligeira mudança no relevo da paisagem, que agora se eleva em alguns pontos ao redor desta cidade com 44.000 habitantes. A quadrícula desenhada a régua e esquadro do mapa de Balcarce é típica das cidades que nasceram no século XX e que cresceram sem constrangimentos territoriais. O primeiro cruzamento da cidade denuncia o motivo da nossa visita, onde um monumento concebido pelo artista plástico Carlos Regazzoni reproduz à base de discos de arado o famoso Mercedes-Benz W196 de Juan-Manuel Fangio. Esta é inequivocamente a cidade natal do piloto lendário que escreveu uma das mais belas páginas da história da Formula 1 e que na Argentina foi elevado à condição de herói nacional. O palmarés de Fangio é tão imenso que em termos percentuais provavelmente jamais será batido. O piloto argentino correu em 51 Grandes Prémios de Formula 1 dos quais ganhou 24, estabelecendo 28 pole positions e 23 voltas mais rápidas. Ao longo de sete épocas completas de Fórmula 1 arrecadou nada menos do que cinco campeonatos do mundo disputados a outros pilotos históricos como os inesquecíveis Sir Stirling Moss ou Alberto Ascari. Sobre a perícia invulgar de Fangio ao volante de um carro de corridas, Moss recordava que, onde à saída de uma curva Ascari tocaria apenas ao de leve numa palha, Fangio passaria por ela apenas a um milímetro de distância. Um outro testemunho da sua incrível habilidade, entre muitos, surgiu em 1950 no Mónaco onde evitou um acidente com diversos carros porque, ao se aproximar da curva cega onde ocorrera, reparou que os espectadores não estavam a olhar para ele, mas antes na direção oposta. Ao adivinhar algo fora do normal travou a fundo detendo-se a poucos metros do grupo de carros acidentados.

TAG Heuer Carrera Chronograph Calibre 1887
TAG Heuer Carrera Chronograph Calibre 1887 | Ref: CAR 2A10.BA0799 | © TAG Heuer

«Cada ano há um vencedor do campeonato, mas não necessariamente um campeão do mundo. Penso que Fangio é o exemplo de um verdadeiro campeão do mundo.»

Ayrton Senna

Alguns dos carros históricos com que Fangio correu estas provas e ganhou estes campeonatos estão expostos num dos principais pontos de atração da cidade de Balcarce. O Museu Juan Manuel Fangio inaugurado em 1986 mostra-nos as corridas de automóveis não só como uma disciplina desportiva, mas também como uma genuína paixão do povo argentino. De uma forma lúdica, mas muito bem documentada, a vida do filho mais famoso de Balcarce é-nos contada numa sequência cronológica desde a sua infância humilde, passando pela sua primeira oficina de reparação automóvel que abriu com o seu amigo José Duffard, o seu início como piloto em 1936, e os campeonatos do mundo que ganhou em 1951, 54, 55, 56 e 57 até ao momento em que se retirou das corridas. É entre os 50 carros expostos ao longo dos 4600 metros quadrados de área de exposição que vamos encontrar o Lancia D24 com que Juan Manuel Fangio ganhou a Carrera Panamericana em 1953. Uma visão que nos trás de novo à memória as imagens fascinantes desta corrida e que uma década depois viriam a inspirar Jack Heuer na criação de uma coleção lendária de relógios.

Juan Manuel Fangio
Fangio | © TAG Heuer

A Carrera Panemericana viria a terminar com a última corrida em 1954, e há quem argumente que terá sido o elevado grau de perigosidade da prova que terá ditado o seu fim. Mas esses tempos e essas corridas eram vividas pelos pilotos de uma forma que não só desafiava o perigo eminente como quase lhe dava as boas vindas. Com as velocidades praticadas durante a corrida, a estrada convertia-se num inimigo mortal onde após 30, 40 ou 50 km de reta, do nada surgia uma curva totalmente desconcertante para o piloto. Este fator, aliado aos 3060 km de extensão e cinco dias desde Tuxtla Gutierrez na Guatemala até à cidade de Juarez ao pé do Rio Bravo, mesmo junto à fronteira com os Estados Unidos, ainda faziam sonhar Jack Heuer quase uma década depois, em 1963: «Foi Pedro Rodriguez quem primeiro me contou sobre a Carrera durante as 12 Horas de Sebring, onde éramos o Cronometrador Oficial. Ele e o seu irmão Ricardo eram dois dos pilotos de endurance mais espertos, corajosos e rápidos de todos os tempos. Ouvi-los falar sobre a Carrera, que o nosso amigo de longa data Juan-Manuel Fangio tinha ganho em 1953, mas que tinha sido terminada em 1955 devido ao número de fatalidades, estimulou a minha imaginação. Só a forma como o nome da corrida se fazia ouvir – elegante, fácil de pronunciar em todas as línguas e carregado de emoção. Percebi nessa altura que o meu novo cronógrafo era o tributo perfeito para esta lenda.»

«No desporto automóvel nunca voltou a haver um embaixador com a sua estatura. Ele era muito especial, um verdadeiro ‘gentleman’.»

Sir Stiling Moss

A nossa viagem até Balcarce na Argentina não foi assim obra de um qualquer acaso. A comemoração dos 50 anos do surgimento da linha Carrera da TAG Heuer apenas faziam sentido na cidade natal daquele que provavelmente terá sido o maior piloto de todos os tempos. Ao longo de todos os locais que visitámos, desde a estância El Casco de Fangio, onde pernoitámos e onde Fangio passou muitos dos seus dias, passando pelo Fangio Sport Café, onde jantámos na companhia de alguns membros da Fundação Fangio, até ao Museu que é o único no mundo dedicado apenas a um só piloto, lentamente fomo-nos deixando influenciar pela sua história, carreira e personalidade. Mas mesmo a experiência marcante de conduzir alguns carros históricos do piloto ao longo do traçado do autódromo desenhado pelo próprio Juan-Manuel Fangio não se sobrepôs à admiração e quase reverência com que todos sem exceção descreveram o piloto já desaparecido. Fossem membros da Fundação ou apenas quem tivesse tido o privilégio de privar com Fangio em vida, invariavelmente a descrição da sua pessoa raiava a divindade com um enfâse muito claro numa personalidade que hoje já não se encontra entre os atuais pilotos de Formula 1. 

Museu Fangio
Museu Fangio | © TAG Heuer

O mesmo se passou aliás com alguns pilotos com quem Fangio privou e que deixaram o seu testemunho para a história. Segundo o lendário Sir Stiling Moss, Fangio “era um homem muito humilde, que nunca culpava ninguém por coisa nenhuma. Ele era genuinamente honesto e nunca o vi fazer qualquer manobra desonesta. No desporto automóvel nunca voltou a haver um embaixador com a sua estatura. Ele era muito especial, um verdadeiro gentleman“. Segundo Jackie Stuart, campeão do mundo em 1969, 71 e 73, era sempre difícil separar Fangio, o piloto, de Fangio o ser humano: «Como homem ele era sem dúvida o maior dos pilotos de corridas. Sempre o vi como o melhor dos embaixadores do desporto automóvel aonde quer que fosse. Ele era muito especial, tanto no carro como fora dele, na forma como tomava conta do nosso desporto. Ele tinha carisma e nunca abusava dessa qualidade». O grande Graham Hill, campeão do mundo em 1962 e 68 descreveu-o como «um dos melhores pilotos de todos os tempos, provavelmente o maior. Ele foi a pessoa mais incrível que já conheci. Era o “Maestro” e o público adorava-o. Sempre que entrava numa sala, todos sentiam a sua presença, mesmo antes de o ver. Os pontos que ele recolheu na sua carreira de 51 Grandes Prémios ao longo de sete épocas no Campeonato do Mundo, eu demorei 116 corridas e onze anos a igualar até ser o primeiro piloto a bater essa marca». Mas nenhuma descrição alcança o significado da proferida pelo seu grande admirador, Ayrton de Sena: «Cada ano há um vencedor do campeonato, mas não necessariamente um campeão do mundo. Penso que Fangio é o exemplo de um verdadeiro campeão do mundo.»

Museu Fangio
Museu Fangio | © TAG Heuer

«Os pontos que ele recolheu na sua carreira de 51 Grandes Prémios ao longo de sete épocas no Campeonato do Mundo, eu demorei 116 corridas e onze anos a igualar até ser o primeiro piloto a bater essa marca.»

Graham Hill

O trajeto inverte-se, e a longa linha negra traçada pela estrada orienta-se agora de regresso em direção a Buenos Aires, deixando Balcarce transformar-se num pequeno ponto prestes a desparecer no espelho retrovisor. Para trás ficam as experiências, os locais e as pessoas cujas memórias nos hão de acompanhar durante muito tempo. Apesar de nos ter deixado há tantos anos, afinal ainda é possível conhecer Juan-Manuel Fangio através da influência que a sua personalidade singular incutiu nos testemunhos que deixou tanto ao nível das pessoas com quem lidou como da obra cujo maior expoente se traduz no Museu Juan-Manuel Fangio. À medida que o carro acelera recordo-me de uma passagem no obituário de Fangio escrita pelo jornalista David Tremayne: «Apenas os grandes desportistas são tão apreciados enquanto estão a competir como quando já se aposentaram. No caso de Juan-Manuel Fagio o seu carisma envolveu-o num estatuto a que apenas os deuses podem ambicionar. O seu nome acabou por se tornar um sinónimo de velocidade.»

Museu Fangio
Museu Fangio | © TAG Heuer

Saiba mais no site oficial do museu.

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