fbpx

Tempo é dinheiro?

A partir do século XIX, a Igreja deixou de controlar o tempo. A ainda incipiente sociedade industrial precisava de novas referências horárias que não estivessem ligadas ao Sol. Com o passar dos séculos, outras ruturas se foram sucedendo, todas elas ligadas à medição do tempo, às horas de trabalho e de lazer, à relojoaria e às inovações científicas. Dominá-lo passou a ter um valor económico. O tempo é dinheiro.

[ Imagem de abertura: Harold Lloyd em O Homem Mosca (Safety Last!), filme de 1923 em que o protagonista que se muda para a cidade tentando ser bem sucedido, produziu uma das mais icónicas imagens do cinema.]

Andamos muitas vezes como o coelho branco de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, que olha sem cessar para o seu relógio, atormentado pela falta de tempo. A rapidez dos tempos, a sensação de estarmos atrasados, foi algo que foi crescendo com a sucessão dos séculos. No início da década de 60 do século XX, o historiador britânico E. P. Thompson começou a recolher exemplos de povos que tinham uma noção diferente do decorrer do tempo. Em Madagáscar, havia uma palavra para designar o tempo que levava a cozer arroz e outra para o tempo que levava a assar um gafanhoto. Na Birmânia (hoje, Myanmar), existiam monges que começavam o dia quando a luz era suficiente para se ver as veias de uma mão. Para Thompson, tinha-se, no presente, perdido a ligação a este mundo antigo e às leis da natureza. Agora, o tempo não passava; gastava-se. O tempo abstrato fora substituído pelo tempo capitalista. A reorganização do tempo pelas forças comerciais tinha sido outro passo na secularização que se reforçara na fase final da Idade Média, quando as forças comerciais e o tempo comercial tinham entrado em competição com o tempo litúrgico. Como a Igreja medieval, também os novos estados absolutistas do Renascimento estavam determinados a ficar com o monopólio do tempo e também a mais ameaçadora forma de tempo, o futuro, suprimindo a influência astrológica e apocalíptica das suas populações. As exigências do Estado moderno necessitavam de algo mais regular e mundano, e este era o colchão onde o capitalismo haveria de operar. Uma série de forças burocráticas, religiosas, culturais e políticas confluíram e forçaram as populações a mudar a sua relação com o Sol e as estações.

Igreja de Dunstable
A igreja de Dunstable com o seu mosteiro no Bedfordshire, Inglaterra, onde foi instalado o mais antigo relógio mecânico. Gravura de 1787. © Frontispiece

Como a Igreja medieval, também os novos estados absolutistas do Renascimento estavam determinados a ficar com o monopólio do tempo e também a mais ameaçadora forma de tempo, o futuro, suprimindo a influência astrológica e apocalíptica das suas populações.

Foi uma guerra muito sonora. O som dos sinos das igrejas rivalizava com o das vilas e cidades. Hoje, este é um passado muito remoto. Já ninguém ‘levanta a vista’ para comprovar a hora. Nos relógios de pulso ou nos telemóveis está a informação. Mas, durante a Idade Média, os relógios das fachadas eram o único meio de informação sobre as horas para os cidadãos. A partir do século XIV, a burguesia mercantil, motor da atividade económica nesse tempo, propôs-se retirar à Igreja o monopólio do tempo. A nova realidade laboral exigia uma leitura mais rigorosa das horas. Até aí, a Igreja tinha herdado parte do seu sistema horário do mundo romano. As 12 horas que marcavam os relógios de sol dividiam-se em quatro partes iguais. A «prima» compreendia o tempo desde o nascer do sol (que, dependendo da estação, tanto poderia ser às 4h30 min como às 7h30 min) até a meio da manhã; a «tercia», até ao meio-dia; a «sexta», até meio da tarde (coincidia com o momento de mais calor, em que nos países do sul se aproveitava para a sesta); e a «nona», até ao pôr do sol. As 12 horas da noite também se dividiam em quatro períodos, conhecidos por «vigiliae», igualmente variáveis em função da estação. Os monges da Idade Média adaptavam esta divisão do tempo nas suas ocupações espirituais. O resultado foram as sete horas canónicas destinadas à oração. O italiano S. Benito (480-547), fundador da vida monástica no Ocidente, foi o promotor desta divisão.

Tempo é dinheiro, E. P. Thompson
E. P. Thompson – Este historiador britânico foi um pensador sobre o tempo, suas relativas noções e o seu impacto do ponto de vista sociológico e laboral. O seu mais conhecido registo sobre o assunto é o ensaio «Time, Work-Discipline, and Industrial Capitalism».

Durante a noite e nos dias nublados, quando o relógio de sol não tinha nenhuma utilidade, recorria-se a diversos sistemas para calcular as horas canónicas. Fosse o relógio de vela ou a clepsidra. Este, também conhecido pelos egípcios, tinha um problema relacionado com a pressão da água. À medida que a Igreja se foi consolidando como a instituição mais poderosa da Europa medieval, o controlo do tempo ficou sobre o seu domínio. Era conhecida a máxima de São Benito: «o ócio é o inimigo da alma». Os sinos que os monges tocavam serviam para anunciar não só as horas canónicas, mas também as rotinas diárias dos povos. A partir do século XIII, com o surgimento dos relógios mecânicos, a Igreja assegurou-se de que a população podia cumprir, de maneira mais estrita, os seus deveres com Deus. Estendia-se a regra beneditina: «ora et labora.»

Durante a noite e nos dias nublados, quando o relógio de sol não tinha nenhuma utilidade, recorria-se a diversos sistemas para calcular as horas canónicas. Fosse o relógio de vela ou a clepsidra.

Tempo é dinheiro, Clepsidra e Relógio de vela.
Clepsidra e Relógio de vela. © https://aljazaribook.com

O primeiro relógio mecânico conhecido foi instalado em 1283 na abadia de Dunstable, uma cidade inglesa de Bedfordshire. Constava de duas rodas dentadas que se enganchavam uma na outra, graças a um mecanismo chamado escape. O movimento constante do escape é a fonte do famoso ‘tique-taque’, que se converteu na voz do tempo. Estes primeiros relógios estavam conectados com um sino. Mas não mostravam a hora, só a faziam soar. No século XIV, a hora começou a ser visualizada graças à introdução de uma agulha no centro de uma esfera numerada. O seu inventor foi o astrónomo italiano Jacopo Dondi, que popularizaria este sistema ao fabricar, em 1344, em Pádua, o primeiro relógio astronómico, que não só marcava a hora, mas também os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas. Mas estes primeiros relógios eram caros e imprecisos. A temperatura afetava a expansão e contração das suas peças metálicas, fazendo com que sofressem alterações de entre 15 e 30 minutos por dia, pelo que era necessário regulá-los diariamente. Por isso, os relógios de sol continuaram a desempenhar um papel fundamental.

Relógio de vela
Relógio de vela, Não é clara a origem dos relógios de vela, sabendo-se que, no entanto, a referência mais antiga surge num poema de You Jiangu em 520 a.C.

Com a propagação deste tipo de relógios, a vida quotidiana das cidades do Ocidente foi-se, pouco a pouco, modificando. A jornada laboral de um agricultor sempre variou muito ao longo do ano, já que estava sujeita à luz do Sol, que depende da estação. Em geral, trabalhava de ‘sol a sol’. Os campanários das igrejas davam algumas referências horárias, mas não eram muito regulares. Os toques que anunciavam o amanhecer ou o crepúsculo eram imprecisos. Além disso, os toques de sino podiam variar de igreja para igreja, o que podia causar grande desconcerto. Na incipiente sociedade industrial da baixa Idade Média (séculos XI a XIV), as oito horas canónicas perderam o sentido. O trabalho já não podia regular-se pelo tempo pausado da Igreja, mas por horas concretas. Não em vão, descobriu-se que o tempo investido num produto podia condicionar o seu preço, assim como a retribuição dos trabalhadores. As feiras nas nascentes novas cidades necessitavam de uma outra forma de trabalho e de distribuição. Iniciou-se uma guerra não declarada entre a Igreja e a burguesia pelo controlo do tempo. Um dia-chave para esta disputa foi o 24 de abril de 1355. Naquele dia, o rei francês Filipe VI concedeu à cidade de Amiens a faculdade de indicar, através do toque de um sino, as diferentes ocupações do dia — o momento de ir trabalhar, o do descanso para comer, o do regresso à atividade laboral e o da sua finalização. Era um corte com o passado. O tempo agrário era substituído pelo das cidades. E este precisava de relógios.

Os avanços tecnológicos não tardaram a tornar requisitado o ofício de relojoeiro. Não paravam de viajar de cidade em cidade, construindo grandes relógios mecânicos para serem instalados nas torres dos edifícios civis. Assim, a pouco e pouco, o tempo não só se libertou do Sol, como também se secularizou. Muitos pensadores do seu tempo interessaram-se pela construção de relógios. Com o homem no centro do universo no lugar de Deus, tratava-se de um instrumento muito em sintonia com a máxima latina do carpe diem (aproveita o dia), que viveu um momento de glória no Renascimento. Desta época, existe um dos mais famosos relógios laicos, o astronómico da cidade de Praga, do século XV. Muito mais tarde, Matteo Ricci, em terras da China, haveria de dizer que os relógios eram uma obra de Deus. Mas, no início, eles tiraram o tempo das mãos de Deus e colocaram-no na dos comerciantes.

Relógio astronómico de Praga
O relógio astronómico de Praga foi instalado em 1410 tornando-o o terceiro relógio astronómico mais antigo do mundo e o mais antigo ainda em funcionamento.

Começaram também a surgir os primeiros dispositivos portáteis. Não se tinha de ir para um determinado local para saber a hora. Os progressos tecnológicos levaram a que, no início do século XVI, um alemão de Nuremberga, Peter Henlein, fabricasse os primeiros relógios de bolso de que se tem notícia, conhecidos por ‘ovos de Nuremberga’, devido ao seu formato. Há quem conteste este mito, mas não há certezas absolutas. David S. Landes, no seu seminal A Revolução no Tempo, escreve mesmo: «A economia temporal encontrou a sua expressão nos horários. Os métodos clericais expandiram-se pelo mundo secular, muitas vezes através dos professores, que eram, ao mesmo tempo, membros do clero ou que tinham aprendido nos bancos de uma escola monástica. O primeiro colégio de Oxford a estipular horas nas suas regras foi o All Saints, em 1443; foi mais ou menos nesta altura que se começou a impor horas aos príncipes e aos nobres.» No século XVII, deu-se um grande passo na leitura do tempo. O matemático e físico holandês Christiaan Huygens construiu, em 1657, o primeiro relógio de pêndulo. Este invento, muito mais preciso do que os anteriores, foi possível, graças aos princípios dos movimentos oscilatórios estudados anteriormente por Galileu Galilei. Este, ao observar a oscilação de um candeeiro na Torre de Pisa, descobriu a aplicação do movimento pendular.

Ovo de Nuremberga de Peter Henlein
Um dos ovos de Nuremberga de Peter Henlein, construído cerca de 1510. © Germanisches National Museum

Huygens dividiu a hora em 60 minutos e estes em 60 segundos. Recuperava o sistema dos antigos sumérios. A irrupção do pêndulo incrementou a procura de relógios. Em meados do século, em Inglaterra, com a Revolução Industrial, estava maduro o processo de apropriação do tempo que se havia iniciado na baixa Idade Média. O proletariado, que trabalhava por turnos diurnos ou noturnos, estava dependente dos minutos e segundos marcados pelos relógios das fábricas. Então, generalizaram-se os despertadores domésticos, que asseguravam a chegada pontual dos trabalhadores às fábricas. Do ponto de vista capitalista, as horas eram fonte de benefícios. Não havia tempo a perder.

Outro grande desafio à navegação comercial, e que simboliza a deslocação do poder económico do sul para o norte da Europa, foi a determinação da longitude. Se é fabuloso que as aventuras portuguesas e espanholas tenham ocorrido só com a capacidade de cálculo da latitude, nos séculos XVI e XVII muitos tentaram decifrar algo que poderia modificar para sempre a certeza da arte de navegação. Ao introduzir um relógio de molas, o primeiro cronógrafo marítimo, o relojoeiro inglês John Harrison ultrapassou as condições adversas que se colocavam no mar. O risco e o desafio colocado pela longitude moveram as mentes. O ideal era conhecido – o acesso às riquezas do Oriente e das Índias Ocidentais.

Relógio de sol portátil
Relógio de sol portátil com bússola originário do Japão. Segunda metade do Séc. XIX. © www.lempertz.com

Antes do advento dos tempos sincronizados no Ocidente, as torres das igrejas, das praças e das estações de comboios na Europa e na América utilizavam o tempo solar. As vilas e cidades seguiam cada uma o seu tempo e os viajantes tinham de estar sempre a mudar as horas nos relógios, se fizessem grandes percursos. Na segunda metade do século XIX, a necessidade de sincronizar os horários dos comboios foi uma força enorme de estandardização e mudança. Era preciso uma hora de referência para todas as outras, porque a longitude a isso obrigava. Greenwich prevaleceu, em 1884, por causa da força das companhias de caminho de ferro britânicas e também porque já era referência dos marinheiros. Os relógios precisos eram cada vez mais necessários. A guerra e a segurança também foram fatores importantes para esta mudança. A Alemanha, por exemplo, unificou o seu tempo em 1870, como parte do processo de unificação. De resto, o grande propagandista liberal alemão Friedrich Naumann estava a pensar na utilização ideológica do espaço e do tempo quando, no início da Primeira Guerra Mundial, cunhou o termo «Mitteleuropa» para se referir a uma nova zona geográfica que poderia incorporar mais povos no seio dos ritmos alemães.

(…) Matteo Ricci, em terras da China, haveria de dizer que os relógios eram uma obra de Deus. Mas, no início, eles tiraram o tempo das mãos de Deus e colocaram-no na dos comerciantes.

Utilizar o tempo a favor dos interesses económicos e sociais tornou-se também uma paixão. Um grande defensor do tempo de verão foi o inventor William Willett, em cujo panfleto The Waste of Daylight argumentava que simplesmente ajustando os relógios para se ter mais luz no verão, mais trabalho poderia ser feito durante o dia, e os trabalhadores poderiam ter mais tempo para o exercício e o contacto com o ar livre. Vozes soaram contra: achavam que destruiriam o sono e a lógica de trabalho. A discussão ainda se mantém hoje. O controlo do tempo continuou a gerar fricções. Em 1793, a França revolucionária impôs um sistema decimal, com o dia dividido em 10 horas de 100 minutos cada. Só durou 12 anos, até Napoleão reinstalar as tradicionais 24 horas de 60 minutos. Mas a ideia não morreu: em 1949, Mao Zedong substituiu as cinco zonas horárias chinesas, por uma, a de Pequim (Beijing). Na Rússia soviética, a existência de 11 zonas horárias era um sinal de orgulho, porque mostrava a vastidão do poder do Kremlin. No virar do século XX, os anarquistas tentaram atingir símbolos do tempo com o Observatório de Greenwich.

William Willett
William Willett, Construtor inglês, membro da Sociedade Astronómica Real e autor do panfleto The Waste of Daylight, foi o grande promotor do horário de verão em Inglaterra que alterou para sempre a relação do tempo com o horário de trabalho.

Foi a lógica económica que também criou os dias e as horas de descanso. Se na Antiga Roma, a cada oito dias, havia um dia livre, o do mercado, onde as crianças não eram obrigadas a ir à escola e os plebeus não tinham de trabalhar para vir à cidade vender os produtos e exercer os ritos religiosos, os dias sagrados das diferentes religiões criaram novos hábitos. O conceito atual de fim de semana nasceu na zona industrial do norte da Grã-Bretanha, após greves dos trabalhadores. Nos EUA, Henry Ford começou a fechar as suas fábricas aos sábados e domingos em 1926. A razão era óbvia: o industrial queria vender carros aos seus trabalhadores e, para isso, precisava de que eles tivessem tempo para utilizá-los. Dar tempo também era ganhar dinheiro.

Percebe-se, hoje, como os relógios dirigiram o desenvolvimento do Ocidente, abrindo caminho para a Revolução Industrial e para as formas mais avançadas de capitalismo. Os relógios permitiam medir o tempo de forma criteriosa e uniformizada. A pontualidade altera a forma como vivemos. O relógio mecânico, melhor ou pior, permitiu isso. Criando uma civilização alternativa ao passar do tempo natural, onde a produtividade e o desempenho são cruciais. Parte de uma lógica que recupera as famosas palavras de Benjamin Franklin, em 1748: «Lembrem-se de que o tempo é dinheiro.» Resta saber como será o futuro, com a robotização e a inteligência artificial. Não havendo trabalho para todos, como se dividirá o tempo? Quem o controlará? Mas a resposta a estas perguntas vale mil milhões de euros. Ou mais.

Artigo originalmente publicado no número 70 da Espiral do Tempo (primavera 2020).

 

Outras leituras